"Os dons que brotam da terra nascem do luto, crescem na ausência e florescem na memória. Toda bruxa já foi enterrada antes de florescer."
— Fragmento do Livro da Mãe Oculta
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A noite avançava como um suspiro contido entre as árvores de Thérion. O ar estava úmido, pesado, e o chão da floresta parecia murmurar segredos antigos a cada passo que Elisa e Henrique davam.
Eles haviam deixado o abrigo improvisado na floresta assim que o crepúsculo se anunciou — seguindo as instruções deixadas por Astrid. Havia uma bruxa vivendo nas margens do antigo bosque, uma que não pertencia às aldeias nem aos clãs sobreviventes. Uma solitária. O tipo de criatura que o tempo esqueceu, mas que o mundo mágico lembrava com reverência ou temor.
Elisa, ainda abalada pela dor que ardia sob sua pele como um espinho enterrado na alma, sabia que precisava de respostas. Sobre seus poderes. Sobre o que havia se libertado dentro dela. E, talvez, sobre o que estava se tornando.
Henrique caminhava à frente, atento a qualquer ruído, os olhos cor de nozes refletindo a luz escassa da lua como brasas. Mesmo alimentado, ainda estava inquieto — a floresta o deixava em alerta. O cheiro da morte recente ainda rondava a noite.
Quando enfim encontraram o casebre de pedra encravado entre raízes de árvores ancestrais, Elisa hesitou diante da porta. Havia algo de antigo naquele lugar. Algo que sussurrava seu nome mesmo antes dela bater.
A porta se abriu antes que pudesse tocá-la. Uma garota estava ali, com olhos grandes e curiosos, os cabelos negros presos por cordões de ervas secas. Um feixe de luz azulada dançava ao redor de seus pulsos.
Henrique se pois a frente de Elisa como um escudo.
— Você é... ela, a garota das minha visões. — murmurou a menina surpresa ou vê Elisa.
Henrique estreitou os olhos.
— Quem é você? — perguntou com voz baixa, mas firme.
— Constança. — respondeu a jovem, inclinando-se. — Eu esperava por ela.
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O interior do casebre era modesto, mas carregado de símbolos arcanos e ervas penduradas no teto como oferendas ao próprio tempo. Constança ofereceu água com lavanda e mirtilos secos, mas Henrique recusou. Permaneceu próximo à entrada, em posição defensiva.
Constança, por outro lado, parecia fascinada com Elisa.
— Sua aura está desorientada. — murmurou, aproximando-se com cuidado.
— Eu... estou tentando entender o que sou. — disse Elisa, com hesitação.
— Você... é filha da terra.
Elisa estremeceu.
— Eu... acho que sou — disse, incerta. — Descobri isso há pouco tempo. Ainda é tudo muito... confuso.
Constança assentiu, depois estendeu a mão, tocando levemente o braço de Elisa.
No instante seguinte, as chamas das velas se curvaram para trás, como se uma rajada de vento invisível atravessasse a sala. Os olhos de Constança se reviraram e Elisa caiu de joelhos, tomada por uma dor antiga e crua.
A cena se repetia na mente dela como um pesadelo eterno: o sangue dos pais no chão, a madeira da casa encharcada, o grito preso na garganta. Constança foi arremessada para trás, colidindo com a parede.
— O que foi isso?! — ofegou Elisa, cambaleando, os olhos marejados.
Constança levou um tempo para se recompor. Estava pálida, os olhos arregalados.
— Eu senti tudo. A dor... o luto... o poder bruto que você reprimiu... Pelos deuses, Elisa, você... — ela se interrompeu, ofegando.
— O que você viu? — perguntou Elisa, a voz baixa.
— Você não é só uma bruxa. Você carrega uma força ancestral que não deveria estar desperta tão cedo. Você é... a esperança. — Constança se ajoelhou novamente diante dela. — Você quebrou o círculo de contenção só com sua dor. Isso não é comum. Nunca vi nada igual.
Elisa se afastou, assustada com si mesma.
— Isso... aconteceu antes. Quando encontrei meus pais. A terra estremeceu, eu perdi o controle...
— Isso não é perder o controle, é a sua essência despertando. — disse Constança com firmeza. — Você não é só uma Filha da Terra, Elisa. Você é o Abundans Potentia. Sua magia não vem só da linhagem antiga. Há muitos fragmentos dentro de você... fragmentos do mundo antes do mundo.
Elisa franziu a testa.
— Eu... não fiz nada.
— Fez. Fez sem perceber. E sabe por quê? Porque você é uma das antigas. Não uma bruxa qualquer, Elisa. Você é única.
O silêncio se espalhou como uma sombra.
— Isso é loucura. Eu não conheci ninguém como eu. Minha mãe... ela era só... minha mãe.
— Talvez nem ela soubesse. Ou talvez tenha escolhido não contar. — Constança sentou-se com dificuldade, os olhos marejados de espanto e temor. — Mas esse poder que corre em você... não é conjurado. É ancestral. Instintivo. A terra responde a você.
Henrique observava tudo com uma tensão que crescia. Cada vez mais, sentia que algo muito maior os envolvia. E aquilo o apavorava mais do que qualquer inimigo.
— Elisa... — disse Constança com reverência. — Você não é apenas uma bruxa. Você é a herdeira de um poder antigo. Um que muitos acreditavam extinto. A mãe Terra te escolheu. Mesmo que não compreenda, mesmo que tema.
— Mãe Terra? — repetiu Elisa, com a voz embargada.
— Aquela que guarda o Equilíbrio. A que alimenta a terra, que chora em cada eclipse e canta na semente que rompe o solo. — Constança tocou o chão de terra batida com devoção. — Nós, bruxas, somos apenas ecos dela. Mas você, você é a raiz.
Antes que pudessem continuar, um ruído cortou o ar.
Um estalo seco. Um farfalhar rápido demais para ser o vento.
Henrique girou o corpo, rosnando — os olhos voltando a brilhar em vermelho. Constança empalideceu.
— Eles estão aqui. Sentiram seu sangue.
Dois vultos surgiram das sombras. Vampiros — famintos, deformados, os olhos famélicos. Um avançou sorrateiro pelas costas e alcançou Elisa, cravando-lhe os dentes no ombro antes que Henrique o derrubasse com um rugido animalesco.
O vampiro se contorceu. Gritou. O sangue de Elisa queimava como fogo em sua garganta. Ele caiu convulsionando, até que virou ** diante dos olhos horrorizados de Constança e Henrique.
O sangue dela o matou!
Porém, o veneno do vampiro também havia contaminado o sangue de Elisa.
Então ela caiu, fraca, tremendo.
Henrique correu até ela, desesperado. Seu instinto gritou para não se aproximar, para não tocar, mas o medo foi maior.
— Não! Elisa!
Ela ardia em febre, o rosto pálido, os lábios azuis. Sem pensar, Henrique a tomou nos braços e cravou os dentes em seu próprio pulso, pensou em transforma-la, mas era tarde. Só havia uma escolha.
E ele a tomou.
Sugou o veneno misturado ao sangue de Elisa, já esperando pela morte.
Mas ela não veio.
Pelo contrário.
O calor que percorreu seu corpo era diferente de tudo. Como se um novo sol nascesse em seu peito. Henrique caiu de joelhos, os olhos brilhando em dourado vivo pela primeira vez.
Constança, ainda chocada, murmurou com voz trêmula:
— Por Thérion... ele está... mudando.
Henrique abriu os olhos — sentindo algo novo dentro de si. Ele respirou fundo e, com a voz rouca, sussurrou:
— O que está acontecendo comigo?