O relógio marcava seis e quarenta da manhã quando Dante Villar entrou na sala de jantar do duplex com vista para a orla. A casa parecia tão silenciosa quanto uma catedral — fria, impecável, excessivamente grande para um homem só.
A mesa de café, preparada por funcionários antes do amanhecer, parecia saída de uma vitrine: frutas tropicais cortadas em cubos simétricos, croissants dourados, frios finos dispostos como obra de arte. Tudo milimetricamente calculado, como o resto da vida dele.
Dante se sentou sem pressa, abriu o jornal de economia e serviu-se de café preto. Não tocou em mais nada. Comia por obrigação, não por prazer. O rosto, austero. O terno já alinhado, a gravata ajustada.
Era assim todos os dias — como se o tempo inteiro estivesse prestes a entrar em uma reunião.
O som dos saltos ecoou pelo corredor e Clara surgiu, já falando antes mesmo de cruzar a porta.
— Bom dia, senhor Villar. — Nem esperou resposta. — O pessoal do marketing confirmou a coletiva das dez. Às onze o senhor tem reunião com os diretores do Grupo Villar, depois almoço com o deputado Nogueira. Às três, visita à sede do partido, e—
— Clara. — ele interrompeu, sem levantar o olhar do jornal.
Ela parou, confusa. — Sim?
— Você fala demais. — A voz saiu fria, firme, sem emoção.
— Eu só estava tentando adiantar o dia—
— Cala a boca. — largou a xícara sobre o pires, o som seco ecoando pela mesa. — Você fala tanto que está me dando dor de cabeça antes mesmo do café fazer efeito.
Ela ficou imóvel por um segundo, os lábios entreabertos. Respirou fundo e fechou a pasta devagar.
Ele continuou, impassível:
— Quero que vá até a casa da minha noiva.
Clara arqueou uma sobrancelha. — Da… Elisa, certo? — o nome saiu com uma pontada de ciúme, m*l disfarçada.
Dante pareceu hesitar um segundo, franzindo o cenho. — Sim, isso. Elisa Moreti. — disse como quem repete o nome de alguém irrelevante.
— Pra quê, exatamente? — perguntou, com ironia.
Ele bufou, finalmente levantando o olhar. — Como pra quê, Clara? O casamento é sábado. Eu não sei quem é essa mulher, não sei se tem estirpe pra estar ao meu lado. — fez um gesto impaciente. — Do jeito que a família está falida e me vendeu a filha por uma mixaria, deve estar andando por aí com roupas de feira.
Clara cruzou os braços, o rosto impecavelmente neutro, mas o veneno evidente na voz:
— Quer que eu vá avaliar o guarda-roupa da sua noiva?
— Quero que veja o que for preciso. — disse, voltando a olhar o jornal. — Providencie tudo. Eu não posso ter uma qualquer ao meu lado. Não agora.
— Isso não faz parte do meu trabalho, Dante. Eu sou sua assessora política, não personal shopper.
Ele ergueu o olhar devagar, e bastou isso para silenciá-la.
— Você trabalha pra mim, Clara. E agora, o que eu quero é isso.
Por um momento, ela segurou o olhar dele, o ar entre os dois pesado, quase pessoal demais. Depois suspirou, vencida.
— E quanto aos compromissos do dia? — perguntou com ironia seca. — A coletiva, a reunião, o almoço... tudo isso que eu acabei de dizer antes de você mandar eu calar a boca.
— Pode esperar. — respondeu, folheando o jornal. — Resolver esse problema é urgente.
Clara apertou os lábios, tentando conter a raiva.
— Entendido, senhor Villar. — disse, com frieza. — Vou cuidar da... sua noiva.
Ela se virou para sair, e quando o som dos saltos dela desapareceu, Dante ficou sozinho novamente.
A vista do mar parecia distante. O café estava frio.
Ele soltou um suspiro breve e, por um instante, o homem público, o CEO, o político — tudo aquilo pareceu pesar sobre os ombros.
