Capítulo 3

1930 Palavras
O relógio marcava seis e quarenta da manhã quando Dante Villar entrou na sala de jantar do duplex com vista para a orla. A casa parecia tão silenciosa quanto uma catedral — fria, impecável, excessivamente grande para um homem só. A mesa de café, preparada por funcionários antes do amanhecer, parecia saída de uma vitrine: frutas tropicais cortadas em cubos simétricos, croissants dourados, frios finos dispostos como obra de arte. Tudo milimetricamente calculado, como o resto da vida dele. Dante se sentou sem pressa, abriu o jornal de economia e serviu-se de café preto. Não tocou em mais nada. Comia por obrigação, não por prazer. O rosto, austero. O terno já alinhado, a gravata ajustada. Era assim todos os dias — como se o tempo inteiro estivesse prestes a entrar em uma reunião. O som dos saltos ecoou pelo corredor e Clara surgiu, já falando antes mesmo de cruzar a porta. — Bom dia, senhor Villar. — Nem esperou resposta. — O pessoal do marketing confirmou a coletiva das dez. Às onze o senhor tem reunião com os diretores do Grupo Villar, depois almoço com o deputado Nogueira. Às três, visita à sede do partido, e— — Clara. — ele interrompeu, sem levantar o olhar do jornal. Ela parou, confusa. — Sim? — Você fala demais. — A voz saiu fria, firme, sem emoção. — Eu só estava tentando adiantar o dia— — Cala a boca. — largou a xícara sobre o pires, o som seco ecoando pela mesa. — Você fala tanto que está me dando dor de cabeça antes mesmo do café fazer efeito. Ela ficou imóvel por um segundo, os lábios entreabertos. Respirou fundo e fechou a pasta devagar. Ele continuou, impassível: — Quero que vá até a casa da minha noiva. Clara arqueou uma sobrancelha. — Da… Elisa, certo? — o nome saiu com uma pontada de ciúme, m*l disfarçada. Dante pareceu hesitar um segundo, franzindo o cenho. — Sim, isso. Elisa Moreti. — disse como quem repete o nome de alguém irrelevante. — Pra quê, exatamente? — perguntou, com ironia. Ele bufou, finalmente levantando o olhar. — Como pra quê, Clara? O casamento é sábado. Eu não sei quem é essa mulher, não sei se tem estirpe pra estar ao meu lado. — fez um gesto impaciente. — Do jeito que a família está falida e me vendeu a filha por uma mixaria, deve estar andando por aí com roupas de feira. Clara cruzou os braços, o rosto impecavelmente neutro, mas o veneno evidente na voz: — Quer que eu vá avaliar o guarda-roupa da sua noiva? — Quero que veja o que for preciso. — disse, voltando a olhar o jornal. — Providencie tudo. Eu não posso ter uma qualquer ao meu lado. Não agora. — Isso não faz parte do meu trabalho, Dante. Eu sou sua assessora política, não personal shopper. Ele ergueu o olhar devagar, e bastou isso para silenciá-la. — Você trabalha pra mim, Clara. E agora, o que eu quero é isso. Por um momento, ela segurou o olhar dele, o ar entre os dois pesado, quase pessoal demais. Depois suspirou, vencida. — E quanto aos compromissos do dia? — perguntou com ironia seca. — A coletiva, a reunião, o almoço... tudo isso que eu acabei de dizer antes de você mandar eu calar a boca. — Pode esperar. — respondeu, folheando o jornal. — Resolver esse problema é urgente. Clara apertou os lábios, tentando conter a raiva. — Entendido, senhor Villar. — disse, com frieza. — Vou cuidar da... sua noiva. Ela se virou para sair, e quando o som dos saltos dela desapareceu, Dante ficou sozinho novamente. A vista do mar parecia distante. O café estava frio. Ele soltou um suspiro breve e, por um instante, o homem público, o CEO, o político — tudo aquilo pareceu pesar sobre