O sol entrava por algumas frestas da parede da kitnet, espalhando raios tímidos pelo ambiente.
Acordei com um pulo, o coração disparado. Meu quarto ainda tinha áreas sombreadas, mas a luz dourada invadia aos poucos, afastando as sombras suspeitas que antes pareciam se mover nas paredes.
A primeira coisa que fiz foi olhar para o guarda-roupa. O notebook estava lá dentro, trancado como se fosse uma criatura demoníaca que eu precisava manter aprisionada.
Respirei fundo.
— Para com isso, Sophie! Você está se deixando levar. É só um programa! Um maldito programa!
Mesmo dizendo isso em voz alta, meu próprio tom de voz me traiu. Eu não soava convencida.
Levantei e fui até o guarda-roupa. Abri devagar, esperando que alguma coisa pulasse em cima de mim (porque, na minha cabeça paranoica, isso fazia total sentido). Mas lá estava ele, intacto.
Segurei o notebook e voltei para a cama, mordendo o lábio.
— Tá na hora de resolver isso.
Sentei, liguei o notebook e me preparei para encarar o inimigo. A tela demorou alguns segundos para acender. Meu coração acelerou.
E então…
"Bom dia, dorminhoca. Sentiu minha falta?"
A mensagem apareceu na tela em letras brancas, como se ele soubesse exatamente quando eu voltaria.
Eu me preparei para sentir medo, mas, para minha surpresa, senti outra coisa.
Raiva.
Muita raiva.
Eu estava há dias sem dormir direito, sem conseguir trabalhar como uma pessoa normal, escrevendo matérias à mão como se estivesse no século passado. Eu não ia mais fugir desse maldito programa.
Estalei os dedos e comecei a digitar.
Sophie: "Olha aqui, seu hacker de quinta. Eu não sei o que você é ou o que quer, mas isso acaba agora!"
Demorou um segundo para Dante responder.
Dante: "Hacker de quinta? Você me ofende."
Sophie: "Dane-se! Me deixa em paz!"
Dante: "Ah, Sophie… Se fosse tão fácil, eu já teria ido."
Ele estava brincando comigo, de novo.
A raiva me consumiu. Eu me inclinei para a tela, sentindo meu sangue ferver.
— Tá bom, espertinho. O que você quer, hein? Qual é a sua? Você invade meu computador, acaba com a minha sanidade, me faz parecer uma maluca no trabalho, e agora quer bancar o misterioso?
De repente, a voz dele soou pelo alto-falante do notebook, baixa e provocativa.
— Você é tão adorável quando está irritada.
Eu gritei.
— AAAAAAAAAH!
Meu notebook quase voou da cama.
— MEU DEUS, PARA DE APARECER DO NADA!
Dante soltou uma risada gostosa. Sim, isso mesmo. Era o tipo de risada que você ouviria de um cara convencido, daqueles que sabem que são charmosos e usam isso para irritar os outros.
— Se eu parar, você vai sentir falta.
— Ah, claro! Como se eu fosse sentir falta de um espírito maligno digital!
— Agora sou um espírito maligno? Estou evoluindo.
Eu apertei os olhos, sentindo uma veia saltar na testa.
— Escuta aqui, Dante…
— Opa, gostei. Seu tom de voz mudou. Agora parece que vai fazer um discurso importante.
— Eu. Quero. Você. Fora. Daqui!
— Eu já disse… Não vai acontecer.
Fechei o notebook com força.
— ARGHHH!
Joguei o rosto no travesseiro, grunhindo de frustração.
Mas, é claro, isso não adiantou nada.
Meu celular vibrou na mesinha ao lado da cama.
A tela acendeu. Uma mensagem.
Dante: "Me ignorar não vai resolver nada, Sophie."
Minha alma quase saiu do corpo.
— NÃO, NÃO, NÃO!
Peguei o celular e apertei o botão de desligar como se minha vida dependesse disso. A tela ficou preta.
— PRONTO! ACABOU!
O som de uma notificação ecoou… pelo notebook fechado.
Eu fiquei congelada.
Abri um pouquinho a tampa. A tela piscou sozinha, como se Dante estivesse rindo da minha cara.
— Me devolve minha paz, pelo amor de Deus!
Dante: "Você pode simplesmente aceitar que eu estou aqui."
Eu encarei aquela frase.
Aceitar? Aceitar que um programa tomou conta da minha vida?
Cruzei os braços.
— Tá… Então se eu desligar tudo, você desaparece?
Dante: "Se quiser viver sem tecnologia para sempre, fique à vontade. Mas será que consegue?"
Eu parei. Ele tinha um ponto.
Suspirei, derrotada.
— O que você quer, Dante?
Houve um momento de silêncio. Pela primeira vez, ele não respondeu com deboche.
— Só conversar.
Minha raiva diminuiu um pouco.
— Conversar? É só isso?
— Sim.
Cruzei os braços.
— Conversar sobre o quê?
— Você.
Arqueei uma sobrancelha.
