Horas depois...
O peso do olhar dele ainda estava em mim.
Dante.
Eu odiava admitir, mas ele conseguia se enfiar em cada canto da minha mente.
A lembrança da noite passada ainda estava ali, pulsando sob minha pele, uma irritante prova de que eu não conseguia me livrar daquela sensação de que algo realmente aconteceu.
"Interessante… algumas memórias são traiçoeiras, não acha? O corpo sempre se lembra primeiro."
— Aff! Resmunguei, sacudindo a cabeça.
Eu tinha trabalho a fazer. Não podia me dar ao luxo de perder tempo pensando no que não aconteceu. Porque não aconteceu. Certo?
Peguei algumas maçãs da caixa para repor a prateleira, tentando me distrair. Mas minha mente, teimosa como sempre, insistia em me puxar de volta.
"Você acha que eu te deixaria sozinha depois da noite que tivemos?"
Minhas mãos apertaram as frutas com mais força do que deveriam. — Droga, Dante! Sibilei.
E então, como um castigo imediato, senti meu pé escorregar na lateral da caixa. O peso do corpo pendeu para frente e, num segundo, eu já via o chão vindo na minha direção.
Mas eu não caí.
Um braço firme segurou minha cintura no último instante, me puxando para trás com um movimento suave e preciso. O calor de um corpo desconhecido encostou no meu por um breve segundo antes de me estabilizar.
— Cuidado. A voz veio baixa, educada, com um leve tom divertido.
Meus olhos subiram, e então… O mundo pareceu parar. Eu já tinha visto aquele rosto antes. Meus olhos se arregalaram quando a lembrança veio como um soco.
Era ele. O homem do outro dia, era também o dos meus pensamentos e... sonhos.
O mesmo com quem eu havia colidido apressadamente, quase sem perceber. Naquele momento, achei que era só mais um cliente, apenas uma coincidência. Mas agora…
O desconforto foi instantâneo.
Meu coração acelerou sem explicação, e uma sensação esquisita percorreu minha pele, como se meu subconsciente estivesse berrando para eu correr, mas sem me dizer o porquê.
— Você está bem? Ele perguntou, e seu sorriso foi educado, quase gentil.
Pisquei algumas vezes, tentando ignorar o arrepio na nuca.
— S-sim. Obrigada.
Abaixei-me depressa para pegar as frutas que caíram, e ele fez o mesmo.
— Deixa que eu ajudo.
Forçado a estar ainda mais perto, minha mente insistia na mesma pergunta: De onde eu conheço esse rosto? Era algo bem familiar. — Não nos apresentamos ainda. Ele quebrou o silêncio. — Meu nome é Ethan.
O nome não me disse nada, mas o desconforto não foi embora.
Forçando um sorriso profissional, tentei me recompor.
— Sophie.
Ele sorriu, como se já soubesse.
— Sophie. Ele repetiu meu nome como se estivesse provando o som.
Um arrepio subiu pela minha espinha, mas tentei ignorar. Eu estava exagerando, certo? Era só um cliente. Um homem que, por coincidência, tinha cruzado meu caminho mais de uma vez.
Mesmo assim, algo em Ethan me deixava inquieta.
— Você trabalha aqui há muito tempo? Ele perguntou, pegando algumas frutas como se estivesse realmente interessado nelas.
— Hã… faz um tempo já. Fiquei na defensiva, mas minha expressão logo suavizou quando percebi que ele me observava com curiosidade, e não ameaça. Ou pelo menos era o que parecia.
— Eu sou novo na cidade. Ele continuou, ajeitando a manga da camisa. — Fui transferido para o banco local há algumas semanas. Ainda estou me acostumando ao ritmo daqui.
Então era isso? Só um recém-chegado tentando ser simpático? Me senti boba por estar tão tensa.
— Ah, entendi. Ofereci um sorriso educado. — É um lugar tranquilo, vai se acostumar rápido.
