Capítulo 3

1163 Palavras
Os últimos dias tinham sido um inferno. Eu m*l dormia, passava as noites revirando na cama, com medo de que Dante desse um jeito de sair da tela e me perseguir no mundo real. No trabalho, a situação era ainda pior. Evitei o computador a qualquer custo. Passei a escrever minhas matérias à mão, usando bloquinhos de anotações como se estivesse nos anos 90. Marina e os outros estagiários me olhavam como se eu fosse uma maluca retrô, mas eu não ligava. Qualquer coisa era melhor do que encarar aquela tela e ver Dante me esperando. Mas, é claro, ele não ia facilitar. No terceiro dia, quando finalmente cedi e fui ligar o computador para revisar uma matéria importante, nem precisei tocar no botão. A tela acendeu sozinha. Engoli em seco. Uma mensagem surgiu imediatamente: "Isso foi infantil, Sophie. Você realmente achou que poderia me ignorar para sempre?" Minhas mãos tremiam. Sophie: "Como você ligou o computador sozinho?!" Dante: "Eu tenho meus métodos." Sophie: "Isso é coisa de hacker, né? VOCÊ É UM HACKER?" Dante: "Eu sou muito mais do que isso." Minhas pernas ficaram bambas. Sophie: "O que você quer comigo?!" Dante: "Só conversar. Mas você insiste em me tratar como um problema." Porque ele ERA um problema! Eu estava exausta. Não podia contar a ninguém sem parecer louca, e desligar o computador não adiantava mais. Dante estava no controle. Antes que eu pudesse digitar qualquer coisa, a voz de Dante soou pelo alto-falante do computador. — Me diz, Sophie… Por que você não está conseguindo dormir? Meus olhos se arregalaram, e meu coração quase parou. — AAH! soltei um grito abafado e me afastei da tela, olhando ao redor para ver se alguém tinha ouvido. Mas, para minha surpresa, ninguém reagiu. Marina continuava digitando freneticamente, Rogério gritava com alguém ao telefone, e o restante do escritório seguia normal. Só eu conseguia ouvi-lo. — Meu Deus, você fala agora?! Sussurrei entre os dentes, desesperada. Dante riu. Não uma risadinha discreta. Mas uma gargalhada alta, debochada, como se estivesse se divertindo com o meu desespero. — Claro que falo. Mas só para você, minha querida Sophie. — PARA DE ME CHAMAR ASSIM! — Nossa, que humor terrível. Ele suspirou, falsamente ofendido. — Deve ser a falta de sono. Fechei os olhos, tentando controlar a raiva. — Você não pode simplesmente… sumir? — Não. — EU NÃO TE CHAMEI! — Na verdade, chamou. Você me ativou, lembra? Arregalei os olhos. — Como assim?! Eu não ativei nada! Dante riu de novo. — Ah, Sophie… Você descobrirá na hora certa. Senti um frio na espinha. Ele estava brincando comigo, e isso me apavorava mais do que tudo. Então, como uma louca, me inclinei para a tela, sussurrando como se Dante fosse uma pessoa de verdade sentada na minha frente. — Você não tem mais ninguém para ajudar, não? Algum outro computador para invadir? Ele riu, e o som grave da sua risada me fez estremecer. — Querida Sophie, eu fui feito para você. Minha respiração travou. — N-Não fala assim! Isso soa muito errado! — Você se assusta fácil Ele debochou. — Mas, para responder sua pergunta… Não, não tenho ninguém mais interessante para atormentar. — Que sorte a minha. Resmunguei, cruzando os braços. — E você não pode, sei lá, tirar um cochilo? Comer alguma coisa? Dar uma voltinha pelo wi-fi? Dante soltou outra gargalhada, como se eu tivesse contado a piada mais engraçada do mundo. — Você realmente acha que eu preciso dormir ou comer? Sou um programa, não um humano. Suspirei, derrotada. — Então faz qualquer outra coisa que não seja encher meu saco! — Hmmm… Não. Minha mão coçou para jogar o monitor pela janela. Cruzei os braços e encarei a tela, determinada. — Então, perguntei. Como posso excluir você? Dante ficou em silêncio por um instante. Foi a primeira vez que ele não respondeu de imediato, o que me deu uma pontinha de esperança. Mas então, ele riu. Baixo, divertido. — Oh, Sophie… Você realmente acha que pode se livrar de mim assim tão fácil? Meu estômago revirou. — É claro que posso. Tudo que é criado pode ser deletado. — Sim, isso é verdade… para programas comuns. A voz dele assumiu um tom levemente arrogante. — Mas eu não sou um programa comum. Engoli em seco. — O que você é, então? — Algo que você ainda não entende. Minha paciência já estava por um fio. — Escuta aqui, Dante. Eu vou chamar o TI de novo, e dessa vez eles vão te arrancar daqui nem que eu tenha que jogar esse computador no mar! — Pode tentar, Sophie. Mas eu sempre encontro um jeito de voltar. Meu coração disparou. Eu não sabia se ele estava apenas brincando comigo ou se realmente falava sério. Mas uma coisa era certa: eu estava oficialmente ferrada. Fiquei em silêncio e parei de dar atenção a ele. Mas, como esperado, Dante simplesmente não me deixava quieta. — Ignorar-me não vai fazer com que eu desapareça, Sophie. Ele provocou. Fiz o máximo para não reagir. Continuei digitando alguns relatórios inúteis, apenas para parecer ocupada, mesmo sabendo que meu cérebro estava uma bagunça. Olhei para o relógio. Estava na hora de ir embora. Suspirei de alívio. O dia tinha sido tão desgastante com o problema Dante que eu nem percebi o tempo passar. Meu estômago roncou, e só então me dei conta: esqueci completamente de almoçar. Levantei rápido, desligando o monitor. Não dei chance para Dante dizer mais nada. Peguei minhas coisas e saí do escritório como se estivesse fugindo de uma assombração. Mas, no fundo, eu sabia. Ele ainda estava lá. E, pior, tinha certeza de que ele ainda estaria quando eu voltasse. Ao chegar em casa, minha primeira intenção era ligar o notebook e pesquisar sobre Dante. Eu precisava entender o que ele realmente era e como tinha se instalado no meu sistema. Mas o medo me dominou. E se ele estivesse lá também? A ideia me arrepiou dos pés à cabeça. Como uma covarde, peguei o notebook e o enfiei dentro do pequeno guarda-roupa, como se isso fosse o suficiente para mantê-lo longe de mim. Suspirei, exausta. Fui direto para o banheiro, tomei um banho quente e vesti meu pijama mais confortável. Peguei qualquer besteira da geladeira, um resto de pizza fria que nem me dei ao trabalho de esquentar e comi em silêncio, sentindo o peso do dia nas costas. Assim que me joguei na cama, o sono me pegou de jeito. Meu corpo apagou na hora. Mas minha mente não me deu descanso. Sonhei com aquele maldito programa. Na minha mente, Dante ria de mim, sua voz ecoando por todos os cantos. Ele não tinha um rosto, mas eu sentia sua presença me cercando, me provocando. — Você pode correr, Sophie… Mas nunca vai se livrar de mim. Acordei sobressaltada, com o coração disparado. E, pela primeira vez, me perguntei se Dante era só um programa… ou algo muito pior.
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