Me senti errada por ter deixado aquele homem flertar comigo, mas logo lembrei que tinha sido traída naquele mesmo dia e deixei o sentimento de culpa de lado.
Percebi naquele dia que mesmo não me arrumando como costumava me arrumar no início do casamento, ainda conseguia atrair olhares para mim e aquilo me fez sorrir.
Quando o táxi parou na porta da minha casa, paguei e agradeci o motorista, que retribuiu o sorriso antes de partir dali. Era hora de enfrentar Brian, e eu não sei se estou pronta para isso nesse momento.
Respirei fundo e entrei em casa torcendo para ele estar dormindo ou não estar em casa, porque eu não queria vê-lo naquele momento. Principalmente se ele tiver bebido depois de ter saído de lá, sabia que seria uma longa noite.
Infelizmente, parece que o universo não gostava tanto de mim, pois cheguei e Brian estava sentado em uma poltrona na sala, com um copo de whisky em sua mão, enquanto a outra tocava a madeira do lugar que estava sentado. Um barulho chato e repetido, seguido de sua respiração pesada no escuro do local.
Tinha apenas uma lâmpada de uma luminária de mesa ligada, onde eu vi a sua mão movimentando para colocar o copo.
-Pensei que não voltaria para casa, que ia ficar de papo com aqueles caras. - Brian disse e eu pude ver sua silhueta no escuro, se levantando para se servir novamente
- Você não tem direito de me cobrar nada depois de hoje. - segurei minha bolsa, como se ela pudesse me dar força para seguir naquela discussão
- Você ainda é minha esposa Ella, me deve respeito e explicação de tudo que você faz. - ele parecia irritado, bêbado e eu sabia que aquilo não terminaria bem
- Brian, eu não sou propriedade sua. Saiba que eu posso ir embora quando eu bem quiser, você não poderá fazer nada para me impedir. - ri de nervosismo, caminhando para perto de onde ele estava, meu corpo pedia por álcool - Principalmente depois de hoje, me trair em um banheiro de uma festa para anunciar a chegada de uma criança. Lembrando que não é qualquer criança, é o filho de um amigo seu. - coloquei gelo e me servi de uma bela dose de whisky
- Engano seu Ella, ou esqueceu que seu pai praticamente me vendeu você? Temos a p***a de um contrato, se você ousar me desafiar ou querer quebrar, eu acabo com a sua vida e a vida de seus pais. - ele tocou meu rosto, pude sentir o cheiro forte de álcool vindo da sua boca - Você me pertence querida, não esqueça disso. Ainda tem que agradecer por eu deixar você sair e ter uma vida normal, porque eu poderia simplesmente trancar você dentro de casa e colocar alguém para te vigiar o dia todo.
Aquilo fez meu corpo estremecer, porque eu ainda não tinha conhecido aquele lado de Brian, com aquelas ameaças e me tratando com posse.
-Engano seu achar que pode acabar com a minha vida Brian, eu não sou tão boba e inocente quanto você pensa. - dei um passo para frente, parando perto de seu rosto, olhando em seus olhos.
Juro que pude sentir uma enorme bola tapar minha garganta naquele momento, vontade de chorar e de correr para um lugar seguro, implorar por colo e cuidado, mas não iria fazer aquilo agora. Precisava enfrentá-lo, ou ele iria continuar com aquilo.
Mas aquilo foi a melhor decisão da minha vida e eu só me arrependi dela quando senti o gosto de sangue em minha boca.
-Isso é para você aprender a nunca mais levantar a voz para falar comigo, você me pertence e não se fala mais nisso. - ele disse se afastando, depois do tapa em meu rosto
- Veremos até onde isso vai, Brian. - ri e tomei um gole da minha bebida, peguei minha bolsa novamente, com as chaves do carro e sai dali.
Não faço ideia de como eu consegui me manter em pé, mas me mantive firme e sai dali. Brian gritava para eu voltar e ir para o quarto, porque ele ia acabar o que tinha começado na festa, mas eu atrapalhei.
Não deixaria que ele me tocasse novamente, sentia nojo apenas de estar perto dele naquele momento. Era tarde e eu não fazia ideia de onde ir naquela hora, tentei ligar para os meus pais que moravam relativamente longe dali, e eles não atenderam.
Dirigi alguns quarteirões da minha casa, para não ter risco de ser seguida por Brian. Procurei pelo contato de uma amiga, mas ela estava postando foto em alguma festa, não queria atrapalhar e pedir para ela voltar para casa para eu chorar em seu colo. Sabia que precisava ser forte naquele momento, decidir o que eu iria fazer com a minha vida e assim agir.
Parei em uma lanchonete próxima dali, pedi um sanduíche e milkshake, enquanto olhava para a janela do lado de fora do local. Pois dentro, estava repleto de casais aparentemente felizes com seus parceiros e vivendo um momento bom, enquanto eu estava ali me sentindo destruída por dentro por causa de um homem, pelo homem que eu era casada.
