O som do samba ao vivo ecoava leve pelo Largo da Ordem. Livy ria alto com suas amigas, sentada no canto de uma mesa de madeira lotada de copos, petiscos e histórias m*l contadas.
— E eu juro que o paciente arrancou o soro e saiu correndo pelo corredor gritando que era Jesus reencarnado! — gritou Amanda, arrancando gargalhadas da roda.
Livy quase cuspiu a cerveja.
— Curitiba tá virando série da Netflix e ninguém me avisou!
Ela estava vestida com uma saia longa estampada e uma blusinha solta, o cabelo ruivo preso de qualquer jeito, dando a ela um ar ainda mais leve. Aquela noite, ela se permitia esquecer o jaleco... e o doutor gelado que vinha tirando a paciência que ela jurava não ter.
Até que Letícia, uma técnica da emergência, se inclinou sobre a mesa com aquele típico olhar de quem tem algo quente demais pra guardar só pra si.
— Gente, vocês já ouviram o babado do médico novo? O coreano?
Livy travou no gole.
— Qual babado? — fingiu desinteresse. Péssimo teatro.
— Min-jae. Dizem que ele veio pro Brasil por um motivo nada profissional… — Letícia fez suspense. — Falaram que ele largou um cargo importante em um hospital famoso da Coreia depois de um escândalo.
— Escândalo? — Amanda arregalou os olhos.
— Uma mulher. Ou melhor, uma paciente. Apaixonada por ele. Dizem que ficou doente de verdade por causa dele.
— Que absurdo — Livy rebateu, rindo forçada. — Isso parece novela.
— Vai saber — Letícia deu de ombros. — Só sei que ele se isolou geral depois disso. E agora chegou aqui como se o mundo inteiro estivesse no volume baixo… Menos a Livy — provocou, rindo.
— Eu sou o quê? O rádio ligado no 30? — Livy gargalhou, mas por dentro, algo remexia. Paciente apaixonada? Passado misterioso? Era quase... decepcionantemente clichê.
Mas ela ignorou o pensamento. Ou tentou.
Ponto de vista: Min-jae
Observo ela sair novamente com Adam, sorrindo e alegre.
O hospital tinha um som característico, vozes apressadas, passos secos no chão frio e o bip intermitente das máquinas de monitoramento. Mas o que Min-jae ouvia, era algo mais sutil. Sussurros. Risadinhas. Olhares desviados assim que ele passava.
Ele não ligava para fofocas. Pelo menos, não costumava ligar.
Até que ouviu seu nome saindo da boca de duas enfermeiras que conversavam próximo à sala de medicação.
— …mas é verdade sim. Ele era chefe de um setor inteiro lá na Coreia. Foi um escândalo enorme, só não virou notícia porque abafaram.
— Nossa… mas ele é tão fechado.
— Justamente. Falaram que uma paciente se apaixonou por ele. Dizem que ele cedeu por um tempo… até o marido da mulher descobrir. Rolou um processo, ou quase isso. Desde então, sumiu. E apareceu aqui como se nada tivesse acontecido.
Min-jae parou no meio do corredor. Não podia ver os rostos das mulheres, mas o sangue já fervia. Aquilo era mentira. Ou... um pedaço distorcido da verdade. Mas, acima de tudo, era pessoal. E perigoso.
Entrou na sala médica com passos silenciosos, como sempre, e apoiou-se na bancada.
A pior parte não era a mentira. Era o que vinha depois.
Encostado na sua cadeira, o pensamento começa a vagar.
Ele percebeu o olhar do Adam com Livy nos últimos dias. Abraços, risadas, códigos internos de amizade.
Ela era próxima demais daquele enfermeiro.
E isso incomodava. Mais do que ele queria admitir. Mais do que poderia.
Livy era uma enfermeira esforçada, sim. Mas também era impulsiva, barulhenta, emocionalmente instável e... encantadora. Do tipo que atrai confusão com um sorriso torto. Uma aventureira. E isso o irritava profundamente.
Ou será que o irritava... o fato de não conseguir ignorá-la?
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No dia seguinte, Min-jae chegou cedo — como sempre. Não teria plantão da Livy. Ele sabia disso. Era dia de folga dela.
