Capítulo 4

1934 Palavras
— Como você consegue viver assim? — Ué — respondeu Elisa, num tom seco, defensivo. — Não sou muito de sair. Pra que roupa nova? Passo o dia cuidando da casa. Imagina eu esfregando o chão vestida igual a você? — ironizou, com um sorriso provocador. Clara soltou um riso forçado. — Pois fique sabendo que nada disso vai pra casa nova. — Apontou para o armário, como quem fala de algo contaminado. — Nada que está aqui. — Como é que é? — Elisa se virou, incrédula. — Essas são as minhas coisas! Quer que eu vá pelada pra casa do seu... do senhor Villar? — Ele não faz o tipo que gosta de gente pelada andando pela casa — respondeu Clara, sorrindo de canto, deixando Elisa sem entender se era piada ou aviso. — Nós vamos sair agora. Vamos montar seu closet do zero. — Mas... vai gastar dinheiro demais. — Elisa tentou argumentar, sentindo o rosto corar de vergonha. — Dinheiro — disse Clara, com a voz doce e venenosa — é algo que não vai mais ser da sua conta, querida. E, sem esperar resposta, virou-se sobre os saltos e começou a descer as escadas. Elisa respirou fundo e foi atrás. O barulho dos saltos de Clara ecoou pela casa, chamando a atenção de todos. Nanci e Karen se entreolharam, espantadas. Karla, no canto, sorriu discretamente e acenou para a irmã. — Eu vou levar a senhorita Moreti para um banho de loja. — Clara falou com naturalidade, como quem fala de algo rotineiro. — Mais tarde trago de volta. — Banho de loja? — Karen murmurou, boquiaberta. — Qualquer coisa, entrem em contato. — Clara enfiou a mão na bolsa e tirou um cartão prateado. O contraste do papel caro com as mãos simples de Carlos era quase simbólico. E, antes que alguém dissesse qualquer coisa, ela já seguia em direção à porta, com Elisa atrás, o vestido horrendo balançando de forma desajeitada — uma visão que parecia resumir perfeitamente o abismo entre as duas. Elisa quase deixou o coração cair. O carro preto, brilhante, com vidros escuros e interior de couro, estacionado bem em frente ao portão. Nunca tinha visto nada tão elegante — nem na televisão. Clara entrou no veículo e apenas acenou para que Elisa se aproximasse. — Vamos. — disse, sem olhar muito. Elisa engoliu seco, ajeitou o vestido horroroso e entrou no carro, sentindo o cheiro do couro novo e do perfume caro. As mãos ficaram trêmulas sobre o colo. — É... bonito, o carro. — murmurou, sem coragem de encarar Clara. — É funcional. — respondeu ela, seca, mexendo no tablet. — E limpo. Durante o trajeto, Elisa observava as ruas com um sorriso discreto, o rosto colado ao vidro como uma criança em seu primeiro passeio. Cada prédio, cada vitrine, cada árvore parecia novo. Clara notou, claro — mas preferiu fingir que não viu. Quando o carro entrou no estacionamento do shopping, Elisa soltou um suspiro admirado. — Meu Deus... — murmurou, olhando as fachadas de vidro e o brilho das luzes. — Isso aqui é enorme! Clara apenas digitou algo no celular, sem levantar os olhos. — Vamos focar no que viemos fazer, senhorita Moreti. Mas Elisa seguia deslumbrada, tropeçando nos próprios pés de tão encantada com o ambiente. Passaram por vitrines reluzentes, manequins vestidos de seda e vitrines que pareciam cenários de filme. O perfume caro no ar, o som ambiente, o brilho dos lustres — tudo parecia de outro mundo. — Eu nunca tinha vindo aqui. — confessou, quase sem perceber que falava alto. — Achei que shopping fosse... diferente. Clara arqueou uma sobrancelha. — É apenas um centro de compras. Não há nada de fascinante. — Pra mim tem. — respondeu Elisa com um sorrisinho tímido. — É tudo tão... bonito. — É caro. — corrigiu Clara. — E é isso que importa. Elas entraram em uma boutique ampla