Episódio 4

1183 Palavras
— Ele joga muito bem, não é? Comentou orgulhoso Luís, referindo-se ao namorado, interrompendo assim as minhas reflexões. — Marco sempre jogou bem. Respondi. Desde que o conheço, ele sempre esteve com a bola de um lado para o outro. Era preciso aceitar que aquele não era um comportamento que se esperasse de um rapaz gay, segundo os estereótipos. — Como vai o namoro? Perguntei interessada, não conseguia imaginar o Marco em plano romântico. — Bem... suponho que sim. Ele disse, não muito convencido. — Problemas no paraíso? Indaguei com um sorriso. — Marco é estranho. Comentou em tom cansado. — E... é estranho ser misógino declarado em pleno século vinte e um. — Bem, é algo que também me parece estranho. Mas eu me refiro ao nosso relacionamento. Ele me trata como se eu fosse um amigo em vez de seu namorado. Parece que ele não gosta que nos beijemos ou que eu pegue na mão dele. E quando eu digo para sair, ele sempre vem com os amigos. — Talvez ele só seja tímido. Respondi. Na verdade, eu não o conhecia muito bem para saber o que estava acontecendo com ele. — Você é o primeiro namorado dele? — Sei que ele saiu com algumas pessoas, mas se eu for o primeiro namorado oficial dele. Ele garante com um sorriso. — ... Embora, ... me chame de louco, mas sinto que ele não é tão gay quanto assume. — A verdade é que não consigo imaginar um garoto que ande dizendo que é gay sem ser. A maioria das pessoas não quer ser gay. Respondi divertida, imaginando Marco não ser gay. — Você conversou com os amigos dele? — Sim, e me garantiram que ele é mais gay que Ricky Martin. Também acho isso estranho, todos os amigos dele são heteros e olha só, eles exalam masculinidade por todos os poros. Olhou para a quadra onde eles corriam. — Isso é estranho? — Não, mas os únicos amigos que ele tem são todos aqueles. Apontou para os garotos. — Sei que são amigos desde o jardim; por isso, estão sempre juntos. Assegurei a ele. — Não se preocupe mais, você só precisa dar mais tempo para que ele se acostume a namorar e com certeza ele mostrará o seu lado romântico com você. — Espero que sim. Sussurrou pouco convencido. Eu sabia que o Luís gostava do Marco há muito tempo. Mas nunca tinha se animado a se declarar até hoje. Finalmente o seu sonho havia se realizado, mas parece que não era como ele o havia sonhado. A conversa com Luís foi interrompida quando, numa tentativa de Ariel de tirar a bola do Marco, ele o derrubou no chão. Embora eu não achasse que isso fosse para tirar a bola dele, parecia mais para machucá-lo. Marco se levantou e começou a repreender Ariel. Os gritos começaram a ficar mais violentos até que os socos não se fizeram esperar. Todos correram para separá-los. Mas o grupo de Ariel, que estava bravo com a esmagadora derrota que estavam sofrendo no jogo por parte do "fuc*king" e seus amigos, não aguentaram⁴ e também começaram a brigar. Desatando assim uma guerra em campo. Todas juntas com o Luís, não sabíamos o que fazer. Gritávamos de longe para que parassem, mas ninguém nos dava ouvidos. Em vez disso, o grupo de Paloma e suas amigas incentivavam o grupo do Ariel a continuar lutando. A briga continuou enquanto nós continuávamos pedindo que parasse, sabíamos que não podíamos nos meter porque com certeza não sairíamos ilesas daquele lugar. Mas graças à Virgem Maria, cinco policiais chegaram e começaram a separá-los. Quando conseguiram acalmá-los, levaram todos para a delegacia que ficava a duas quadras do local. Também nos levaram e o Luís como testemunhas. Em vez disso, o grupo de Paloma não foi levado, pois assim que viram a polícia chegando, saíram correndo. Fomos marchando todos presos até a delegacia durante aquelas duas quadras. Obviamente, a humilhação social a que nos expuseram foi terrível. Eu ouvia os vizinhos murmurando entre si: "Típico de idiot*as drogados", "Onde estão os pais?", "Este país está indo cada dia mais para a me*rda". Ao chegarem aos rapazes, colocaram-nos numa cela e a nós mandaram-nos sentar no escritório. Como todos éramos menores de idade, pediram o número dos nossos pais para que viessem nos buscar. Para minha terrível desgraça, minha mãe e meu pai acabavam de sair de viagem, então o mais provável era que estivessem no avião. Minha irmã estava na biblioteca nacional, provavelmente com o celular desligado, e meu irmão estava na casa de um amigo. Então, evidentemente, eu teria que ficar até que minha irmã terminasse de estudar. A verdade é que não estávamos sendo presos, os policiais só nos levaram para a delegacia, para que os vizinhos não reclamassem e também para nos dar um susto. Mas de qualquer forma eles iam nos reter até que nossos pais chegassem. O tempo passou e víamos como os policiais traziam pessoas que não pareciam muito bons cidadãos algemadas para as celas. Felizmente, eles não os colocavam dentro de onde estavam nossos amigos, mas ainda assim dava medo. Os pais começaram a chegar, vários enfurecidos com as autoridades e outros com seus filhos. E aos poucos foram levando todos, exceto eu. Minhas amigas estavam preocupadas comigo e os pais delas tentaram me levar, mas a polícia disse que, de qualquer forma, um familiar tinha que vir. Então eu disse a eles para não se preocuparem. A cada cinco minutos eu ligava para a Ana, mas a desgraçada não me atendia. Já estava anoitecendo e os únicos que tínhamos ficado éramos o Marco e eu. Já o tinham tirado da cela e ele estava esperando comigo no escritório. Eu estava na frente dele, então não me restava outra opção a não ser olhá-lo. Ele parecia pensativo, certamente se perguntava quando viriam buscá-lo. De repente, pousou os olhos na janela e notou que o céu havia escurecido. Parece que isso o fez levantar e ir em direção ao comissário. — Quanto custa a minha liberdade e a da garota? Ele perguntou com firmeza, deixando o comissário e eu atônitos. — O que você está dizendo, moleque? Exclamou o oficial incrédulo. — Olha, o meu velho não vai vir, porque está viajando, e a irmã dela, sei lá quando vem. Então poupemos isso e nos deixem ir. — Está tentando me subornar, moleque? Perguntou um pouco irritado. Definitivamente aquele garoto estava louco. Podiam acusá-lo criminalmente por suborno e não haveria mais pai para ajudá-lo. Embora, Marco, nem lento, nem preguiçoso, tirou a carteira do bolso. Colocando na mesa do comissário 500 dólares. Deixando o comissário de boca aberta, e não era para menos, segundo a cotação do dólar hoje, isso era o salário de um mês. O comissário pegou as notas e olhou tentando ver se eram falsas. Mas, embora eu não fosse especialista na moeda americana, tinha certeza de que eram verdadeiras. Quem em sã consciência se atreveria a subornar com dinheiro falso? O comissário olhou para ele e assentiu. — Vão embora. Ordenou.
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