Naquele momento, senti tanta raiva do meu pai por ter me vendido como um objeto para alguém que ele sequer conhecia, como se eu fosse algo descartável e só pensei em retribuir o que Brian tinha me feito naquele dia.
Peguei dentro da bolsa o cartão com o nome e contato de James Philipps, cheguei a digitar o número para chamar, mas a minha deusa interior impediu.
Você não pode criticá-lo e agir da mesma forma Ella. Seja madura e resolva isso de uma vez por todas.
Transar com um desconhecido apenas por raiva, não vai te fazer resolver o caos que é a sua vida ou o seu casamento.
Minha consciência estava certa, não podia exigir algo de alguém, se eu também vou fazer o mesmo por apenas vingança. Respirei fundo e apaguei o número, guardei o cartão na bolsa e deixei o celular sob a mesa.
Estava comendo quando o sino da porta soou, por um momento decidir olhar para saber quem estava entrando, mesmo não sendo do meu interesse. Um rapaz alto, jaqueta com o símbolo de alguma faculdade que não dava para definir e cabelos jogados de lado atraiu meu olhar.
Mas, por quê?
Essa era uma pergunta que eu não sabia responder, não sabia o porquê meus olhos estavam grudados em sua silhueta tentando saber de quem se tratava. Como um estalo na minha mente, percebi que estava achando o jovem parecido com o garoto do posto de combustível.
Que maravilha Ella, tentando achar um garoto no corpo de outro, por que você faz isso mesmo?
Me perguntei e voltei a tomar minha bebida, ainda olhando para o garoto mesmo de forma inconsciente, mas desviei assim que seus olhos cruzaram os meus e eu percebi que estava realmente o encarando. Aquele garoto era completamente diferente do que me atendeu no posto, apenas pensei que pudesse ser pelo porte físico.
- Boa noite senhorita, aconteceu alguma coisa? Posso te ajudar em algo? - quase pulei da cadeira ao ver que ele já estava parado só meu lado
- Hãn? Na-não, eu apenas estava olhando para o nada, desculpa se pareceu que estava te encarando. - dei a desculpa mais esfarrapada de todas, mas ele parece não acreditar. Afinal, nem eu acreditaria
- Não tem problema, tem certeza que não estava me encarando? Seus olhos estavam me seguindo e eu acompanhei aquele espelho ali. - ele apontou para um espelho que dava para ver todo o salão
DROGA!
-Me desculpa, eu pensei que fosse uma outra pessoa. - falei a verdade e ele parecia acreditar agora, o que me deu alívio
- Tudo bem, a propósito, me chamo Austin. - ele estendeu a mão para que eu pudesse apertar
Ainda estava me sentindo muito envergonhada por ter ficado o encarando e ele saber disso, mas não iria deixar com que ele ficasse parado ali, com a mão estendida para mim.
- Muito prazer Austin, me chamo Ella. - disse apertando sua mão - E novamente, me desculpe por ter confundido você.
Ele apenas sorriu, disse que não tinha nenhum problema e se afastou. Passei mais ou menos s 40 minutos ali, comendo e pensando na vida que eu estava levando.
Não poderia fugir da minha realidade indo para a casa de uma amiga ou dos meus pais, uma hora ou outra iria enfrentar Brian novamente. Precisava tomar coragem para fazer aquilo, naquele momento e não deixar que aquilo se tornasse uma enorme bola de neve.
Dirigi de volta para casa, sentindo uma vontade de chorar ao lembrar do tapa que meu próprio marido me deu, a troco de nada. Mesmo ele sendo um completo arrogante, ele nunca tinha levantado a mão para mim e eu me sentia um lixo naquele momento, mesmo não sendo culpada pela situação.
Brian estava dormindo no sofá, não me atrevi a acorda-lo e nem sequer a tentar arrumar seu corpo em uma posição confortável. Deixaria que ele sentisse a dor pelas escolhas dele, na manhã seguinte.
Caminhei até o quarto em passos leves, me tranquei e tomei um banho antes de dormir. Mesmo meu corpo em estado de alerta, por Brian estar no andar de baixo, meu corpo precisava descansar e a única coisa que me fez apagar naquela noite, foram os calmantes.
A médica recomendou não tomar, devido serem fortes e o tratamento para engravidar. Segundo ela, poderia interferir e não éramos o que queríamos, mas naquela noite, eu até tinha pensado em desistir do meu sonho. Principalmente após ver do que Brian é capaz de fazer quando está bêbado e é contrariado.
Não percebi quando meu corpo por fim apagou, no meio da cama, com o cobertor cumprindo apenas parte do meu corpo. Acordei com o sol no meu rosto, era domingo e já se passavam das 10 horas da manhã.