e silenciosa. No instante em que Clara atravessou a porta, a gerente — uma mulher loira, elegante, com crachá dourado — veio pessoalmente recebê-la. — Senhorita Clara! — exclamou a gerente, estendendo as mãos com um sorriso. — Que prazer! O senhor Villar vai precisar de algo hoje? Clara apenas sorriu de leve, acostumada com o tratamento. — Não. Hoje é pra montar um closet do zero pra ela. — Apontou com o queixo para Elisa. A gerente olhou. E olhou de novo. A expressão se contraiu em segundos, o sorriso vacilou. Os olhos percorreram o vestido verde desbotado, as sandálias velhas, o cabelo solto de qualquer jeito. — Ah... claro... — murmurou, sem saber como reagir. Clara cruzou os braços, impaciente. — Essa é a futura senhora Villar. E ela precisa se vestir à altura. Elisa sentiu o rosto ferver. — Futura o quê? — a gerente quase gaguejou. — A... senhora Villar? — É. — respondeu Elisa, sem graça. — Pelo visto, sim. A gerente endireitou a postura na mesma hora, tentando recuperar a compostura. — É um prazer enorme, senhorita... — Moreti. — respondeu Elisa. — Moreti... — repetiu a mulher, agora com um sorriso treinado. — Moreti e Villar. Um casamento de peso, não é? Elisa revirou os olhos. — A gente vai ver roupas ou discutir a minha vida? O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Clara pigarreou, disfarçando um sorriso discreto. — Mostre o melhor que vocês têm. — ordenou. A gerente assentiu rapidamente e chamou uma das funcionárias. — Tragam os modelos da coleção nova. Vestidos, conjuntos, sapatos. Tamanhos variados. — E então, mais baixo: — E, por favor, sem etiqueta de preço visível. O desfile começou. Elisa entrou e saiu do provador dezenas de vezes. Clara analisava cada peça com olhos críticos, desaprovando quase tudo com um simples levantar de sobrancelhas. — Esse está péssimo. — dizia ela. — Troque o sapato. — dizia de novo. — Não combine cores assim nunca mais. Elisa bufava, mas obedecia. Aos poucos, foi se acostumando a se ver diferente no espelho. O tecido das roupas era macio, o caimento leve, o brilho sutil. A cada olhar, via uma versão de si mesma que não reconhecia — e que, ao mesmo tempo, a fascinava. Quando terminaram, a mesa de caixa estava coberta de sacolas e caixas empilhadas: vestidos, terninhos, bolsas, sapatos, lingerie, acessórios. Elisa olhou o valor na tela e sentiu o estômago revirar. “Meu Deus... deve ser isso que meu pai recebeu por mim”, pensou, o peito apertando. Balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. — Envie tudo direto pra casa do senhor Villar. — ordenou Clara à atendente, sem sequer olhar o total. — E providencie transporte seguro. Elisa, atordoada, apenas observava. Minutos depois, saiu da loja já com um dos novos vestidos — um azul-marinho simples, mas elegante. O tecido deslizava pela pele, o corte valorizava seu corpo sem exagero. As sandálias velhas ficaram esquecidas dentro de uma sacola qualquer. Enquanto caminhavam juntas pelo shopping, Clara percebeu o quanto ela parecia diferente. Mesmo insegura, Elisa tinha uma leveza no olhar — um brilho que não se comprava. Mas a assessora apenas ajeitou o blazer e disse, seca: — Se acostume. Isso é só o começo. Elisa sorriu de lado, sem responder. O vestido novo era leve, o corpo também — mas o coração, esse, pesava mais do que nunca. O caminho de volta foi silencioso, mas o silêncio não era leve. Dentro do carro, só o ronronar do motor e o zumbido distante da cidade se faziam ouvir. Elisa mantinha as mãos sobre o colo, agora cobertas por o tecido fino do novo vestido azul-marinho. Ainda se sentia deslocada — uma farsa bem vestida. O carro deslizou pela avenida principal e, quando parou em um semáforo, o