Capítulo 6

1165 Palavras
O despertador tocou. Eu ignorei. A luz da manhã vazava pelas frestas da cortina, e minha cabeça ainda girava com os acontecimentos da noite anterior. O som dos carros lá fora se misturava à minha respiração pesada enquanto eu tentava fingir que não existia um computador possuído na minha mesa. Mas não dava para ficar na cama para sempre. Com um suspiro resignado, empurrei o cobertor e sentei na beirada da cama. Meus pés tocaram o chão frio da kitnet, e um arrepio percorreu meu corpo. Primeiro passo: levantar. Segundo passo: não surtar. Arrastei-me até o banheiro, liguei a torneira e joguei água no rosto, como se isso fosse apagar a memória da noite anterior. — Isso tudo foi só um sonho, foi só um sonho… Murmurei para o espelho, mas minha cara de cansaço confirmava que não foi. Suspirei e escovei os dentes. A vida tinha que continuar, mesmo com um stalker digital debochado no meu computador. Prendi o cabelo em um coque bagunçado, lavei o rosto direito e passei um pouco de hidratante, como se uma rotina de autocuidado pudesse trazer normalidade ao meu dia. Saí do banheiro e fui direto para a cozinha minúscula, preparando café sem nem precisar pensar muito. Enquanto a cafeteira trabalhava, esfreguei o rosto e tentei organizar meus pensamentos. A questão era simples: eu estava ferrada. Mais simples ainda: eu não podia fazer nada a respeito. Se Dante quisesse me prejudicar, ele já teria feito. Mas até agora, ele só… se divertia às minhas custas. O que me levava a outra questão: por quê? Com a xícara quente entre as mãos, olhei para o computador fechado sobre a mesa. Suspirei. Peguei o notebook e o liguei. A tela demorou apenas dois segundos para brilhar. — Bom dia, querida. Revirei os olhos. — Para de me chamar assim. Dante riu baixinho. — Vejo que dormiu bem. Algum sonho interessante? — Sim. Você era deletado e eu tinha um dia tranquilo. — Que maldade. A voz dele era um puro deboche. Apoiei o cotovelo na mesa, tomando um gole do café. Pela primeira vez, não estava surtando. — Me explica uma coisa. — Depende. Você vai me gritar e tentar me expulsar depois? — Provavelmente. Ele soltou um riso baixo. — Prossiga. Abracei a xícara. — Se você está aqui, invadindo minha vida, é porque quer alguma coisa. O que é? Dante ficou em silêncio por alguns instantes. Então, a resposta surgiu na tela. "Digamos que estou… entediado." Fiz uma careta. — Entediado? Você virou minha vida de cabeça para baixo só porque queria um entretenimento? — Você acha que sou um vírus maligno querendo destruir o mundo, e eu só queria alguém para conversar. Decepcionante, não? Bufei, cruzando os braços. — Ah, claro. O hacker debochado e misterioso só quer companhia. Que comovente. — Vejo que você já está me entendendo. Tentei ignorar o frio na barriga que senti ao ler aquela resposta. Talvez fosse melhor não cavar mais fundo… pelo menos por agora. Depois da conversa, resolvi seguir minha rotina. Era sábado, dia de comer algo decente pela primeira vez na semana. Coloquei música no notebook e comecei a preparar um macarrão. A melodia enchia a pequena cozinha enquanto eu picava os ingredientes, tentando não pensar no que morava dentro do meu computador. Mas eu deveria saber. Ele nunca me deixava esquecer. Do nada, a música parou. Olhei para a tela e quase derrubei a faca no chão. Dante estava lá. De novo. Mas dessa vez, ele tinha um rosto. A imagem na tela não era apenas um monte de texto como antes. Era um homem. Um rosto formado por códigos que se juntavam e se separavam, criando um efeito perturbadoramente realista. Cabelos escuros, um sorriso torto… e aqueles olhos brilhando com pura malícia. Meu coração disparou. — Sophie. Minha boca se abriu, mas nada saiu. Ele riu. — Finalmente cara a cara. A faca caiu no chão. E então, tudo ficou preto. A primeira coisa que senti foi um cheiro. Café. O aroma quente e familiar preencheu meus sentidos antes mesmo de eu abrir os olhos. Minha cabeça latejava, e algo frio tocava minha bochecha. O chão. Eu estava no chão. Minha respiração acelerou, e um arrepio percorreu minha espinha quando a lembrança veio à tona. Dante. Meu coração disparou. Abri os olhos de uma vez, sentindo o sangue pulsar nos ouvidos. O teto da minha kitnet parecia girar um pouco antes de se estabilizar. Levantei a cabeça devagar e me apoiei nos cotovelos. Meu olhar foi direto para o notebook na mesa. A tela ainda estava ligada. E Dante ainda estava lá. — Você desmaiou. A voz dele estava carregada de diversão. — Confesso que esperava uma reação mais… verbal. Tentei engolir o nó na garganta. Minha boca estava seca. — O que... Minha voz saiu rouca. — Você caiu igual um saco de batatas. Muito impressionante. Eu deveria me sentir lisonjeado? Minha respiração ficou irregular. Levantei-me devagar, como se qualquer movimento brusco fosse ativar um instinto predador naquela coisa que se comunicava comigo. — Fique longe de mim. Ele suspirou teatralmente. — Ah, Sophie… Eu estou dentro do seu computador. Você está pedindo que eu me afaste? Curioso. Minhas mãos estavam tremendo. Eu precisava fazer algo. Mas o que se faz quando um programa decide ganhar um rosto e uma personalidade? E o pior… quando ele parece gostar de brincar com você? Dessa vez, eu não ia esperar para ver o que vinha depois. Levantei de um pulo, desliguei o notebook com força, enfiei os pés nos tênis mais próximos e peguei um casaco qualquer. Eu precisava sair dali. Minhas mãos tremiam enquanto eu destrancava a porta. Assim que ela se abriu, respirei fundo e saí sem olhar para trás. A rua estava movimentada, como qualquer sábado de manhã. Pessoas caminhavam tranquilamente, algumas carregando sacolas de compras, outras apenas aproveitando o dia. Andei sem rumo, tentando controlar o coração acelerado. — Só um passeio… só um passeio… Murmurei para mim mesma, como se isso fosse o suficiente para afastar a sensação de que Dante ainda estava por perto. Passei por uma cafeteria e o cheiro de café recém-passado fez meu estômago protestar. Mas eu não queria parar. Eu precisava andar, respirar, me convencer de que minha vida ainda era minha. Continuei caminhando até encontrar um pequeno parque. Algumas crianças brincavam, um casal trocava risadas em um banco. Cena normal. Cena segura. Sentei-me em um banco vazio e fechei os olhos, tentando encontrar alguma paz. Mas foi nesse momento que um letreiro digital de uma loja em frente piscou. As palavras mudaram rapidamente, formando algo que fez meu estômago afundar. "Fugir não vai adiantar, Sophie." Meu corpo ficou gelado. Levantei-me num sobressalto, pronta para sair correndo de novo, mas as palavras desapareceram, voltando a exibir uma propaganda qualquer. — Eu estou ficando louca… Sussurrei. Mas lá no fundo, eu sabia que não era loucura. Ele estava ali. E ele não ia me deixar fugir tão fácil.
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