os ombros. Então ele fechou o jornal, ajustou o relógio no pulso e, com a mesma rigidez de sempre, levantou-se. O mundo esperava que ele fosse perfeito. E ele não aceitava nada menos do que isso — nem de si, nem dos outros. ** O quarto de Karen era o mais bonito da casa, depois do dos pais. Cortinas claras, um espelho grande com moldura dourada e uma penteadeira cheia de perfumes caros. Tudo o que o buraco que Elisa chamava de quarto não era. Ela estava ali, parada diante da cama arrumada, enquanto a irmã do meio revirava o armário com má vontade. Karla, sentada na beirada da cama, observava tudo com atenção, tentando suavizar o clima. — Aqui. — Karen disse, puxando um vestido amarrotado do cabide. O tecido era de um verde estranho, desbotado, e havia uma renda frouxa na gola que deixava tudo ainda pior. — É o único que posso te emprestar. Elisa olhou para o vestido e franziu o rosto. — Achei que o papai tivesse dito pra emprestar um bonito, não... uma aberração. Karla soltou um riso abafado, concordando. — Eu também acho que ela podia escolher outro, Karen. — É esse — rebateu Karen, seca. — Ou veste um dos seus trapos, se preferir. Elisa olhou para o armário, notando os outros vestidos muito mais elegantes pendurados ali — o vinho, o azul, um lilás novo que ainda tinha etiqueta. — E o vinho? — perguntou com calma. — Não. — O azul, então? Karen girou o corpo, já impaciente. — Elisa, é esse ou nada! Você acha mesmo que alguém se importa com o que você vai vestir? Ninguém liga pra você. Ninguém nem gosta de você. O silêncio que se seguiu foi denso. Karla se levantou de imediato. — Fala assim com ela não, Karen! — exclamou, a voz aguda de indignação. Mas Elisa ergueu a mão, cortando. — Deixa, Karla. — Um sorriso fino e frio se desenhou em seus lábios. — A Karen não consegue abrir a boca sem vomitar veneno. Já acostumei. E então, com um movimento brusco, arrancou o vestido das mãos da irmã e saiu do quarto. Karla foi atrás, encontrando-a já no pequeno quarto dos fundos — o dela. O espaço era apertado, úmido, com paredes descascadas e um espelho rachado pendurado torto na parede. Elisa soltou um suspiro longo e cansado. — Eu devia ter ficado quieta. — murmurou, olhando o vestido horroroso pendurado à sua frente. Karla se aproximou, tocando o braço da irmã. — Não fala isso, Lisi. Ela é assim com todo mundo, mas contigo é pior porque te inveja. Elisa riu, amarga. — Me inveja? Do quê? — sentou-se na beira da cama, o tecido do vestido caindo no colo. — Da minha vida miserável? Das vezes que fiquei sem comer? Das surras? Dos castigos? De faxinar a casa inteira sozinha? — a voz embargou. — Eu juro que não entendo, Karlinha… não é possível que a vida seja só isso. O que eu fiz de errado pra ser tão odiada assim? A menina se ajoelhou diante dela, segurando suas mãos. — Nada, Lisi. Você não fez nada. — respondeu firme. — O pessoal dessa casa é que tem uma visão torta do que é certo e errado. Acham que poder e dinheiro valem mais que amor. Elisa desviou o olhar, as lágrimas escorrendo silenciosas. Karla limpou o rosto dela com delicadeza. — Se quiser, eu te empresto um dos meus vestidos. — disse com um sorriso tímido. — Não é bonito, mas acho que dá pra ajustar. Elisa riu baixinho, fungando. — Você é um anjo, sabia? Mas não vai servir, amor. Você é bem mais baixinha que eu. — Pegou o vestido horroroso de novo, balançando-o com desdém. — E tudo bem. Vou usar esse aqui mesmo. No fim, não quero agradar esse tal de Villar. Que se dane ele, nosso pai, e o mundo inteiro. Karla sorriu, meio triste, meio