Uma semana havia se passado desde o episódio no hospital. Desde o vestido florido, o corte no braço da criança e aquele olhar travado entre Livy e Min-jae que dizia mais do que qualquer prontuário.
Desde então, o silêncio entre eles cresceu.
Ele a evitava. Ou tentava. Porque toda vez que os olhos se encontravam, mesmo que por milésimos de segundo no refeitório ou nos corredores, havia algo. Um desconforto. Uma faísca. Uma dúvida.
Naquela sexta-feira abafada, os corredores estavam mais movimentados que o habitual. O ar-condicionado central falhava em alguns setores do hospital, e Livy, exausta após uma longa manhã na ala pediátrica, caminhava com os cabelos presos em um coque frouxo e a pasta de prontuários firmemente apertada entre os braços.
Ela apertou o botão do elevador e suspirou. Estava quente, irritada e com fome.
As portas se abriram.
Livy (sussurrando para si mesma, surpresa):
— Claro… tinha que ser você.
Lá dentro, encostado de lado no painel de controle, estava Min-jae. Impassível, como se estivesse ali só de corpo.
Min-jae (olhando rápido para ela):
— Vai subir?
Livy (entrando, sem sorrir):
— Estou indo para o trauma. Parece que vamos no mesmo caminho.
As portas se fecharam. Um segundo depois, um leve tranco sacudiu o elevador. As luzes piscaram e... silêncio.
Livy (reagindo, apertando os botões com insistência):
— Ah, não... não, não, não...
Min-jae (calmo, observando):
— Parece que travou.
Livy (irônica, sem olhar para ele):
— Sério? Jamais teria percebido.
Ela se afastou da parede e começou a andar de um lado para o outro dentro do pequeno espaço.
Min-jae (cruzando os braços):
— Você tem claustrofobia?
Livy (encarando-o de lado):
— Só de você, doutor.
Ele arqueou uma sobrancelha. Quase sorriu. Quase.
Min-jae:
— Você sempre precisa provocar?
Livy (parando na frente dele, braços cruzados):
— Porque seu silêncio me provoca mais do que qualquer grito. Você é uma parede, Min-jae. Mas uma parede que eu adoro cutucar.
Min-jae (encarando-a, sério):
— Você tem uma opinião muito elevada de si mesma.
Livy (rindo):
— E você se leva a sério demais. Respira, doutor. Ninguém vai te julgar se sorrir de vez em quando.
Ele desvia o olhar. E, talvez, apenas talvez, um canto da boca dele curve levemente.
Livy (baixando um pouco o tom):
— Por que você veio pro Brasil?
Min-jae (secamente):
— Você também anda ouvindo fofocas?
Livy (encostando-se na parede oposta, de braços cruzados):
— Fofocas eu ignoro. Curiosidade verdadeira eu alimento.
Ele a encara, o olhar mais escuro do que de costume.
Min-jae:
— Às vezes, o silêncio protege. Outras, esconde.
Livy:
— Esconde o quê?
Min-jae (sussurrando):
— Fugas.
Livy (dando um passo à frente, voz mais baixa):
— Fugas de quê, Min-jae?
Ele respirou fundo. Como se lutasse consigo mesmo. Como se abrir fosse contra tudo que aprendeu.
Min-jae:
— De mim mesmo.
Livy (séria, aproximando-se):
— Você se esconde até de quem você é? Achei que só eu fazia isso...
Ele olha para ela. Por longos segundos. O silêncio entre os dois agora não é mais desconfortável é pesado, carregado de tudo o que não foi dito em sete dias.
Min-jae (baixo):
— Você é uma confusão ambulante.
Livy (provocando, sussurrando com um sorriso):
— E você é uma muralha coreana. Fria. Dura. E inexplicavelmente... magnética.
Um leve tranco sacode o elevador de novo. A luz pisca. O ar parece ainda mais quente agora. Os olhos dele caem para o pescoço dela, onde gotas de suor escorrem, e depois voltam para o olhar firme.
Min-jae (dando um passo à frente):
— Você está suando.
Livy (rindo, mas tensa):
— Ficar trancada com você é um tipo diferente de tortura. Um misto de ansiedade... com uma vontade i****a de te beijar só pra ver se você reage.
Ele fecha os olhos por um segundo. Só um. Quando abre, está mais próximo.
Min-jae (voz grave):
— Você quer saber por que vim pra cá?
Livy (engolindo seco):
— Quero.
Min-jae:
— Porque eu estava me tornando alguém que eu desprezava. Aqui… achei que poderia tentar ser outro. Mas aí você apareceu.
Livy (voz embargada, desafiando-o):
— E o que tem eu?
Min-jae:
— Você me tira do controle. Me obriga a sentir. Me faz... querer.
As palavras ficaram no ar.
O elevador apita. Um tranco final. As luzes voltam ao normal. E ele desce.
Silêncio total entre os dois.
As portas se abrem. Ela hesita, então pisa para fora. Ele a segue.
Livy (parando no corredor, virando-se com um meio sorriso):
— Tá afim de uma bebida depois do plantão? Sem prontuário, sem pressão... só duas pessoas com passados bagunçados e hormônios à flor da pele?
Min-jae a olha por um segundo que parece durar uma eternidade. Nenhum sorriso. Nenhuma palavra.
Então, sem dizer nada, ele simplesmente vira as costas... e sai andando.
Ela o observa se afastar. Uma pequena pontada no peito.
Livy (para si, com um suspiro leve):
— E ainda assim... você me intriga mais do que deveria.