Então ele fechou o jornal, ajustou o relógio no pulso e, com a mesma rigidez de sempre, levantou-se.
O mundo esperava que ele fosse perfeito.
E ele não aceitava nada menos do que isso — nem de si, nem dos outros.
**
O quarto de Karen era o mais bonito da casa, depois do dos pais. Cortinas claras, um espelho grande com moldura dourada e uma penteadeira cheia de perfumes caros. Tudo o que o buraco que Elisa chamava de quarto não era.
Ela estava ali, parada diante da cama arrumada, enquanto a irmã do meio revirava o armário com má vontade. Karla, sentada na beirada da cama, observava tudo com atenção, tentando suavizar o clima.
— Aqui. — Karen disse, puxando um vestido amarrotado do cabide. O tecido era de um verde estranho, desbotado, e havia uma renda frouxa na gola que deixava tudo ainda pior. — É o único que posso te emprestar.
Elisa olhou para o vestido e franziu o rosto.
— Achei que o papai tivesse dito pra emprestar um bonito, não... uma aberração.
Karla soltou um riso abafado, concordando.
— Eu também acho que ela podia escolher outro, Karen.
— É esse — rebateu Karen, seca. — Ou veste um dos seus trapos, se preferir.
Elisa olhou para o armário, notando os outros vestidos muito mais elegantes pendurados ali — o vinho, o azul, um lilás novo que ainda tinha etiqueta.
— E o vinho? — perguntou com calma.
— Não.
— O azul, então?
Karen girou o corpo, já impaciente.
— Elisa, é esse ou nada! Você acha mesmo que alguém se importa com o que você vai vestir? Ninguém liga pra você. Ninguém nem gosta de você.
O silêncio que se seguiu foi denso. Karla se levantou de imediato.
— Fala assim com ela não, Karen! — exclamou, a voz aguda de indignação.
Mas Elisa ergueu a mão, cortando.
— Deixa, Karla. — Um sorriso fino e frio se desenhou em seus lábios. — A Karen não consegue abrir a boca sem vomitar veneno. Já acostumei.
E então, com um movimento brusco, arrancou o vestido das mãos da irmã e saiu do quarto.
Karla foi atrás, encontrando-a já no pequeno quarto dos fundos — o dela. O espaço era apertado, úmido, com paredes descascadas e um espelho rachado pendurado torto na parede.
Elisa soltou um suspiro longo e cansado.
— Eu devia ter ficado quieta. — murmurou, olhando o vestido horroroso pendurado à sua frente.
Karla se aproximou, tocando o braço da irmã. — Não fala isso, Lisi. Ela é assim com todo mundo, mas contigo é pior porque te inveja.
Elisa riu, amarga. — Me inveja? Do quê? — sentou-se na beira da cama, o tecido do vestido caindo no colo. — Da minha vida miserável? Das vezes que fiquei sem comer? Das surras? Dos castigos? De faxinar a casa inteira sozinha? — a voz embargou. — Eu juro que não entendo, Karlinha… não é possível que a vida seja só isso. O que eu fiz de errado pra ser tão odiada assim?
A menina se ajoelhou diante dela, segurando suas mãos.
— Nada, Lisi. Você não fez nada. — respondeu firme. — O pessoal dessa casa é que tem uma visão torta do que é certo e errado. Acham que poder e dinheiro valem mais que amor.
Elisa desviou o olhar, as lágrimas escorrendo silenciosas. Karla limpou o rosto dela com delicadeza.
— Se quiser, eu te empresto um dos meus vestidos. — disse com um sorriso tímido. — Não é bonito, mas acho que dá pra ajustar.
Elisa riu baixinho, fungando. — Você é um anjo, sabia? Mas não vai servir, amor. Você é bem mais baixinha que eu. — Pegou o vestido horroroso de novo, balançando-o com desdém. — E tudo bem. Vou usar esse aqui mesmo. No fim, não quero agradar esse tal de Villar. Que se dane ele, nosso pai, e o mundo inteiro.