som ecoou: gruuuuc. O barulho veio do estômago dela — alto, faminto, traidor. Clara arqueou uma sobrancelha, virando-se lentamente. — Isso foi... você? Elisa ficou vermelha, apertando o ventre com as mãos. — Eu... acho que sim. — Está com fome? — A voz da mulher saiu quase divertida, o que era raro. — Um pouco. — tentou minimizar, encolhendo os ombros. — Você almoçou? — Clara insistiu. Elisa desviou o olhar pela janela, em silêncio. Clara olhou o relógio. — Já passa das sete da noite, Moreti. — suspirou. — Como alguém fica o dia inteiro sem comer? — Eu tomei café... — murmurou, hesitante. — Depois tive tanta coisa pra fazer em casa que... não deu tempo antes da senhora chegar. — Senhora? — Clara riu curto, debochada. — Eu nem sou velha. Elisa deu um sorrisinho sem graça. Clara revirou os olhos, encostando o corpo no banco. — Certo. Vamos jantar. — O quê? — Elisa arregalou os olhos. — Não precisa, de verdade, eu posso comer qualquer coisa quando chegar em casa. — Qualquer coisa? — repetiu Clara, em tom de incredulidade. Elisa deu de ombros. — É. Qualquer coisa mesmo. Um arroz com ovo, um pão com manteiga, uma sopa rala... tá de bom tamanho. O som que saiu da garganta de Clara foi uma mistura de desdém e incredulidade. — Que horror. Você nunca mais vai comer essas porcarias. Elisa franziu o cenho. — Não são porcarias. — rebateu, ofendida. — É comida. — É sobrevivência, não comida. — Clara rebateu, já impaciente. — E você sabe pelo menos comer? Elisa piscou, confusa. — Comer? — Etiqueta, mesa posta, talheres. — explicou, como se falasse com uma criança. — Ah. — respondeu, aliviada. — Sei sim. Clara suspirou, agradecendo teatralmente aos céus. — Menos um problema pra resolver. — Problema? — murmurou Elisa, irritada, mas a outra já estava pegando o celular. — Henrique, leva a gente praquele restaurante que eu e o senhor Villar sempre vamos. O carro deslizou pelas ruas iluminadas do centro como um felino n***o. Elisa observava pela janela, o rosto colado ao vidro, os olhos refletindo o brilho das vitrines e letreiros. Tudo parecia novo — e caro. Até o ar parecia mais leve, perfumado, como se a cidade tivesse outro cheiro naquele lado da ponte. — Feche a boca, vai acabar entrando mosquito. — comentou Clara, sem olhar pra ela. Elisa corou e endireitou a postura, cruzando as mãos no colo. — Nunca tinha vindo pra esse lado da cidade. — Imagino. — Clara disse, seca. O motorista estacionou em frente a um restaurante de fachada dourada e vidro fumê. — Vamos ver se ainda conseguimos mesa. Elisa olhou o letreiro com um nome em francês. — Aqui? A gente vai comer aqui? — Algum problema? — Não... só parece caro demais. — Villar paga. — respondeu Clara, simplesmente, e saiu do carro com passos decididos. O maître — um homem de terno impecável e sorriso automático — pareceu pronto pra dispensá-las quando Clara se apresentou: — Boa noite. Estamos da parte do senhor Villar. O sorriso dele travou por um segundo, e então o tom mudou completamente. — Mas é claro, madame. Um momento, por favor... — e em menos de um minuto havia uma mesa sendo preparada no centro do salão, perto das janelas. Elisa piscou, surpresa. — Isso acontece sempre que fala o nome dele? — Sempre. — Clara respondeu, sentando-se com naturalidade. — É o efeito Villar. Aprenda a usar. O restaurante era todo em tons de marfim e dourado, o ar impregnado de vinho e manteiga. Garçons se moviam em silêncio, e a música francesa tocava ao fundo, suave. Quando o garçom se aproximou, Elisa respondeu ao cumprimento dele sem hesitar: — Bonsoir. Clara ergueu as sobrancelhas, quase sorrindo. Chocada. — Você fala francês?
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