— Ele é um gato, gostoso mas também é um cavalo... — sussurrou Livy, encostando a testa na parede fria do vestiário.
— Um quê? — Adam apareceu do nada, com a bandeja de café na mão e um sorriso zombeteiro nos lábios.
— Cavalo. Troglodita. Médico da Idade da Pedra. — Ela pegou o copo de café com raiva e suspirou. — Só faltou me pedir pra esfregar o chão com escova de dente. Ou uma massagem nos pés.
Adam soltou uma gargalhada alta, atraindo olhares de dois residentes que passavam pelo corredor.
— Você tá exagerando. Aposto que ele só é... disciplinado. Típico perfil de médico asiático, disciplinado. Com Foco, Rigor. Sem mimimi.
— Rigor? Adam, ele me mandou refazer um relatório inteiro sem ao menos olhar pra minha cara. Disse: “Está amador.” Isso sem ler duas linhas!
— Ponto pra ele. Você é amadora mesmo — provocou.
Livy socou de leve o ombro dele, rindo sem humor.
— Ele parece um robô, sabia? Nunca sorri, nunca pisca. Só surge atrás de você com aqueles olhos pretos gelados que leem sua alma e julgam seu currículo inteiro.
— Relaxa, Livy. Ele é novo, tá testando limites.
— E eu virei o playground de psicoterror dele? Eu trabalho um dia sim e outro não, mas só em dois plantões com ele eu já tenho material pra escrever um drama coreano! Ou um terror coreano.
Adam deu um gole no próprio café e murmurou:
— Se escrever, coloca meu nome. Eu quero ser o mocinho que salva a mocinha desastrada do médico rude.
— Você seria o figurante engraçado que morre de rir quando eu tropeço — respondeu, fazendo careta.
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Nos plantões em que Livy cruzava com Min-jae, o ar parecia ficar mais denso.
Ele nunca levantava a voz, não precisava. Seus silêncios eram sentenças. Seus olhares frios, mais dolorosos que qualquer bronca.
Na terça-feira seguinte, ela voltou ao hospital depois do dia de folga, esperançosa de ter um dia mais leve. Ilusão.
— Enfermeira Livy — chamou ele no meio do corredor, com o tom firme e o olhar ainda mais firme.
Ela engoliu seco.
— Doutor?
— Você colocou a ficha da paciente no lugar errado. A triagem precisa ser organizada. Isso aqui é um hospital, não um bazar.
Ela piscou, surpresa com o ataque repentino.
— Mas... eu só segui o protocolo do posto...
Ele virou-se, fixando nela o olhar escuro como poço sem fundo.
— E ainda assim está errado.
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Mais tarde, já no final do expediente, ela se sentia arrastando o corpo. Aquela rotina estava virando tortura. Min-jae era exigente, frio, metódico e não havia brecha sequer para um suspiro.
— Eu tô exausta, Adam. Minha cabeça dói, minha perna tá doendo, e minha alma já pediu demissão — disse ela, largando-se numa cadeira perto do refeitório.
— Eu disse que ele era intenso... mas talvez você esteja levando pro pessoal.
— Ah, não. Não é pessoal. Ele é assim com todo mundo. Eu só sou a que mais resmunga depois.-_ Diz Livy bocejando
Adam riu, e um grupo de enfermeiras se aproximou animado.
— Livy! — chamou uma delas. — Bora pro barzinho hoje? Vamos no Largo da Ordem, tomar uma e esquecer esse plantão infernal!
Ela hesitou por meio segundo… mas logo seus ombros relaxaram e um sorriso nasceu.
— Eu topo. Preciso me lembrar que existe vida fora desse hospital... e que nem todo homem veste jaleco e tortura minha sanidade.
Adam piscou.
— Isso, garota. Vamos brindar à sobrevivência de mais um dia com o Doutor Gelo.
Ela se levantou e jogou a mochila no ombro.
— Sobrevivência, nada. É guerra psicológica.
E enquanto saíam rindo pelo corredor, Min-jae observava de longe... com as mãos nos bolsos e o olhar atento.