Karla sorriu, meio triste, meio orgulhosa.
Elisa levantou-se, segurou o vestido com firmeza e caminhou até o espelho novamente.
O reflexo mostrava uma garota que tentava parecer indiferente, mas que trazia nos olhos a sombra de quem aprendeu cedo demais o que é sobreviver.
Às duas em ponto, batidas secas soaram na porta do quarto. Elisa ainda vestia o vestido horroroso de Karen. O tecido pinicava, o caimento era péssimo — mas, por mais irônico que fosse, ainda era melhor do que qualquer peça que havia em seu próprio armário.
— Comporte-se. — Foi a única coisa que seu pai disse, abrindo a porta com uma expressão pesada, quase envergonhada. O olhar dele passou rápido pela filha, e o modo como suspirou dizia mais do que qualquer palavra: não esperava muito dela.
Elisa apenas assentiu, apertando o tecido grosseiro do vestido entre os dedos, tentando não mostrar o desconforto.
Na sala, a mulher a esperava. Alta, magra e absurdamente elegante, como se tivesse saído de uma revista de negócios. O cabelo castanho-escuro cortado em um chanel perfeito moldava o rosto bem maquiado, e o terno grafite caía sobre o corpo com precisão cirúrgica. Os saltos finos ecoavam no piso de madeira antiga da casa, e até o som parecia caro.
Elisa sentiu o coração apertar. Aquela mulher não precisava dizer nada para fazê-la se sentir pequena.
— Você é Elisa Moreti? — perguntou a mulher, arqueando uma sobrancelha. O tom era gelado, quase zombeteiro. — Jura?
Elisa cruzou os braços, cerrando o maxilar.
— Algum problema?
A outra riu, baixo, um som que mais parecia desdém.
— Você é bem diferente do que eu imaginei para uma noiva do Dante.
O nome soou como um lembrete incômodo. Elisa sentiu o sangue subir ao rosto, mas não recuou.
— Hum. — Um sorriso torto se formou em seus lábios. — Você costuma ter liberdade para chamar o seu chefe pelo primeiro nome assim?
A mulher arqueou as sobrancelhas, claramente surpresa com a ousadia.
— A senhorita tem razão — respondeu, com um sorriso falso, ensaiado. — Me perdoe os maus modos. Sou Clara Silva, assessora do senhor Villar.
— Certo. — Elisa apoiou as mãos na cintura. — E o que exatamente veio fazer aqui, além de zombar da minha aparência?
— O casamento é no sábado — respondeu Clara, fingindo um entusiasmo que não convencia ninguém. — O senhor Villar é um homem ocupado, então me enviou pra ver do que você precisa. Ah, e na sexta já dormirá na casa dele.
— Como é que é? — O espanto foi imediato. — Dormir lá? Por quê?
Clara ergueu o queixo, o sorriso voltando, cínico.
— Porque ele manda. Nós obedecemos.
Elisa piscou algumas vezes, sentindo o peito apertar. Estava começando a entender o tipo de mundo no qual estava prestes a entrar.
— Quero ver suas roupas. — Clara fez um gesto com a mão, impaciente. — E, por favor, me diga que não são todas nesse nível. — Apontou para o vestido verde desbotado.
— Essa nem é minha. — Elisa tentou ajeitar o tecido inútil, sentindo-se ridícula. — Mas tudo bem, suba. Vai ter uma surpresa.
Carlos as deixou ali e foi se jogar no sofá, ligando a televisão no futebol. Da sala, ouvia-se o som abafado da narração e os cochichos curiosos de Nanci e Karen, que se inclinavam para o corredor. Elisa empurrou a porta do quarto e, antes que elas pudessem dar um passo, bateu-a na cara das duas.
Clara deu um giro lento pelo quarto minúsculo, os olhos percorrendo cada canto com um misto de nojo e incredulidade. O cheiro de mofo, o espelho rachado, o guarda-roupa de madeira empenada.
— Minha nossa senhora... — murmurou, levando a mão à boca.