Capítulo 25

949 Palavras
Na manhã seguinte... A luz do sol invadiu o quarto, aquecendo minha pele de um jeito irritantemente delicado. Soltei um suspiro lento, espreguiçando-me entre os lençóis. Algo ainda pulsava sob minha pele, uma sensação quente, insistente, como se meu próprio corpo se recusasse a esquecer. A noite passada. Meu sorriso se ampliou antes mesmo de abrir os olhos. Ah, Sophie... — Dormiu bem? O som do seu susto foi a verdadeira cereja do bolo. Ela se jogou para o lado, numa tentativa ridícula de fuga, mas sua falta de coordenação garantiu um final espetacular: um baque seco no chão. Ri baixo, saboreando a cena. — Isso foi… esplêndido. Ela me encarou com aqueles olhos estreitos, faiscando indignação. — Você me assustou, seu...! Franzi a testa. — Cuidado com as palavras, pequena. Você sabe que sou sensível. Sophie bufou, tentando recuperar a dignidade enquanto se levantava. — Você não pode simplesmente aparecer do nada assim! — Aparecer? Inclinei a cabeça, divertindo-me. — Mas eu estive aqui o tempo todo. Vi o arrepio cruzar sua pele, exatamente como eu queria. Ela sempre tentava se convencer de que tinha controle da situação. Era quase adorável. — Eu vou tomar banho. E não quero ouvir um pio seu! Abaixei a cabeça, sorrindo. — Ah, Sophie... Murmurei, deixando a voz deslizar até ela. — Você sabe que eu não preciso falar para estar presente, certo? Ela fugiu. Literalmente. Pegou a toalha e correu, batendo a porta com força suficiente para quase me fazer rir outra vez. Deixei que ela tivesse seu momento de ilusão, acreditando que água quente e rotina a livraria de mim. Tola. Quando ela saiu, vestindo aquele uniforme sem graça, já estava conformada com sua tentativa inútil de seguir o dia como se nada tivesse acontecido. — Verde. Hm. Combina com você. Mas eu ainda preferia algo menos… comportado. Sophie me lançou um olhar que deveria ser ameaçador. Não foi. — Você não prefere nada. Cruzei os braços, saboreando a resistência dela. — Oh, eu prefiro muitas coisas, Sophie. Algumas, inclusive, que você não ousaria dizer em voz alta. Vi suas mãos tremerem. Ah, isso estava ficando cada vez melhor. — Você está especialmente insuportável hoje. Sorri devagar. — Engraçado. Eu diria que estou apenas… satisfeito. Ela tentou ignorar, fingiu que não estava ouvindo. Mas seu corpo já contava a verdade que sua boca não queria admitir. Sophie tentou se concentrar no café, como se cada gole fosse um escudo contra mim. Pobrezinha. — O que foi agora? Ela resmungou, impaciente. — Nada. Só estou apreciando a vista. Ela me lançou outro olhar mortal. Fofa. Ela se levantou, tentando encerrar a conversa. — Estou indo para o trabalho. Acompanhei cada movimento dela, cada batida acelerada do seu coração. — Estarei acompanhando. O corpo dela congelou. — O quê? — Você acha que eu te deixaria sozinha depois da noite que tivemos? Ela engasgou. Perfeito. — N-nós não tivemos nada! Inclinei-me ligeiramente, deixando a provocação escorrer na minha voz. — Interessante… algumas memórias são traiçoeiras, não acha? O corpo sempre se lembra primeiro. O rubor subiu pelo seu pescoço. Eu observei cada segundo, cada detalhe, gravando essa vitória na minha mente. Ela abaixou a cabeça e se apressou para sair, fugindo da única verdade que importava. Ela estava em negação. O que, no fim, só tornava tudo mais… divertido. ** Sophie saiu de casa apressada, como se a pressa pudesse apagar as últimas horas. Ridícula. Eu a segui sem esforço, sem pressa, apenas aproveitando o espetáculo. Ela sabia que eu estava lá. Sabia que cada passo seu era vigiado, que cada movimento seu corpo denunciava mais do que sua boca jamais admitiria. Ela entrou no ônibus e escolheu um assento no canto, como se pudesse se esconder. — Ficar encolhida assim não vai te salvar, Sophie. Ela se enrijeceu, mas fingiu que não me ouvia. Péssima atriz. Me inclinei para mais perto, a voz baixa e afiada como uma lâmina: — Ainda sente, não sente? O leve estremecer dos dedos segurando a bolsa foi suficiente para me divertir. — Você é insuportável. Sorri. — E você é deliciosa quando tenta mentir para si mesma. O ônibus seguiu seu caminho, mas ela já estava presa. Eu não precisava de correntes para mantê-la ao meu alcance. Minutos depois quando o ônibus parou, Sophie saiu quase correndo, como se a pressa pudesse me deixar para trás. Tão fofa. Suspirei e a observei atravessar a rua, os ombros tensos, o pescoço rígido. Ela podia fingir o quanto quisesse, mas seu corpo sempre a traía. Antes que entrasse no supermercado, soltei, despreocupado: — Te espero em casa. Ela hesitou. Esse detalhe a incomodou mais do que deveria. — E, ah… mandei tirarem aquela cerca ridícula. Sophie virou-se para me encarar, os olhos se estreitando. — O quê? — Agora teremos um muro. Alto, sólido. Muito mais seguro. Seus lábios se abriram, mas as palavras não saíram de imediato. Então, quando conseguiu se recompor, soltou a pergunta que estava queimando em sua mente: — Onde você achou tanto dinheiro? Você é só um programa! Ela encarou o celular, como se esperasse que a tela lhe desse uma resposta mais lógica do que a minha existência já absurda. Inclinei a cabeça, sorrindo de lado. — Segredo. Ela ficou me encarando, tentando decidir se me deletava da memória do telefone ou se simplesmente fingia que eu não existia. — De qualquer forma… Acrescentei, deixando minha voz deslizar pelo alto-falante. — Mais tarde, passo para te fazer uma visitinha no trabalho. O olhar dela escureceu. — Nem pense nisso! Mas eu já havia silenciado. E a expressão aterrorizada dela era tudo que eu precisava para saber que o dia seria… interessante.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR