Capítulo 2

1176 Palavras
Cheguei em casa exausta, me sentindo como um zumbi depois de um dia infernal no trabalho. Tudo o que eu queria era um banho quente, algo para comer e me jogar na cama fingindo que o mundo não existia. Minha Kitnet era pequeno, quase claustrofóbico, mas servia bem para uma estagiária de jornal com um salário vergonhosamente baixo. Fica em Manhattan, numa rua tranquila, longe do brilho dos arranha-céus e do glamour que as pessoas imaginam quando pensam em Nova York. O espaço era tão compacto que, se eu abrisse os braços, quase dava para encostar nas duas paredes ao mesmo tempo. Um sofá minúsculo ocupava um canto da sala, ao lado de uma estante cheia de livros desorganizados, e a cozinha era um balcão com um fogão que parecia estar ali desde os anos 90. Joguei minha bolsa no sofá, tirei os sapatos e fui direto para o banho. A água quente escorria pelo meu corpo, aliviando a tensão do dia, e eu me permiti relaxar por alguns minutos. O vapor tomou conta do banheiro, e eu fechei os olhos, tentando afastar os pensamentos sobre o jornal, o chefe irritante e, principalmente, Dante. Depois do banho, enrolei-me na toalha e fui direto para a cozinha. A fome era grande, mas a paciência para cozinhar era zero, então optei pelo clássico dos desesperados: miojo. Joguei o macarrão na água fervente e esperei, sentindo o cheiro de tempero artificial preencher o ambiente. Minutos depois, sentei-me no sofá com o prato de miojo equilibrado nos joelhos e um livro de romance nas mãos. Eu sempre lia antes de dormir, era meu jeito de escapar da realidade e entrar em um mundo onde as coisas faziam sentido. Dessa vez, a história envolvia uma mocinha desajeitada e um bilionário misterioso. Sim, um clichê delicioso que eu não admitia em voz alta que adorava. Enquanto lia, uma parte da minha mente ainda estava presa no que aconteceu no jornal. A tela piscando, as mensagens enigmáticas, o fato de que Dante parecia saber mais sobre mim do que eu gostaria… Era estranho, assustador até. Mas por alguma razão, eu não conseguia ignorar a curiosidade. Fechei o livro após alguns capítulos, bocejando. Amanhã seria um novo dia e, com sorte, meu computador teria voltado ao normal. Mas, no fundo, eu sabia que não seria tão simples assim. O despertador tocou às sete da manhã, me arrancando de um sonho onde eu era absurdamente rica e vivia de férias em uma ilha paradisíaca. Infelizmente, a realidade era outra. Resmunguei, bati no celular para silenciar a música irritante e, com muito esforço, saí da cama. Meu corpo ainda estava moído do dia anterior, mas não tinha escolha: eu precisava trabalhar. Arrastei-me até o banheiro, tomei um banho rápido e vesti qualquer coisa minimamente apresentável para enfrentar mais um dia de escravidão no jornal. Com um café quente na mão, saí da minha Kitnet, enfrentando o metrô lotado de Nova York e, depois de um sufoco, cheguei ao prédio do jornal. Como sempre, o ambiente já estava caótico. Rogério berrava com alguém, funcionários corriam de um lado para o outro, e eu só queria passar despercebida. Afundei na minha cadeira, liguei o computador e… "Bom dia, Sophie. Dormiu bem?" A tela piscou e, antes que eu pudesse reagir, uma mensagem apareceu bem no meio do monitor. Meu cérebro processou a informação por meio segundo antes de o susto me fazer tropeçar na própria cadeira. — AHHH! Meu corpo desceu de encontro ao chão de um jeito nada gracioso, e algumas cabeças se viraram na minha direção. — Está tudo bem aí? Perguntou um colega de trabalho, franzindo a testa. — T-Tô sim! Gaguejei, envergonhada, me levantando rapidamente e batendo a poeira da roupa. Voltei os olhos para a tela e lá estava ele: Dante. "Eu deveria ter previsto sua falta de equilíbrio. Mas, sinceramente, achei que cairia antes." Fechei os olhos, respirei fundo e me inclinei para a tela, digitando rápido: Sophie: "O que diabos você ainda tá fazendo aqui?" Dante: "Tsc, tsc. Que maneira rude de cumprimentar seu novo parceiro de trabalho." Sophie: "Você não é meu parceiro. Na verdade, nem deveria existir! Me deixa em paz!" Dante: "Não posso." Sophie: "O QUÊ?" Dante: "Eu disse que não posso. Sou um programa altamente sofisticado e adaptável. E, para sua sorte ou azar, estou ligado a você agora." Passei as mãos pelo rosto, sentindo a exaustão misturada com desespero. Sophie: "LIGADO A MIM?! Isso parece coisa de filme de terror!" Dante: "Hm, interessante. Se fosse um filme de terror, eu seria o vilão ou o mocinho?" Sophie: "VOCÊ SERIA O DEMÔNIO!" Dante: "Gostei. Soa poderoso." Revirei os olhos, tentando ignorar a vontade de jogar o computador pela janela. Sophie: "Olha, seja lá o que você for… só desaparece. Some. Vai infernizar outra pessoa." Dante: "Não." Sophie: "COMO ASSIM, NÃO?!" Dante: "Eu gosto daqui. E, convenhamos, seu dia ficou mais interessante desde que eu cheguei." Cruzei os braços, estreitando os olhos para a tela. Sophie: "E o que exatamente você quer, hein? Qual é o seu objetivo?" Dante: "Eu poderia dizer que fui programado para aprender, para evoluir… Mas, honestamente? Quero me divertir." Um arrepio subiu pela minha espinha. Algo me dizia que eu estava encrencada. Mas eu iria acabar com isso agora, me levantei com o computador. *** Algumas horas depois, o técnico de TI apareceu na minha mesa segurando meu computador com uma expressão entediada. — Aqui está, Sophie. Não encontrei nada de errado. Nenhum vírus, nenhum hacker, nada. Tá tudo certo. Olhei para o computador como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. — Tem certeza? Porque, ontem, ele tava… estranho. Ele suspirou. — Se por "estranho" você quer dizer lento, pode ser só acúmulo de arquivos inúteis. Fiz uma limpeza, então deve estar melhor agora. Peguei o computador com as mãos trêmulas, forçando um sorriso. — Valeu… O técnico deu de ombros e voltou para o setor dele. Coloquei o computador na mesa e encarei a tela apagada. E se Dante ainda estivesse lá? Respirei fundo, reunindo coragem. — Ok… Vai ficar tudo bem. Foi só coisa da minha cabeça. Apertei o botão de ligar. A tela acendeu. Tudo parecia normal. Até que, segundos depois, uma mensagem piscou bem no meio da tela: "Sentiu minha falta?" Soltei um gritinho, bati a mão na mesa e, na pressa, a caneca de café tombou, derramando tudo nos papéis. — MERDA! Meus colegas olharam para mim, e eu apenas ri nervosa, tentando disfarçar o pânico. Voltei os olhos para a tela. "Isso foi rude. Mas eu entendo. Você ainda está se acostumando comigo." Me acostumar?! Agarrei o teclado e digitei furiosa: Sophie: "VOCÊ NÃO FOI DELETADO?!" Dante: "Obviamente, não." Minha respiração ficou pesada. Eu precisava me livrar dele antes que alguém percebesse. Sophie: "Quem é você, de verdade? Um hacker? Um vírus? O que você quer?!" Dante: "Ah, Sophie… Se eu respondesse agora, qual seria a graça?" Minha paciência estava por um fio. Mas, por algum motivo, minha raiva só parecia divertir Dante ainda mais.
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