O setor estava calmo. Até demais.
Estava prestes a entrar na sala de prontuários quando ouviu uma gargalhada que não deveria estar ali.
E então, viu.
Livy.
De vestido floral curto, pernas à mostra, cabelos ruivos soltos pelos ombros. Estava com os olhos levemente inchados, uma expressão de ressaca que ela não fazia esforço algum para esconder. E ao lado dela… Adam.
Conversavam e riam como dois adolescentes no recreio. Ele chegou a colocar a mão nas costas dela quando entraram juntos na recepção. Aquilo fez o estômago de Min-jae dar um giro esquisito.
Ficou parado, observando sem se aproximar.
Ela parecia outra pessoa.
Solta, leve, bonita de um jeito quase incômodo. Não havia jaleco, não havia protocolo, não havia o tom de voz educado.
Era só Livy.
E por um momento... ele odiou isso.
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Ponto de vista: Livy
Acordei com a cabeça latejando e a garganta mais seca que promessa de político. O quarto parecia girar, e meu travesseiro estava no chão.
— Meu celular…? — sussurrei, tateando o colchão como quem procura uma chave num campo minado.
Nada.
Levantei, praguejando baixinho e já odiando ter aceitado ir no barzinho. Foi divertido? Sim. Valeu a ressaca? Talvez. Mas perder o celular… Aí já era drama mexicano.
Peguei o celular da mamãe e liguei pro único ser humano que provavelmente saberia como me ajudar: Adam.
— Alô? — ele atendeu com a voz sonolenta.
— Amigo… socorro. Perdi o celular. Tô surtando. Perdi na rua, devo ter caído de bêbada.
— Calma, drama queen. Eu te deixei no Uber, lembra? Deve ter ficado na sala de descanso no hospital.
— Como eu vou viver sem celular? Como eu vou saber se o mundo acabou? Ou pior, se o turno foi alterado?
Ele riu.
— Vamos lá comigo. Eu ia passar no hospital de qualquer forma. Te busco em dez minutos.
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Entramos no hospital como dois adolescentes atrasados para a aula. Eu de vestido florido, cara de ressaca e dignidade esquecida no travesseiro.
— Se alguém me ver assim, eu finjo ser uma paciente. — brinquei.
— Relaxa, você tá linda. — Adam sorriu. — Meu namorado volta hoje, então tô imune a qualquer ruiva de vestido curto.
— Ele volta hoje? — arregalei os olhos. — E você tá aqui comigo no hospital? Eu te amo.
— Eu sei. — ele disse teatralmente, me empurrando levemente pelo ombro.
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Foi aí que senti aquele arrepio na nuca. Olhei para o lado e vi ele: Min-jae.
Encostado próximo à sala dos prontuários. Olhar duro. Imóvel. Frio como sempre. Mas... havia algo ali. Um olhar mais... atento?
Tentei sorrir, mas ele desviou.
— Alguém hoje acordou com o humor de um cacto. — sussurrei para Adam.
— Ele tá com ciúmes.
— De quê?
— De nós. — Adam deu de ombros.
— Para, você é gay.
— Mas ele não sabe. E mesmo que soubesse, eu acho que não importa. Ele quer você por perto.
— Ele quer me m***r. Isso sim.
— Talvez seja o jeito dele de... gostar.
— Então me odeie em silêncio, senhor coreano. — murmurei.
Mas ao passar pelo corredor, ouvi a porta atrás de mim se abrir. O som seco, firme. E a voz dele cortou o ar como lâmina:
— Enfermeira Livy.
Virei. Quase engasguei.
— Sim…?
Ele olhou diretamente para mim, depois para o vestido, depois para Adam. Voltou os olhos pra mim.
— Está de plantão?
— Por quê?
— Eu faço as perguntas. Se não estiver, se retire, não quero comentários que sou Doutor Gelo e deixo trabalharem em dia de folga.
Meu rosto queimou.
Adam conteve o riso e me cutucou de leve.
Eu só balancei a cabeça e saí.
Mas por dentro? Por dentro eu estava rindo… e um pouco irritada. Porque talvez, só talvez, ele também estivesse começando a sentir nossas faíscas. Só não sabia como lidar com isso.
E, sinceramente? Nem eu.