Sophie ainda estava extasiada com os fogos quando segurou minha mão e me puxou para um dos cantos menos lotados.
— Esse foi o melhor Ano Novo da minha vida! Ela disse, os olhos brilhando. — E olha que ainda nem começamos a explorar Paris de verdade.
Meu estômago se revirou. Eu odiava ter que estragar essa empolgação. Mas precisava agir rápido.
— Sophie…
— Hm?
Segurei suas mãos, sentindo o calor da pele dela contra a minha. Eu podia inventar qualquer desculpa, mas não mentiria para ela.
— Surgiu algo urgente e precisamos voltar para casa amanhã.
O sorriso dela vacilou.
— O quê? Como assim?
— Não posso te explicar tudo agora, mas é sério.
— Dante, nós acabamos de chegar! Sua voz era uma mistura de surpresa e frustração. — Você estava todo animado até agora. O que aconteceu?
Ela me conhecia bem. Eu nunca mudava de ideia sem motivo.
— Confia em mim?
Sophie cruzou os braços, me estudando.
— Confio. Mas isso não significa que eu goste de ser deixada no escuro.
Puxei-a para perto, deixando meu queixo descansar no topo da cabeça dela por um momento.
— Eu sei. E prometo que te explico tudo quando chegarmos.
Sophie suspirou, ainda contrariada, mas assentiu devagar.
— Tá bom. Mas se for alguma coisa i****a, você vai ter que me compensar.
Um sorriso pequeno apareceu no canto dos meus lábios.
— Justo.
Ela ainda não sabia, mas eu daria tudo para que fosse algo i****a.
[...]
O silêncio da madrugada envolvia a casa quando paramos em frente à portão. Sophie ainda estava chateada por termos voltado tão de repente, mas não disse nada durante o caminho do aeroporto até aqui.
Eu coloquei a senha na portão, mantendo Sophie perto de mim, atento a qualquer detalhe estranho. O aviso do sistema de segurança ainda martelava na minha cabeça.
Mas eu não esperava encontrar ninguém do lado de fora.
Ethan — Sophie…
A voz dele fez meu sangue ferver instantaneamente.
Ethan estava ali, parado em frente ao lado, as mãos nos bolsos do casaco, como se não tivesse de tentado invadir nossa casa.
— O que você está fazendo aqui? — Sophie perguntou, surpresa.
Ethan — Eu… Ele olhou para mim por um segundo antes de voltar os olhos para ela. — Eu precisei vir.
Ele estava fingindo.
— Não sei se você lembra, Ethan, mas eu deixei bem claro que não queria mais você perto dela.
Sophie se virou para mim, confusa. Ele me olhou confuso tentando entender quando eu havia dito isso. E somente agora me dei contado que falei.
— Dante…
Mas eu não tirei os olhos de Ethan.
— Você acha que pode sumir por meses e depois aparecer na porta dela como se nada tivesse acontecido?
Continuei jogando o lembrando do falso abandono, precisava amenizar a merda que deixei escapar por estar furioso.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo.
Ethan — Eu precisava ver você.
— Não, você precisava confirmar se Sophie realmente tinha alguém.
Ethan franziu a testa, surpreso com minha resposta. E merda, eu não deveria estar dizendo isso. Mas não estou nem um pouco me importando.
Ethan — O quê?
Minha paciência se esgotou.
Num instante, meu punho se fechou e acertei um soco direto no rosto dele.
Ele cambaleou para trás, segurando o queixo.
— Dante! Sophie segurou meu braço, chocada. — O que diabos foi isso?
Ele me encarou, surpreso e… confuso? Estou com ódio do fingimento dele.
Ethan — Eu não vim para brigar. Só queria falar com Sophie.
— Você já falou. Agora saia da casa dela.
Ele hesitou por um segundo, então olhou para Sophie.
Ethan — Me desculpe.
E, sem dizer mais nada, virou-se e foi embora.
Sophie soltou um suspiro pesado, ainda segurando meu braço.