-Estranho Brian não ter batido nessa porta até o momento. - resmunguei para mim mesma, enquanto caminhava até o banheiro para as higienes matinais - Ou ele pode ter batido e eu não escutei, ou pode estar apagado no sofá até agora. - respondi minha própria indagação
Troquei de roupa com a intenção de que se ele me estressar, eu sairia para almoçar com as minhas amigas e o deixaria falando sozinho, mas o que eu encontrei quando desci as escadas, foi algo completamente diferente do que eu esperava.
A mesa estava posta, com bolo, pães, torradas, panquecas, sucos, achocolatados e café. No meio da mesa, uma pequena variedade de frutas. Parecia até um café da manhã daquelas famílias ricas que passa na televisão ou nos filmes.
-O que é isto? - perguntei um tanto desconfiada, afinal ele nunca tinha feito isso para mim em anos de casados
- Entenda como um pedido de desculpas e um recomeço. - ele sorriu para mim, colocando o pano de prato nos ombros e se aproximando
Meu corpo ainda estava em sinal de alerta, então dei dois passos para trás e ele parou
-Me desculpe por ontem. - foi tudo que Brian disse me olhando
- Por qual parte em específico você está se desculpando Brian? - ainda sentia meu corpo com um leve tremor de medo, mas tentei não demonstrar
- Por tudo. - ele deu um passo e eu recuei - Pelo que aconteceu na festa da Angela, pelo que aconteceu quando você chegou. Eu não deveria ter feito isso com você, fui completamente insensível em te trair e ainda querer colocar a culpa em você. - parecia até mesmo outra pessoa à minha frente, e não Brian L. Smith com quem eu tinha me casado.
Ainda estava em alerta, mas parte de mim queria acreditar que ele estava realmente arrependido, querendo mudar e ser uma pessoa melhor para mim ou para nosso casamento.
-Brian, você me humilhou e ainda me bateu ontem, não acha que um café da manhã e frases bonitas vai me fazer esquecer isso, não é? - o indaguei e ele pareceu confuso
- Mas se preparar um café da manhã, dizendo que eu tô arrependido, não vai fazer a gente mudar, o que você quer? - ali ele já mostrou que não tava tão arrependido assim, deixo a ignorância falar mais alto
- Com atitudes Brian, me tratando melhor no dia a dia, parando de comer qualquer r**o de saia que você vê por aí. Tendo respeito pela mulher que você gosta de exibir como troféu. - dessa vez quem dava um passo para frente era eu, e ele recuou - Você todos os dias me trata como um lixo, como uma serviçal sua, ou pior ainda. Pelo feedback das suas secretárias, você é um amor com elas. Se você não está feliz comigo e não quer separar pelo maldito contrato, pelo menos me trata como um ser humano.
Peguei a minha bolsa e sai, deixando com que ele falasse sozinho ali. Não estava pronta para brigar novamente, ainda mais quando eu sempre vou ser culpada pelas atitudes que ele tem.
Pouco mais de uma hora de carro, cheguei na casa das minhas amigas, as mesmas que Brian dizia encheram minha cabeça contra ele. Eram as únicas que eu confiava e que eu sabia que se preocupava em como aquele relacionamento me afetava em diversos momentos, de forma negativa.
-O bom filho à casa torna. - Mary disse me abraçando na porta de sua casa - Tacy, a Ella chegou. Vamos? - ela gritou para nossa outra amiga Stacy, que estava morando com ela por um tempo, enquanto finalizava a reforma de seu apartamento
Elas disseram que iriam me levar em um restaurante que abriu perto do trabalho. Relutei porque não queria estar perto do trabalho em pleno domingo, mas de tanto o insistir, acabei cedendo e fomos todas juntas.
No caminho o assunto era diverso, sobre trabalho, festas, relacionamentos e principalmente o meu casamento.
-Amiga, de verdade, eu acho que você deve largar esse homem. Você é linda, nova, é esforçada, tem seu trabalho e pode ficar na minha casa até conseguir um lugar fixo para ficar. - Mary comentou enquanto andávamos em direção a porta de entrada do restaurante
- Eu sei disso amiga, eu queria muito ter essa coragem para largar tudo, sabe? Eu sinto que o Brian é um homem bom, ele era atencioso e carinhoso comigo no início do casamento, mas não sei o que aconteceu para ele mudar tanto assim. - comentei meio cabisbaixa, querendo acreditar mais naquilo, do que fazer minhas amigas acreditarem
Estávamos perto da entrada, uma menina nos levou até uma mesa que já estava reservada e disse que alguém já iria vir para nos atender.
-Eu ainda continuo do lado da Mary, Ella. Você está tentando dizer para si mesma que esse relacionamento ainda tem alguma chance de dar certo, mas sabe que não é verdade. - Stacy comentou se acomodando em sua cadeira
- Desculpe interromper a conversa, meu nome é Robert e eu vou servir vocês hoje. - ouvi a voz e logo levantei o olhar - Olá senhorita, que prazer vê-la novamente.