Pré-visualização gratuita Prólogo
Meus pais casaram o meu irmão antes de morrer. Era uma família abastada, de posses, enquanto nós não estávamos no nosso melhor momento. Mas ele era persuasivo, alguém com uma visão incrível de negócios, e a minha cunhada era completamente apaixonada por ele.
Mas eu não tive a mesma sorte. Meus pais morreram assim que completei quinze anos e sendo minha única família, meu irmão foi obrigado a cuidar de mim.
E desde então, eu passo por toda a porcaria de humilhação possível. Eles me xingam, me batem e tenho certeza que só não me colocam para trabalhar por acharem que os outros comentariam.
Não recebo roupas novas. Sequer ganho algum agrado no meu aniversário. Meus vestidos são cedidos da irmã mais nova da minha cunhada, aqueles que ela descarta e me são dados para que eu remende e use.
Foi assim que aprendi a fazer roupas. A agulha virou minha única aliada, o tecido, minha fuga. Com o tempo, aprendi a transformar trapos em algo aceitável, mas nunca nada que me fizesse sentir... eu mesma.
Até hoje.
Eu passei semanas trabalhando nele. Roubando retalhos de seda de vestidos velhos da minha cunhada, unindo pedaço por pedaço com uma linha vermelha que encontrei em uma gaveta esquecida. O resultado estava ali, no espelho: um vestido longo, simples na modelagem, mas de um vermelho tão vibrante que parecia pulsar com a vida que eu tanto desejava ter. O decote era sutil, as mangas caíam elegantemente sobre os ombros, e a saia se abria levemente a cada passo.
Pela primeira vez na vida, eu me sentia bonita. Não apenas "aceitável", mas verdadeiramente bela. O vermelho contrastava com a palidez da minha pele e realçava a cor dos meus olhos. Eu sorri para o espelho, um sorriso genuíno que há tempos não aparecia.
Mas a ilusão durou pouco.
A porta do meu quarto se abriu com um estrondo e minha cunhada, Bianca, entrou, seguida pelo meu irmão, Marco. Bianca parou assim que me viu, seus olhos se arregalando com uma mistura de choque e... inveja? Sim, inveja. Eu vi o brilho verde e feio em seu olhar antes que ela o disfarçasse com um desdém fingido.
— Que horror! — ela exclamou, fazendo um gesto dramático com a mão. — Onde você arranjou isso, Ely? Parece um trapo velho que foi tingido de vermelho. E essa cor! Tão vulgar. Você não vai ao lado da minha família com essa roupa.
Suas palavras doíam, mas eu não deixei que transparecessem. Eu já estava acostumada com suas críticas, com suas tentativas de me rebaixar. Mas o que mais me doía era o fato de que ela tinha inveja de mim. De mim, a garota humilhada e maltratada.
Marco olhou para mim, com um suspiro de impaciência.
— Bianca tem razão, Ely — ele disse, com uma voz fria e cortante. — Esse vestido não é apropriado para a ocasião. Você vai em outro carro, para não nos envergonhar.
Eu assenti, com um nó na garganta. Eu não ia discutir, não ia lutar. Eu sabia que não tinha escolha. Eu era apenas o "brinquedo" deles, o fardo que eles eram obrigados a carregar.
— Tudo bem — eu murmurei, baixando os olhos.
O trajeto até o salão foi rápido. Sozinha, consegui relaxar e observar a vista maravilhosa que havia do lado de fora.
Chegando na festa, o luxo me deu náuseas. O salão era exagerado, cheio de lustres de cristal que brilhavam tanto que chegavam a cegar e arranjos de flores brancas que cheiravam a enterro rico. Todo mundo parecia usar o mesmo tom de cinza e preto, enquanto eu, com meu vestido vermelho, me sentia um alvo pintado no meio do nada.
Eu fiquei em um canto, tentando ser invisível. Minha cunhada passava por mim, fingindo um sorriso doce para os convidados, mas me lançava olhares mortais sempre que podia. Meu irmão e a família dela agiam como se eu fosse a "irmãzinha querida e humilde", mas ninguém me oferecia sequer uma taça de água. Eu estava ali por obrigação, um enfeite que eles detestavam. Tentei sorrir para uma senhora que passou, mas meus lábios travaram.
De repente, o som da música foi engolido por um estrondo. As portas duplas do salão voaram abertas e uma tropa de homens armados, vestidos de preto, invadiu o lugar. O pânico foi imediato, mas ninguém ousou gritar.
No centro deles, caminhou um homem de cerca de cinquenta anos. Ele tinha uma presença que esmagava o ar do ambiente.
— Marco! — ele abriu os braços, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Me sinto triste, sabia? Uma festa tão grande e eu não fui convidado.
Meu irmão parecia que ia desmaiar. A cor sumiu do rosto dele na hora.
— Don... por favor, podemos conversar depois? No escritório? — Marco gaguejava, suando frio. — Aqui não é o lugar, as famílias...
— Eu já cansei de ter paciência, Marco — o homem cortou, a voz agora como uma navalha.
Ele começou a caminhar pelo salão. Parou na frente do pai da Bianca, disse algo baixo que fez o velho tremer, e continuou circulando como um predador. Por fim, os olhos dele cravaram em mim.
Ele veio na minha direção e eu travei, sentindo o ar sumir. Ele parou bem perto e, com uma mão pesada, segurou uma mecha do meu cabelo, analisando o tecido do meu vestido vermelho.
— Como você se chama? — perguntou, com a voz rouca.
— Ely — respondi, quase sem som.
— E o que você é do Marco?
— Irmã.
Ele deu um sorriso largo, satisfeito.
— Você é casada, Ely? — balancei a cabeça negativamente. — E é virgem?
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu não consegui falar, apenas senti meu rosto queimar de vergonha. Ele entendeu o meu silêncio como a resposta que queria. Se virou para o meu irmão com um brilho perigoso no olhar.
— Tenho uma proposta, Marco. E eu aceito que você pague sua dívida com ela.
— O quê? Não! — eu tentei protestar, dando um passo para trás, mas Bianca foi mais rápida e segurou meu braço com força, me impedindo de fugir.
— Você deve isso a nós, Ely! — Bianca sibilou, os olhos brilhando de puro alívio. — Sustentamos você por anos, demos comida e teto enquanto você não passava de um estorvo. Agora você vai servir para alguma coisa e pagar o que gastamos com você.
Marco olhou para mim. Não vi um pingo de remorso, apenas o alívio covarde de quem acabou de salvar a própria pele às custas da minha vida.
— Ela é sua — Marco disse, fazendo um sinal de descaso com a mão. — Pode levar.