Capítulo 5 – Altos e travas

832 Palavras
Uma semana havia se passado desde o episódio no hospital. Desde o vestido florido, o corte no braço da criança e aquele olhar travado entre Livy e Min-jae que dizia mais do que qualquer prontuário. Desde então, o silêncio entre eles cresceu. Ele a evitava. Ou tentava. Porque toda vez que os olhos se encontravam, mesmo que por milésimos de segundo no refeitório ou nos corredores, havia algo. Um desconforto. Uma faísca. Uma dúvida. Naquela sexta-feira abafada, os corredores estavam mais movimentados que o habitual. O ar-condicionado central falhava em alguns setores do hospital, e Livy, exausta após uma longa manhã na ala pediátrica, caminhava com os cabelos presos em um coque frouxo e a pasta de prontuários firmemente apertada entre os braços. Ela apertou o botão do elevador e suspirou. Estava quente, irritada e com fome. As portas se abriram. Livy (sussurrando para si mesma, surpresa): — Claro… tinha que ser você. Lá dentro, encostado de lado no painel de controle, estava Min-jae. Impassível, como se estivesse ali só de corpo. Min-jae (olhando rápido para ela): — Vai subir? Livy (entrando, sem sorrir): — Estou indo para o trauma. Parece que vamos no mesmo caminho. As portas se fecharam. Um segundo depois, um leve tranco sacudiu o elevador. As luzes piscaram e... silêncio. Livy (reagindo, apertando os botões com insistência): — Ah, não... não, não, não... Min-jae (calmo, observando): — Parece que travou. Livy (irônica, sem olhar para ele): — Sério? Jamais teria percebido. Ela se afastou da parede e começou a andar de um lado para o outro dentro do pequeno espaço. Min-jae (cruzando os braços): — Você tem claustrofobia? Livy (encarando-o de lado): — Só de você, doutor. Ele arqueou uma sobrancelha. Quase sorriu. Quase. Min-jae: — Você sempre precisa provocar? Livy (parando na frente dele, braços cruzados): — Porque seu silêncio me provoca mais do que qualquer grito. Você é uma parede, Min-jae. Mas uma parede que eu adoro cutucar. Min-jae (encarando-a, sério): — Você tem uma opinião muito elevada de si mesma. Livy (rindo): — E você se leva a sério demais. Respira, doutor. Ninguém vai te julgar se sorrir de vez em quando. Ele desvia o olhar. E, talvez, apenas talvez, um canto da boca dele curve levemente. Livy (baixando um pouco o tom): — Por que você veio pro Brasil? Min-jae (secamente): — Você também anda ouvindo fofocas? Livy (encostando-se na parede oposta, de braços cruzados): — Fofocas eu ignoro. Curiosidade verdadeira eu alimento. Ele a encara, o olhar mais escuro do que de costume. Min-jae: — Às vezes, o silêncio protege. Outras, esconde. Livy: — Esconde o quê? Min-jae (sussurrando): — Fugas. Livy (dando um passo à frente, voz mais baixa): — Fugas de quê, Min-jae? Ele respirou fundo. Como se lutasse consigo mesmo. Como se abrir fosse contra tudo que aprendeu. Min-jae: — De mim mesmo. Livy (séria, aproximando-se): — Você se esconde até de quem você é? Achei que só eu fazia isso... Ele olha para ela. Por longos segundos. O silêncio entre os dois agora não é mais desconfortável é pesado, carregado de tudo o que não foi dito em sete dias. Min-jae (baixo): — Você é uma confusão ambulante. Livy (provocando, sussurrando com um sorriso): — E você é uma muralha coreana. Fria. Dura. E inexplicavelmente... magnética. Um leve tranco sacode o elevador de novo. A luz pisca. O ar parece ainda mais quente agora. Os olhos dele caem para o pescoço dela, onde gotas de suor escorrem, e depois voltam para o olhar firme. Min-jae (dando um passo à frente): — Você está suando. Livy (rindo, mas tensa): — Ficar trancada com você é um tipo diferente de tortura. Um misto de ansiedade... com uma vontade i****a de te beijar só pra ver se você reage. Ele fecha os olhos por um segundo. Só um. Quando abre, está mais próximo. Min-jae (voz grave): — Você quer saber por que vim pra cá? Livy (engolindo seco): — Quero. Min-jae: — Porque eu estava me tornando alguém que eu desprezava. Aqui… achei que poderia tentar ser outro. Mas aí você apareceu. Livy (voz embargada, desafiando-o): — E o que tem eu? Min-jae: — Você me tira do controle. Me obriga a sentir. Me faz... querer. As palavras ficaram no ar. O elevador apita. Um tranco final. As luzes voltam ao normal. E ele desce. Silêncio total entre os dois. As portas se abrem. Ela hesita, então pisa para fora. Ele a segue. Livy (parando no corredor, virando-se com um meio sorriso): — Tá afim de uma bebida depois do plantão? Sem prontuário, sem pressão... só duas pessoas com passados bagunçados e hormônios à flor da pele? Min-jae a olha por um segundo que parece durar uma eternidade. Nenhum sorriso. Nenhuma palavra. Então, sem dizer nada, ele simplesmente vira as costas... e sai andando. Ela o observa se afastar. Uma pequena pontada no peito. Livy (para si, com um suspiro leve): — E ainda assim... você me intriga mais do que deveria.
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