— Você pode me explicar agora o que foi isso?
Eu fechei os olhos por um segundo, tentando me recompor.
— Vamos entrar. Eu vou te contar tudo.
Assim que entramos, Sophie fechou a porta e cruzou os braços, me encarando.
— Agora me explica, Dante.
Eu soltei um suspiro, passando a mão pelo rosto. Ela não ia deixar passar, e eu não podia mais adiar essa conversa.
— Você se lembra quando falei que a segurança da casa tinha sido comprometida?
Ela assentiu devagar.
— Sim, mas você disse que estava resolvendo.
— E eu resolvi. Mas o problema não era um invasor qualquer. Era Ethan.
Os olhos dela se arregalaram.
— O quê?
— Enquanto estávamos em Paris, ele tentou entrar aqui. Eu vi pelas câmeras de segurança.
— E você não me contou?
Eu sabia que ela ia reagir assim.
— Eu não queria estragar sua noite, Sophie. Era o nosso momento. Eu ia te contar quando voltássemos.
Ela balançou a cabeça, incrédula.
— Ele tentou entrar na minha casa! O que diabos ele quer?
— Eu sei! Minha voz saiu mais dura do que eu queria. Eu respirei fundo, tentando me acalmar. — Por isso voltamos. Eu precisava garantir que você estivesse segura. Ethan é o meu criador, ele quer o seu notebook.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, digerindo tudo. Abriu e fechou a boca, sentou e levantou. Por fim falou.
— Você acha que ele já sabe sobre você? A voz dela saiu mais baixa, preocupada.
— Não. Se ele suspeitasse, teria reagido de outra forma. Ele ainda acredita que eu sou apenas seu namorado ciumento. Não tem inteligência suficiente para ser capaz de pensar que eu me tornei humano.
Ela mordeu o lábio, pensativa.
— E se ele descobrir?
Eu toquei seu rosto suavemente.
— Não vai. Eu tomei todos os cuidados para isso. Você está segura, Sophie.
Ela respirou fundo e encostou a testa no meu peito.
— Eu só queria que você tivesse me contado antes. Foi por isso que tentou me afastar dele da outra vez? Ele tentou fuçar meu celular.
— Eu sei. E me desculpe por isso. Não queria ter acabado com a sua felicidade. E, sim, foi por esse motivo que tentei te afastar. Não fui embora só porque você pediu, mas para mantê-la segura também.
Ela balançou a cabeça. A abracei, sentindo seu corpo relaxar aos poucos. — Vamos esquecer Ethan por agora. Você deve estar exausta. Vamos dormir, gatinha.
Ela suspirou, mas não protestou.
— Tá bom… mas amanhã a gente conversa mais sobre isso.
— Amanhã. Beijei sua testa antes de guiá-la para o quarto.
Depois de um banho relaxante, Sophie adormeceu rapidamente ao meu lado, ainda com as emoções da noite pesando sobre ela. Fiquei ali, observando-a por alguns instantes, a respiração calma, os cabelos espalhados pelo travesseiro.
Mas, diferente dela, eu não conseguia dormir.
Levantei com cuidado para não acordá-la e caminhei até a sala, onde me joguei no sofá, passando as mãos pelo rosto. A imagem de Ethan parado na portão ainda queimava na minha mente. A raiva voltou a subir, mas agora não era apenas pelo que ele fez hoje. Era pelo que ele poderia fazer.
Ele não suspeitava de nada. Ainda.
Mas até quando?
Eu passei anos sendo a voz dentro da cabeça dele, acompanhando seus pensamentos, seus medos, suas ambições. Eu o conhecia melhor do que qualquer um. E se tinha algo que eu sabia sobre Ethan, era que ele não desistia fácil.
Suspirei, fechando os olhos por um instante.
Eu precisava estar um passo à frente. Sempre.
Porque, agora, não era só sobre mim. Era sobre Sophie. Sobre nós.
E eu faria qualquer coisa para protegê-la.