Não é Sobre Classe

1006 Palavras
Algumas semanas haviam passado. A vida na mansão estava mais tranquila. Rute continuava seu tratamento e estava cada dia um pouco melhor. Agatha cuidava dela com carinho, e Douglas sempre fazia questão de acompanhar tudo. Naquela tarde, porém, Douglas estava na empresa quando uma visita inesperada chegou à mansão. Era Helena, tia de Douglas. Uma mulher elegante, conhecida por seu jeito rígido e por sempre ter opinião sobre tudo na vida do sobrinho. Enquanto caminhava pela casa, ela observava tudo com atenção. Quando passou pelo jardim, viu Rute sentada em uma cadeira, apreciando as flores. Helena franziu a testa e chamou uma funcionária da casa. — O que essa empregada está fazendo no jardim? A funcionária respondeu imediatamente, um pouco sem jeito: — Ela não é empregada, senhora… é a sogra do patrão. Helena arregalou levemente os olhos. — Sogra? Ela olhou novamente para Rute, analisando-a dos pés à cabeça. — Ah… esse meu sobrinho está r**m mesmo… só pode. Naquele momento, Agatha estava descendo as escadas da sala principal e ouviu parte da conversa. Ela respirou fundo e caminhou até a mulher com educação. — Boa tarde, senhora. Agatha estendeu a mão para cumprimentá-la. Mas Helena simplesmente ignorou o gesto. Ela olhou para Agatha com expressão fria. — Você é quem? Agatha manteve a calma. — Eu me chamo Agatha… sou namorada do Douglas. Helena cruzou os braços. — Hum… Ela olhou Agatha de cima a baixo, avaliando cada detalhe. — Então você é a garotinha que dominou ele. Agatha sentiu o peso das palavras, mas não respondeu. Ela apenas permaneceu em silêncio, mantendo a postura. Helena continuou: — Meu sobrinho sempre teve bom gosto… mulheres da alta sociedade, educadas, com família importante. Ela deu um pequeno sorriso irônico. — Mas agora parece que ele resolveu brincar de salvador. Agatha apertou as mãos discretamente, tentando manter a calma. — O Douglas me ajudou quando eu precisava… — disse ela com sinceridade. Helena respondeu friamente: — Tenho certeza que ajudou. O clima ficou pesado. Mas naquele momento a porta da mansão se abriu. Douglas havia acabado de chegar. Ele percebeu imediatamente a tensão no ambiente. — Tia Helena? Helena virou-se. — Ah… sobrinho. Cheguei para fazer uma visita. Douglas olhou de Helena para Agatha. — O que está acontecendo aqui? Helena respondeu com um tom leve, mas cheio de ironia: — Eu estava apenas conhecendo… a sua namorada. Douglas caminhou até Agatha e colocou a mão na cintura dela, demonstrando claramente de que lado estava. — Então espero que tenha sido educada com ela. Helena levantou a sobrancelha. — Eu sempre sou educada. Douglas olhou para Agatha. — Está tudo bem? Ela apenas assentiu. — Sim. Mas Douglas conhecia bem a tia. E sabia que aquilo ainda não tinha terminado. A mansão estava silenciosa. Depois de perceber que Agatha não tinha voltado para a mesa de jantar, Douglas foi procurá-la. Ele passou pelo quarto de Rute, viu que ela já estava dormindo, e então caminhou até o quarto de Agatha. A porta estava entreaberta. Quando entrou, viu Agatha encolhida na cama, abraçando as pernas, quieta. Aquilo apertou o peito dele. Ele se aproximou devagar e sentou ao lado dela. — O que houve? — perguntou com a voz suave. — Fala comigo. Agatha demorou alguns segundos para responder. Os olhos dela estavam vermelhos. Então finalmente falou: — Sua tia… ela me humilhou antes de você chegar. Douglas franziu a testa. — O que ela fez? Agatha respirou fundo. — Ela disse que você sempre teve mulheres da alta sociedade… e que agora resolveu fazer caridade. Douglas apertou o maxilar. Agatha continuou: — Eu estendi a mão para cumprimentar ela… e ela nem quis tocar em mim. Douglas fechou os olhos por um momento, tentando controlar a raiva. — E no jantar… — Agatha continuou com a voz mais fraca — ela mandou preparar a mesa cheia de talheres diferentes. Ela engoliu em seco. — Claro que minha mãe se atrapalhou um pouco… ela nunca usou isso. Os olhos de Agatha começaram a encher de lágrimas. — Sua tia riu… e disse: “isso que dá não ter classe”. Douglas abaixou o olhar, furioso. Agatha continuou: — Minha mãe não disse nada… eu só tirei ela da mesa. A voz dela começou a tremer. — No quarto ela chorou, Douglas… chorou porque não sabia usar aqueles talheres que vocês usam. Ela limpou uma lágrima. — Ela ainda me pediu desculpa… como se tivesse culpa da forma que sua tia tratou a gente. O silêncio tomou conta do quarto. Douglas sentia uma mistura de culpa e raiva. Agatha então disse algo que fez o coração dele apertar. — Eu gosto muito de você… muito mesmo. Ela levantou os olhos para ele. — Mas o seu mundo não é para pessoas como eu. Douglas ficou imóvel. — Acho que você deveria pensar melhor… sobre a gente continuar juntos. O quarto ficou completamente silencioso. Douglas olhou para ela por alguns segundos… e então segurou o rosto dela com firmeza, mas com carinho. — Olha pra mim, Agatha. Ela levantou os olhos. A voz dele estava séria. — Meu mundo… é onde eu escolho estar. Ele continuou: — E eu escolhi você. Agatha ficou em silêncio. Douglas passou a mão pelo rosto dela, limpando as lágrimas. — A única pessoa que deveria ter vergonha hoje… é a minha tia. Ele respirou fundo. — Não você… e muito menos sua mãe. Agatha ainda parecia insegura. Douglas então disse algo que ela não esperava: — Amanhã minha tia vai embora dessa casa. Agatha arregalou os olhos. — Douglas… ela é sua família. Ele respondeu imediatamente: — E você também é. Então ele puxou Agatha para um abraço forte. — Nunca mais diga que não pertence ao meu mundo. Ele falou baixo perto do ouvido dela: — Porque o lugar que você pertence… é comigo. Agatha finalmente se permitiu chorar no peito dele. E naquele momento, Douglas tomou uma decisão silenciosa. Ninguém mais pisaria em Agatha ou na mãe dela naquela casa.
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