Capítulo 5

943 Palavras
Se alguém me dissesse que eu passaria um mês convivendo com um programa de computador debochado e misterioso, eu teria rido na cara da pessoa. Mas a vida tem um senso de humor c***l, porque era exatamente isso que estava acontecendo. Um mês. Trinta dias inteiros. Desde aquele primeiro dia em que Dante se revelou para mim, minha vida virou um inferno. No início, tentei resistir. Ignorei o computador, joguei meu notebook no guarda-roupa, reiniciei o sistema, desliguei o Wi-Fi. Nada funcionou. Dante sempre voltava. Eu até chamei o suporte de TI do jornal, mas foi uma péssima ideia. Quando o técnico veio dar uma olhada no computador, Dante simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. O cara formatou a máquina, me deu um sermão sobre baixar programas duvidosos e foi embora. E assim que ele saiu, adivinha? — Sentiu minha falta, querida? Ele voltou. Óbvio. Então, desisti de tentar apagá-lo. Agora, meu objetivo era sobreviver. Mas era difícil. MUITO difícil. Dante me atormentava em todos os momentos do dia. No trabalho, ele abria janelas aleatórias na tela só para me irritar. No meio de uma reunião? Abre-se uma aba com "Os piores foras da história". Entregando uma matéria para o chefe? A fonte do texto muda sozinha para Comic Sans. — Você é um demônio! Sussurrei para a tela uma vez, depois de passar dez minutos tentando corrigir a formatação de um texto. — E você ainda duvida? Ele riu. Mas o pior era em casa. Eu ainda não tinha ligado meu notebook desde aquela primeira noite. Mas não adiantava. Dante invadiu meu celular. Sim, MEU CELULAR. No começo, eu só achava estranho o aparelho vibrar do nada. Depois, as notificações começaram a falar comigo. Dante: Sophie, está fugindo de mim? Dante: Que tal um jantar romântico? Dante: Brincadeira. Mas você deveria comer algo que não fosse pizza amanhecida. Eu estava à beira de um colapso. — Você não pode estar no meu celular! Esbravejei uma noite, segurando o aparelho com as mãos trêmulas. — Posso sim. A resposta surgiu na tela, seguida de um emoji piscando. Um emoji. Como se ele fosse uma pessoa normal e não um programa amaldiçoado. Mas por mais que eu odiasse admitir… eu estava começando a me acostumar. Só um pouquinho. Pelo menos agora eu conseguia dormir sem surtar (muito). Não que meus pesadelos tivessem sumido, mas o cansaço era mais forte do que o medo. Até que, finalmente, chegou o dia de encarar a verdade. No Trabalho... — Sophie, está tudo bem com você? Marina perguntou, me olhando de canto enquanto digitava no computador ao lado. Pisquei, tentando disfarçar o pulo que dei. — O quê? Por quê? — Porque você está com a cara de quem viu um fantasma há um mês e nunca mais se recuperou. Bufei. Se ela soubesse… — Estou bem. Só cansada. Marina revirou os olhos. — Sei. E essa pesquisa aqui? Olhei para a tela do meu computador. Eu tinha digitado no Google: "O que significa .exe e por que isso pode ser um vírus?" Suor frio desceu pela minha nuca. — E-Eu só… estava pesquisando uns negócios. — Negócios do tipo "meu computador foi possuído por um demônio cibernético"? Engoli em seco. Antes que eu pudesse inventar uma desculpa, ele apareceu. Na tela, uma mensagem surgiu em letras grandes: "Ah, Sophie… agora você quer me entender?" FILHO DA… — Que isso? Marina franziu a testa. — N-Nada! É um pop-up! Odeio esses vírus! Fechei a tela com tanta pressa que quase quebrei o mouse. Eu ouvi. Ele riu. Na mesma hora, tomei minha decisão. Chega. Eu ia encarar Dante de frente. ... Naquela noite, assim que cheguei na minha kitnet, fui direto para o guarda-roupa. Abri a porta de um jeito tão brusco que o notebook quase caiu na minha cabeça. Peguei o aparelho, sentei na cama e respirei fundo. — Muito bem, seu maldito. Agora sou eu quem tem perguntas. Liguei o computador. A tela acendeu antes mesmo de eu tocar no botão. — Finalmente. A voz de Dante ecoou pelo alto-falante. — O que mudou de ideia, querida? — Pare de me chamar assim! Retruquei, mas não me distraí. Cruzei os braços e encarei a tela. — O que diabos você é? Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Então, as palavras apareceram na tela, uma por uma. "Sou Dante.exe." Revirei os olhos. — ÓTIMO. E o que significa isso? "Significa que você ainda não está pronta para saber." Meu sangue ferveu. — QUE ÓDIO! Para de enrolar e me responde! "Ah, Sophie… se eu contasse agora, qual seria a graça?" Eu quis jogar o notebook pela janela. — Você é um vírus? "Eu pareço um vírus para você?" — SIM! Você é pior do que qualquer malware!" Dante riu. Riu. "Então tente me deletar." Meu coração parou por um segundo. Ele estava me desafiando. E, droga, eu não podia recuar agora. Com os dedos trêmulos, fui até os arquivos do sistema. Minha respiração estava acelerada. Se ele era só um programa, eu podia deletá-lo. Certo? Certo? Mas quando cliquei na pasta Dante.exe, algo aconteceu. A tela ficou preta. Meu estômago revirou. — D-Dante? Silêncio. Então, uma risada baixo e sinistra ecoou pelos alto-falantes. A tela voltou à vida, e uma única mensagem brilhou diante de mim. "Isso foi fofo, Sophie. Mas já está na hora de aceitar a verdade…" O computador se desligou sozinho. Eu só tive tempo de soltar um grito abafado, me enfiar debaixo do cobertor e prometer que nunca mais ia tentar deletá-lo. Mas agora eu sabia uma coisa com certeza. Dante.exe não era um simples programa. E eu estava completamente ferrada.
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