Pré-visualização gratuita Prólogo
O MORRO NUNCA DORMIA.
Mesmo quando a cidade lá embaixo mergulhava no silêncio da madrugada, as vielas permaneciam vivas.
Músicas ecoavam ao longe, misturando-se ao ronco das motocicletas que cortavam as ruas estreitas. Crianças ainda corriam atrás de bolas gastas, como se o tempo não existisse. Nas esquinas, homens armados observavam cada movimento.
Era um mundo à parte.
Um mundo governado por suas próprias leis.
Alice Duarte descobriu isso na primeira noite em que colocou os pés ali.
A chuva fina riscava o para-brisa do ônibus enquanto as luzes da cidade desapareciam pouco a pouco, substituídas pelas construções simples que subiam o morro.
Sentada junto à janela, ela mantinha uma pasta apertada contra o peito.
Ali estavam seu contrato, os documentos da contratação e os planos de aula que havia preparado durante semanas.
Mais do que papéis, carregava um sonho.
Desde menina, Alice acreditava que a educação podia transformar destinos.
Acreditava que uma sala de aula era capaz de devolver esperança a quem já não enxergava futuro.
Que uma professora podia ser a diferença entre desistir... e continuar.
Por isso, quando surgiu a oportunidade de lecionar na escola da comunidade, ela não pensou duas vezes.
Muitos disseram que era loucura.
Outros garantiram que aquele lugar era perigoso demais.
Seu pai implorou para que recusasse.
Mas Alice sempre fora teimosa.
Quando acreditava em alguma coisa, seguia em frente.
Mesmo carregando o medo consigo.
O ônibus parou no pé do morro.
Ela desceu segurando a mala, enquanto a chuva aumentava de intensidade.
O motorista apontou para uma rua estreita.
— A escola fica lá em cima.
Alice agradeceu com um sorriso tímido e começou a subir.
O coração batia acelerado.
As ruas estavam quase vazias.
A água escorria pelos fios castanhos de seu cabelo enquanto ela puxava a mala pelas calçadas irregulares.
Observava tudo ao redor.
As casas empilhadas.
As janelas iluminadas.
Os becos estreitos.
Tudo era novo.
Desconhecido.
Foi então que ouviu gritos.
Parou imediatamente.
O som vinha da rua ao lado.
Por instinto, caminhou naquela direção.
Talvez alguém precisasse de ajuda.
Talvez fosse apenas uma discussão.
Mas, ao dobrar a esquina...
O mundo pareceu congelar.
Cinco homens.
Quatro cercavam o quinto.
Todos armados.
O sangue pareceu desaparecer de seu rosto.
Seu primeiro impulso foi correr.
Voltar.
Se esconder.
Mas seu corpo simplesmente não respondeu.
Então...
Ele surgiu.
Atravessando a chuva como uma sombra.
Alto.
Imponente.
Vestido inteiramente de preto.
Cada passo era lento.
Seguro.
Carregado de uma autoridade silenciosa.
Os homens abriram passagem imediatamente.
Não por respeito.
Por temor.
Alice não precisou perguntar quem ele era.
A maneira como todos abaixavam a cabeça dizia tudo.
Ele era quem mandava ali.
O dono daquele território.
O homem que decidia quem vivia...
E quem morria.
Quando finalmente conseguiu enxergar seu rosto, algo dentro dela vacilou.
Ele não parecia o monstro que imaginava.
Os traços fortes contrastavam com os olhos escuros.
Olhos que carregavam uma tristeza antiga.
Profunda.
Como se a vida tivesse arrancado dele tudo o que havia de bom muito antes de ensiná-lo a inspirar medo.
Então aconteceu.
Os olhos dele encontraram os dela.
E o tempo deixou de existir.
A chuva desapareceu.
Os gritos silenciaram.
Até mesmo o mundo pareceu prender a respiração.
Existiam apenas aqueles olhos.
Escuros.
Hipnotizantes.
Perigosos.
Alice esqueceu como respirar.
E, pela primeira vez em toda a sua vida, teve a estranha sensação de estar diante do homem que mudaria completamente o seu destino.
Ele franziu a testa.
Era evidente que não esperava encontrar uma desconhecida assistindo àquela cena.
Os segundos pareceram eternos.
Até que um dos homens aproximou-se e cochichou algo em seu ouvido.
Ele desviou o olhar.
Mas, antes que Alice conseguisse sair dali, sua voz atravessou a chuva.
Grave.
Firme.
Inesquecível.
— Quem é ela?
Ninguém respondeu.
Porque ninguém sabia.
Nem mesmo Alice imaginava que aquela simples pergunta mudaria sua vida para sempre.
Que o homem diante dela era exatamente aquele de quem deveria fugir.
Gabriel Monteiro.
Para o morro...
Gael.
O homem mais temido daquela comunidade.
O homem que se tornaria seu maior pecado.
E, talvez...
Seu maior amor.