Já fora da escola, despedi-me das minhas amigas e dirigi-me para a estação de trem, para ir para a casa da minha avó. Enquanto caminhava ouvindo música, o meu celular vibrou e vi que era uma mensagem da minha mãe dizendo que, quando voltasse da casa da minha avó, comprasse milanesas para o jantar.
Prestei tanta atenção na mensagem, que me assustei quando alguém me pegou pelo braço puxando-me para trás. Fazendo com que, do nada, eu estivesse colada ao peito de um homem, enquanto sentia o trem passar atrás de mim. Não entendia o que tinha acontecido. Mas devido ao movimento brusco, o meu fone de ouvido direito saiu do meu ouvido, finalmente ouvindo os alarmes do dele.
Acabavam de me salvar de ser atropelada pelo trem ao cruzar os trilhos dele. O medo me inundou, ao perceber que estive a ponto de morrer por minha negligência. O meu coração batia freneticamente pelo que acabou de acontecer e os tremores percorriam o meu corpo.
"Que po*rra é essa?"
Ao me acalmar, decidi me afastar do meu salvador para agradecer seu ato heroico. Mas se eu já estava surpresa por ter quase morrido um minuto atrás, a maior surpresa foi quem me salvou.
Marco me olhava com os seus olhos castanhos nos quais se via o medo e a raiva misturados.
— Obrigada...
— Você é estúp*ida?! Ele gritou comigo a plenos pulmões enquanto se afastava de mim. — Você é surda?! Não ouve?!
Notei que o seu corpo tremia e parecia que ele não estava se sentindo bem. Ele se agarrou a um corrimão para conseguir ficar de pé.
— Você está se sentindo m*al? Perguntei, observando o seu rosto abatido, vendo como a suas mãos tremiam, enquanto ele inalava e exalava vertiginosamente.
A minha respiração também estava irregular pelo choque de ter estado prestes a morrer, mas ele parecia mais afetado do que eu. Respirou fundo, acalmando-se um pouco, e começou a caminhar para atravessar os trilhos sem nem sequer olhar para mim. Vi ele afastar-se de mim a passos largos, deixando-me sozinha.
Se me tivessem dito que aquele dia seria o começo da minha história de amor, eu diria que me chamar de estúp*ida e depois de surda não era uma boa maneira de começar.
****
Desde o dia em que estive diante da morte, já havia se passado uma semana. Durante todos aqueles dias fiz o possível para agradecer a Marco a sua ação corajosa. Mas ele não só me ignorava mais, como também me evitava. Por exemplo, no dia seguinte ao quase acidente, reuni toda a minha coragem para me aproximar dele e o idi*ota m*al me viu pegou na mão do Luís e desapareceu da minha vista. E assim inúmeras vezes. Poderia dizer-se que ele usava o Luís para se afastar de mim. Então desisti de lhe dar o meu agradecimento. Por isso, decidi esquecer o assunto.
Era domingo, Dani e Mica tinham vindo para minha casa para uma maratona de K-dramas. Ultimamente estávamos gostando das novelas históricas coreanas e começamos a assistir Scarlet Heart Ryeo. Ao terminar a maratona de 20 capítulos que começamos ontem à noite, as consequências foram graves. Todo o meu quarto estava cheio de lenços devido ao mar de lágrimas e muco que fomos durante os últimos capítulos. Além disso, os nossos olhos estavam inchados de tanto chorar e os nossos narizes vermelhos. Acho que foi um final perfeito, mas triste. E isso, para uma fã como nós, não agrada. Odiávamos Hae Soo por não contar ao quarto príncipe sobre a sua filha. Acho que, se ele tivesse dito a ele, o final não teria sido tão doloroso.
— M*alditos coreanos, porque sempre me fazem isso! Gritou Dani com a voz embargada
— Foi tão triste quanto o final de Escada para o Céu. Disse Mica com a voz embargada.
— Não, ninguém pode tirar o lugar de "Corta-Venas" de "Escalera al Cielo". Comentei, lembrando daquele romance tão trágico.
A porta do meu quarto abriu e meu irmão mais novo, Manuel, entrou. Todas nos viramos para olhá-lo, expondo assim os nossos olhos inchados. Manuel não disfarçou nada sua diversão.
— Parecem porcos com os olhos inchados e o nariz vermelho. Disse com escárnio enquanto olhava para a tela do meu computador. — De novo vendo aqueles chineses? Não entendo como podem ver isso, se todos são iguais.
— Cale a boca, pirr*alho! Gritei irritada enquanto jogava um travesseiro nele.
Ele se esquivou e me mostrou a língua.