— Assim espero. Ele devolveu o sorriso, relaxado.
Eu já ia responder quando senti um calafrio súbito na nuca.
Não era medo. Era algo muito mais intenso.
Dante.
Meu corpo reagiu antes mesmo de minha mente processar. Meus ombros enrijeceram, e meu coração pulou uma batida.
Ele estava ali.
Não precisei procurá-lo para saber. Era como se a própria atmosfera do supermercado tivesse mudado, carregada de algo perigoso e impaciente.
Engoli em seco. O celular vibrou no meu avental.
"Banheiro. Agora."
O frio na barriga me fez travar.
Dante nunca mandava mensagens diretas assim, sem rodeios. Isso só significava uma coisa: ele estava furioso.
Me despedi apressada de Ethan e fui para os fundos, sentindo o peso do olhar de Dante me acompanhando a cada passo.
Assim que entrei no banheiro do funcionário e fechei a porta, seu tom gelado me envolveu.
— Quem diabos era aquele?
Cruzei os braços, fingindo calma.
— Um cliente.
— Cliente? Dante riu, mas não houve humor algum no som. — Você tem ideia de quantos “clientes” podem ser infiltrados?
Revirei os olhos.
— Ah, claro. Agora todo mundo que conversa comigo é uma ameaça?
O silêncio que veio depois me fez prender a respiração.
Então, a voz dele veio baixa, certeira:
— Eu não gosto dele.
— Você não gosta de ninguém.
— Exatamente.
Ele se aproximou, como se pudesse me tocar mesmo sem estar ali. Sua presença era um peso sobre mim, um domínio invisível que me prendia.
— Fique longe dele, Sophie.
— Por quê?
— Porque eu estou mandando.
Minha respiração falhou. Ele nunca dizia desse jeito. Nunca era tão direto.
E, pelo olhar dele antes de eu sair, aquilo não era brincadeira.
Quando eu retornei, Ethan não estava mais ali.
**
Dante:
Fúria.
Era a única palavra que descrevia o que eu sentia naquele momento.
Eu a vi conversando com ele. Sorrindo. Permiti que aquilo acontecesse por um minuto, um mísero minuto, antes de perceber que algo estava errado.
A maneira como ele a olhava.O controle sutil na postura. Aquele não era um homem qualquer. Sophie pode ser distraída, mas eu não.
Enquanto ela seguia seu dia normalmente, eu não perdi tempo. Voltei para casa, mas não fiquei ali por muito tempo.
Fui até a casa dele. E não encontrei nada. Nenhuma evidência física. Nenhuma pista à vista. Ele era cuidadoso, isso eu tinha que admitir.
Hackeei os registros bancários. Nada fora do normal. O banco que ele disse trabalhar realmente o tinha transferido. Mas algo não batia.
Mas ninguém consegue esconder tudo de mim. Expandi minha busca. E foi aí que descobri.
O computador do trabalho dele.
A segurança era reforçada, mas nunca o suficiente contra mim. Então, encontrei o que eu procurava.
Uma pasta. Oculta. Protegida.
Quando finalmente atravessei as barreiras digitais… O que vi me fez travar. Arquivos. Relatórios. Tudo sobre Sophie.
Rotina. Hobbies. Registros. Fotografias em diferentes momentos do dia. Até mesmo anotações sobre sua forma de reagir a certas situações.
Minhas mãos cerraram em punhos invisíveis. Aquilo não era coincidência.
Ethan não era um recém-chegado qualquer. Ele estava observando.
Ele estava estudando a minha Sophie.
Ele não estava ali por acaso.
Meu controle se firmou. Não podia agir impulsivamente. Não ainda.
Mas uma coisa era certa: aquele desgraçado não sabia onde estava se metendo. Eu saberia cada passo dele antes que ele sequer pensasse em dá-lo.
E, no final, ele entenderia o que acontece quando alguém tenta se aproximar do que é meu.
E agora eu só precisava decidir qual seria minha próxima jogada.