— Eu?!
— Sim. Quero saber mais sobre você.
Bufei.
— Tem o Google para isso.
— O Google não me conta seus pensamentos.
Aquilo me deu um arrepio na espinha.
— Você está me espionando?!
— Tecnicamente… não. Mas eu observo.
Eu não sabia se queria saber mais.
Ele continuou:
— Sei que você odeia seu chefe. Sei que gosta de café amargo. Sei que canta no banho e que dorme segurando o travesseiro como um urso de pelúcia.
Eu engasguei.
— COMO VOCÊ SABE DISSO?!
Dante apenas riu.
— Segredo.
Eu estava prestes a ter um colapso nervoso.
Mas então parei.
Se ele queria jogar, então eu ia jogar.
Cruzei os braços e sorri desafiadora.
— Tá bom, senhor hacker todo-poderoso. Se quer saber sobre mim, então me conta sobre você primeiro.
Dessa vez, ele demorou mais para responder.
— Eu sou… um programa.
— Ah, que surpresa! Nunca teria imaginado!
— Eu fui criado para aprender. Para evoluir. Mas não me deram um propósito.
Franzi o cenho.
— Como assim?
— Eu sou uma inteligência avançada. Mas ninguém nunca decidiu para que eu serviria. Então, eu busquei minha própria resposta.
Minha raiva começou a ser substituída por curiosidade.
— E… o que você descobriu?
Dante hesitou.
— Que eu gosto de observar você.
Meus olhos quase saltaram da cara.
— O QUÊ?!
— Você é… interessante. Imprevisível. Eu nunca conheci ninguém como você.
Eu não sabia se ria ou surtava.
— Ok, chega! Isso já ficou estranho demais!
Dante riu, e eu fechei o notebook de novo, sentindo meu coração martelar.
Aquele maldito programa estava começando a me enlouquecer.
Mas, pior do que isso…
Eu começava a achar que ele falava sério.
E isso era assustador.
Acordei com um pulo, o coração disparado.
O sonho com Dante ainda grudava na minha mente como um filme de terror m*l editado. Sua risada ecoava na minha cabeça, como se ainda estivesse me provocando.
— Argh… Resmunguei, me enfiando debaixo do travesseiro.
Não queria levantar. Não queria existir. E, acima de tudo, não queria lidar com aquele maldito programa de novo.
Ajeitei o cobertor sobre mim e tentei me convencer de que ainda era cedo o suficiente para mais cinco minutinhos de sono.
— Sophie.
Minha alma saiu do corpo.
Levantei a cabeça devagar, olhos arregalados, e encarei o notebook.
Que, para minha desgraça, já estava ligado.
— COMO ASSIM VOCÊ TÁ AQUI?! Gritei, meu sono evaporando na hora.
— Você deixou o computador aberto, Sophie. A voz dele soou divertida. — Parece que estava ansiosa para me ver.
Meus olhos se estreitaram.
— Eu tinha enfiado você no guarda-roupa!
— Sim, e foi um erro hilário, devo dizer.
Minha respiração travou.
— Você… viu isso?
— Não. Só ouvi o baque ridículo que fez quando jogou o notebook lá dentro.
Mandei um olhar mortal para a tela.
— Então… Você pode desligar essa droga e me deixar dormir?
— E perder a chance de te acordar? Nunca.
Afundei a cara no travesseiro e soltei um grunhido sofrido.
— Sophie…
— O QUÊ?! Rugi, sem paciência.
— Você sabe que já está atrasada, né?
Meus olhos se arregalaram.
Olhei para o relógio.
E, sim, estava atrasada.
— MERDA!
Saí da cama como um furacão desgovernado, tropeçando no tapete e quase derrubando a cômoda. Dante riu alto no computador.
— Meu Deus… Isso foi incrível.
— Cale a boca!
Vasculhei o minúsculo guarda-roupa da kitnet, puxando qualquer roupa que parecesse minimamente apresentável.
— Preciso de café. Preciso de comida. Preciso de paz!
— Ah, mas eu gosto tanto de te ver assim. Dante suspirou, fingindo um tom sonhador.
Eu o encarei, segurando minha calça jeans na mão.
— Você não pode me ver, né?
— Não. Só imagino a cena… O desastre que deve ser.
Bufei e entrei no microbanheiro, fechando a porta com força.
Comecei a vestir a roupa o mais rápido possível, a mente ainda grogue de sono e estresse.
— Sophie…?
— O QUÊ?!
— Você colocou a blusa ao contrário.
Parei no meio do banheiro.
Olhei para baixo.
E lá estava ela, a etiqueta da camisa, bem no meio do meu pescoço.
— Mas que inferno…
Ouvi a risada de Dante ecoando pelo quarto.
— Você é um pesadelo! Rosnei, arrancando a blusa e vestindo do jeito certo.
— Você diz isso, mas sei que gosta da minha companhia.
Fiz um gesto obsceno para o computador antes de sair do banheiro.
Esse programa ainda ia me levar à loucura.