M*aldito pirralho
— Mamãe disse para descerem para tomar café da manhã. Comunicou, fechando a porta. Quando ele saiu do quarto, ouviu-se ele gritando: Mamãe, de novo ficaram a noite toda olhando para os chineses e agora estão com a cara inchada como porcos.
— Seu irmãozinho é tão agradável. Comentou Dani com sarcasmo enquanto começava a recolher os seus lenços.
— Não quer levá-lo? Perguntei com um sorriso cansado.
— Não, obrigado, com a minha irmãzinha é o suficiente e sobra. Respondeu com um tom cansado.
— Felizmente eu não tenho irmãos. Comentou Mica, divertida.
A verdade é que, mesmo que meu irmão fosse insuportável e minha irmã fosse uma zumbi, eu amava os dois. Então eu tinha certeza de que jamais queria mudar isso na minha vida.
Arrumamos o meu quarto e descemos para tomar café da manhã com a minha família. Durante o café da manhã, Aldana me mandou uma mensagem.
Aldu:
Daqui uma hora os meninos vão jogar na praça. Então, por favor, venham me fazer companhia.
Comentei com minhas amigas o pedido da Aldana e todas concordaram em ir. Terminamos o café da manhã e me despedi dos meus pais, que viajariam hoje. Meu pai seria gerente em outra filial da empresa dele, que ficava na Patagônia, por um ano, e a minha mãe o acompanharia por alguns meses. Então, a partir de hoje, estávamos nas mãos da Ana.
Ao chegarmos, encontramos Aldana sentada nas arquibancadas com Luís, assistindo aos namorados jogando.
— Chegamos! Gritei chamando a atenção dela.
Os dois olharam para a nossa direção e sorriram para nós. Ao terminar de cumprimentá-los, sentamo-nos junto a eles.
Não tinha percebido que na nossa frente estava um grupo de meninas da nossa sala, até que olhei naquela direção. Não éramos amigas, mas também não éramos inimigas, nem nada disso. Era daquele grupo que costuma se gabar da quantidade de garotos bonitos com quem tinham ficado. Além disso, elas têm aquelas amizades que, quando estão perto, são as melhores amigas, mas quando uma se afasta, começam a criticar. Bom, acho que todos costumamos ter na nossa sala aquele "grupo de amigas". Seguramente tinham vindo ver o grupo do Ariel, já que Paloma era a amiga com quem ele tinha relações. Paloma era a garota mais bonita da sala, na minha opinião. Minhas amigas costumavam dizer que a mais bonita era eu, mas acho que a visão delas era pouco subjetiva. Não me considerava feia, mas também não era miss universo. Voltando ao assunto da Paloma, ela não era apenas "amiga" do Ariel, mas também a líder do grupo das "falsas" e, além disso, foi quem quis ficar com o Marco no primeiro ano. Acho que esse foi o pior erro dela, já que ela passou vergonha quando ele respondeu: "Sou gay e, mesmo que não fosse, preferiria ser gay a sair com uma garota como você". E foi assim que ele se declarou gay. Não sei se era por seu orgulho ferido ou porque ela realmente gostava dele, mas Paloma detestava Marco. Tanto era assim, que costumava ser ela quem mais se queixava do seu comportamento aos diretores da escola. Mas estes nunca tinham intercedido, embora, várias vezes, o tivessem levado ao departamento de orientação ao estudante, ou seja, ao psicólogo da escola.
Algumas dizem que não o expulsam porque ele tem dinheiro, pelo que entendi, seu pai era acionista de várias empresas, incluindo grupos proprietários de canais de televisão. Então, para ele, nós somos apenas plebeus comuns. Embora eu não saiba nada sobre a mãe dele, segundo David ela morreu. Igualmente era raro que, tendo dinheiro, estivesse numa escola pública.
Tinha que admitir que, desde que passei pela minha quase morte, o comportamento dele tinha começado a me chamar a atenção. Pensando bem, não era normal. Embora ele odeie mulheres por ciúmes, o fato de nos ignorar tão evidentemente era algo que jogava totalmente contra ele. Pelo menos ele deveria tentar não deixar transparecer. Também estava preocupada com a reação dele, quando ele me soltou do aperto, parecia que estava prestes a ter um ataque. A verdade é que muitas hipóteses surgiram na minha cabeça por causa daquele momento. Acho que, devido ao meu gosto por ler sagas sobrenaturais, me fizeram pensar que talvez ele fosse um vampiro como Edward Cullen, um anjo caído como Daniel ou um caçador de sombras como Jace. Mas essas coisas não costumam acontecer no terceiro mundo, só acontecem nos Estados Unidos.