orgulhosa. Elisa levantou-se, segurou o vestido com firmeza e caminhou até o espelho novamente. O reflexo mostrava uma garota que tentava parecer indiferente, mas que trazia nos olhos a sombra de quem aprendeu cedo demais o que é sobreviver. Às duas em ponto, batidas secas soaram na porta do quarto. Elisa ainda vestia o vestido horroroso de Karen. O tecido pinicava, o caimento era péssimo — mas, por mais irônico que fosse, ainda era melhor do que qualquer peça que havia em seu próprio armário. — Comporte-se. — Foi a única coisa que seu pai disse, abrindo a porta com uma expressão pesada, quase envergonhada. O olhar dele passou rápido pela filha, e o modo como suspirou dizia mais do que qualquer palavra: não esperava muito dela. Elisa apenas assentiu, apertando o tecido grosseiro do vestido entre os dedos, tentando não mostrar o desconforto. Na sala, a mulher a esperava. Alta, magra e absurdamente elegante, como se tivesse saído de uma revista de negócios. O cabelo castanho-escuro cortado em um chanel perfeito moldava o rosto bem maquiado, e o terno grafite caía sobre o corpo com precisão cirúrgica. Os saltos finos ecoavam no piso de madeira antiga da casa, e até o som parecia caro. Elisa sentiu o coração apertar. Aquela mulher não precisava dizer nada para fazê-la se sentir pequena. — Você é Elisa Moreti? — perguntou a mulher, arqueando uma sobrancelha. O tom era gelado, quase zombeteiro. — Jura? Elisa cruzou os braços, cerrando o maxilar. — Algum problema? A outra riu, baixo, um som que mais parecia desdém. — Você é bem diferente do que eu imaginei para uma noiva do Dante. O nome soou como um lembrete incômodo. Elisa sentiu o sangue subir ao rosto, mas não recuou. — Hum. — Um sorriso torto se formou em seus lábios. — Você costuma ter liberdade para chamar o seu chefe pelo primeiro nome assim? A mulher arqueou as sobrancelhas, claramente surpresa com a ousadia. — A senhorita tem razão — respondeu, com um sorriso falso, ensaiado. — Me perdoe os maus modos. Sou Clara Silva, assessora do senhor Villar. — Certo. — Elisa apoiou as mãos na cintura. — E o que exatamente veio fazer aqui, além de zombar da minha aparência? — O casamento é no sábado — respondeu Clara, fingindo um entusiasmo que não convencia ninguém. — O senhor Villar é um homem ocupado, então me enviou pra ver do que você precisa. Ah, e na sexta já dormirá na casa dele. — Como é que é? — O espanto foi imediato. — Dormir lá? Por quê? Clara ergueu o queixo, o sorriso voltando, cínico. — Porque ele manda. Nós obedecemos. Elisa piscou algumas vezes, sentindo o peito apertar. Estava começando a entender o tipo de mundo no qual estava prestes a entrar. — Quero ver suas roupas. — Clara fez um gesto com a mão, impaciente. — E, por favor, me diga que não são todas nesse nível. — Apontou para o vestido verde desbotado. — Essa nem é minha. — Elisa tentou ajeitar o tecido inútil, sentindo-se ridícula. — Mas tudo bem, suba. Vai ter uma surpresa. Carlos as deixou ali e foi se jogar no sofá, ligando a televisão no futebol. Da sala, ouvia-se o som abafado da narração e os cochichos curiosos de Nanci e Karen, que se inclinavam para o corredor. Elisa empurrou a porta do quarto e, antes que elas pudessem dar um passo, bateu-a na cara das duas. Clara deu um giro lento pelo quarto minúsculo, os olhos percorrendo cada canto com um misto de nojo e incredulidade. O cheiro de mofo, o espelho rachado, o guarda-roupa de madeira empenada. — Minha nossa senhora... — murmurou, levando a mão à boca.
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