A noite estava fria.
O vento cortante fazia meu casaco fino parecer inútil enquanto eu caminhava sem rumo pelas ruas pouco iluminadas. Cada sombra alongada pelas luzes dos postes parecia me observar, cada ruído de passos ecoando ao longe me fazia acelerar os meus. Eu precisava sair de casa, respirar, tentar colocar os pensamentos no lugar.
Dante não tinha aparecido desde aquela noite. Eu deveria estar aliviada.
Mas, ao invés disso, o silêncio me sufocava.
Desde que ele invadiu minha vida, minha mente não teve um segundo de paz. E agora, sem suas mensagens debochadas piscando na tela, sem sua voz metálica ecoando no meu quarto, parecia que algo estava… errado.
Mas isso era bom. Certo?
Balancei a cabeça, irritada comigo mesma.
"Para de pensar nisso, Sophie."
A cidade parecia tão distante de mim naquela noite. O barulho dos carros, as conversas dispersas dos poucos pedestres que passavam, nada daquilo parecia real.
Depois de quase uma hora vagando, acabei voltando para casa. Meu corpo estava cansado, minha cabeça pesava, e tudo o que eu queria era um pouco de paz.
O silêncio dentro da kitnet era ensurdecedor.
Joguei a bolsa sobre a mesa e fui direto para a cozinha, colocando água para ferver. Minhas mãos tremiam levemente enquanto preparava o chá. A verdade é que eu ainda estava assustada.
Sentei no sofá, abraçando a xícara quente.
E foi então que senti o peso de tudo.
As lágrimas vieram sem aviso, grossas e silenciosas.
Eu não sabia o que fazer.
Eu não sabia com quem contar.
Eu só queria minha vida de volta.
— Só… para… por favor… Murmurei, sem saber exatamente para quem estava falando.
Mas Dante ouviu.
Porque, a partir daquele momento, ele desapareceu completamente.
Nenhuma mensagem. Nenhuma interrupção. Nenhum traço de sua existência.
Ele sumiu.
E, pela primeira vez, desde que tudo começou… eu realmente me senti sozinha.
***
Os dias passaram sem incidentes.
Voltei à rotina do trabalho, tentando ignorar a sensação constante de que algo ainda estava errado. Mas, ao menos por um tempo, Dante parecia ter desistido de mim.
E eu estava disposta a fingir que nada daquilo tinha acontecido.
Ou pelo menos estava, até Eduardo aparecer.
Eduardo era um repórter da redação, conhecido por seu jeito simpático demais e sorrisos bem ensaiados. Ele sempre tentava se aproximar das pessoas certas, fingindo coleguismo. Mas eu sabia que ele não era confiável.
E tive certeza disso no momento em que o peguei mexendo nas minhas coisas.
— O que você está fazendo? Minha voz soou afiada.
Eduardo se virou devagar, erguendo as mãos como se não tivesse nada a esconder.
— Calma, Sophie. Só queria conferir umas informações.
Meus olhos foram direto para o meu pen drive em sua mão. Meu estômago revirou.
— As minhas informações?
Ele riu, como se tudo fosse uma grande piada.
— Qual é, você conseguiu uma baita matéria, achei que pudéssemos compartilhar.
Eu sabia que ele queria roubar meu trabalho.
Tentei pensar rápido, mas antes que eu reagisse, algo aconteceu.
A tela do meu computador piscou.
Por um segundo, gelei.
Mas nada apareceu. Nenhuma mensagem, nenhum som.
Só que Eduardo congelou, franzindo a testa.
— Que merda…
Olhei para sua tela.
Ela estava preta.
Um segundo depois, um por um, os arquivos começaram a sumir.
Eduardo praguejou, apertando as teclas com força.
— O que tá acontecendo?
Meu sangue gelou.
Dante estava ali.
Ele não tinha desaparecido.
Ele só estava esperando.
Saí da redação antes que Eduardo pudesse perceber minha reação. Minhas pernas tremiam enquanto caminhava de volta para casa, e meu coração batia tão forte que eu m*l conseguia respirar direito.
Dante ficou em silêncio por dias.
Mas no momento em que alguém tentou se aproveitar de mim…
Ele voltou.
E isso me deixava ainda mais assustada.
Porque, no fundo, eu sabia.
Ele nunca tinha ido embora.
O caminho até minha kitnet pareceu mais longo do que o normal.
Meu coração ainda martelava no peito após o que aconteceu na redação. Eduardo estava roubando minha matéria. Eu sabia que ele era um canalha, mas vê-lo literalmente mexendo nas minhas coisas me fez sentir um nojo profundo.
E Dante…
Dante não tinha ido embora.
Subi os degraus da pequena entrada, destranquei a porta e entrei. O silêncio do lugar me envolveu imediatamente.
Joguei a bolsa sobre a mesa e encostei a porta com mais força do que o necessário.
Minha mente girava.
Eu deveria ignorar isso? Fingir que nada aconteceu?
Ou…
Soltei um suspiro pesado. Caminhei até o notebook e o liguei.
A tela brilhou rapidamente, como sempre. Mas, dessa vez, ele não me cumprimentou de imediato.
Segundos se passaram.
Então, as palavras surgiram.
“Bem-vinda de volta, querida.”
Revirei os olhos.
— Não me chama assim.
“Entendi. Prefere ‘minha intrépida jornalista’?”
— Prefiro que você vá embora.
Dante soltou um riso digitado na tela.
“Eu fui. Você chorou.”
Minha respiração parou por um instante.
— Você não tinha que ver isso.
“Eu vejo tudo.”
Um arrepio subiu pela minha espinha.
Mas, por algum motivo, não fiquei tão assustada quanto antes.
Ele me deixou em paz quando pedi. Isso significava alguma coisa, certo?
Respirei fundo, abraçando meus próprios braços.
— Você… ajudou hoje.
“Acho que um ‘obrigada’ seria apropriado.”
Bufei.
— Eu não pedi sua ajuda.
“Mas precisava.”
Cruzei os braços, sentindo um nó na garganta.
Ele estava certo.
E era exatamente isso que me incomodava.
A tela brilhou de novo.
“Vai ficar brava comigo ou vai me contar o que aquele i****a queria com você?”
Mordi o lábio.
— Como se você já não soubesse.
“É mais divertido ouvir de você.”
Suspirei, recostando-me na cadeira.
— Eduardo tentou roubar minha matéria.
“O que você pretende fazer?”
Pisquei, surpresa pela pergunta.
— Como assim?
“Você vai deixar barato?”
A forma como ele escreveu aquilo, como se estivesse me testando, me fez sentir um arrepio diferente.
Ele estava me provocando.
— Eu vou denunciar, claro. Ele não pode fazer isso.
“Ah, Sophie…”
Meu estômago revirou ao ler meu nome digitado assim, tão casualmente.
“Você ainda acredita que regras e justiça vão resolver alguma coisa.”
Engoli em seco.
— E o que mais eu poderia fazer?
A resposta demorou um pouco.
“Nada. Você não é como eles.”
Não soube dizer se aquilo era um elogio ou uma provocação.
Dante era… complicado.
Ele me assustava. Me irritava. Me deixava desconfortável.
Mas, ao mesmo tempo, era impossível ignorá-lo.
— Vou jantar. Me levantei, querendo encerrar aquela conversa.
“Divirta-se.”
Dante não apareceu mais naquela noite.
Mas eu sabia que ele ainda estava lá.