"As bruxas não morrem; apenas trocam de pele."
— Fragmento de um grimório proibido do Clã da Lua de Sangue
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Elisa carregava nos braços o coelho que Astrid a ajudara a capturar. O coração apertado protestava em silêncio — levar aquele pobre animal à morte era doloroso, mas ela não podia permitir que Henrique sentisse fome. Se aquilo o ajudasse a aplacar sua sede e evitasse que ele caçasse um humano, então ela o faria.
Elas haviam conseguido juntar algumas frutas e raízes pelo caminho. Astrid observava, intrigada.
— Você disse que não tinha família... pra quem está levando tudo isso? — perguntou, sem esconder a curiosidade.
Elisa engoliu seco. Não queria mentir para Astrid — já havia ali um laço de respeito e gratidão — mas também não podia dizer a verdade. Não podia contar que um sugador de sangue — como Astrid chamava — a aguardava numa velha cabana caída.
— Não é pra ninguém... só tenho um longo caminho pela frente. E talvez eu não consiga tudo isso sozinha — disse, abaixando a cabeça, evitando o olhar da menina.
— Hum... — murmurou Astrid. — Se quiser, você pode ficar. Não tenho muito, mas tenho um abrigo para a noite.
— Por que você está aqui, Astrid? Não tem ninguém com quem possa ficar? — perguntou Elisa, preocupada.
Toda vez que olhava para a menina, lembrava de seus irmãos. Imaginava o quanto devia ser difícil andar sozinha depois de perder tudo. Ao menos Elisa tinha Henrique — ainda que temesse o que ele era, ela o amava. E sabia que ele a amava também. Mas Astrid... Astrid não tinha ninguém.
— Só tenho minha irmã — disse a menina, triste.
— Mas você disse...
— Eu sei o que eu disse. E é verdade. Mas eu vou dar um jeito de ajudá-la — disse com firmeza.
— E como você pretende fazer isso? — indagou Elisa, agora encarando-a de frente.
— Tem uma bruxa — começou. Elisa ficou mais atenta. — Ela se chama Clarice. Está reunindo pessoas que querem lutar contra aquele grupo de bruxas...
— Mas por que uma bruxa iria querer lutar contra outras bruxas? — Elisa perguntou, intrigada.
— Para vingar as filhas que foram levadas por elas — respondeu Astrid.
O coração de Elisa disparou. A ideia de que havia guerra entre bruxas confundia tudo. Elas não eram uma irmandade? Não protegiam umas às outras? Se bruxas lutavam entre si... então o que isso fazia dela?
Astrid notou a confusão nos olhos de Elisa e quis explicar.
— Sei que parece confuso... até pra mim. Mas vou te contar o pouco que sei, antes que o sol se ponha — disse, olhando para a bola alaranjada no céu, que lançava ondas cintilantes de calor. — Dizem que há muito tempo atrás. Antes das bruxas virarem umas contra as outras. Elas sentiram um poder imenso surgir no mundo. Não era qualquer poder. Era algo único. Poderiam acabar com as guerras, com os vampiros, com os humanos... Mas cada clã queria usá-lo à sua maneira e quando não entraram em um acordo, cada clã começou a caçada por contra própria. Para o seu próprio uso.
— Clã? — Elisa perguntou, franzindo a testa.
— Você não conhece os cinco clãs? — Astrid suspirou. Elisa parecia perdida, e aquilo a preocupava. — Existem cinco grandes clãs... ou Covens, como preferem. — Pegou uma maçã pequena do chão, debaixo de uma macieira. — Toma.
— Me conte mais — pediu Elisa, pegando a fruta com os olhos brilhando de ansiedade.
— Bom, não sei tudo, mas aprendi algumas coisas vagando por aí — disse, retomando a caminhada. — O Clã da Noite Eterna tem conexão com as sombras... e com os vampiros. Dizem que coexistem com eles de forma civilizada — Astrid fez uma careta de desprezo. Monstro com monstro. Assim que deve ser, pensou, mas não disse. — Depois tem o Círculo da Lua de Sangue. A cada lua vermelha, elas ficam tão poderosas que poderiam exterminar uma raça inteira de vampiros.
Elisa estava fascinada.
— E os outros?
— O Conclave das Sombras... foram essas que levaram minha irmã. Elas não usam magia ancestral — usam magia n***a. Roubam bruxas que emanam poder e as transformam em armas contra os inimigos — disse entre os dentes, com raiva contida. — Tem também o Clã da Chama n***a. Elas controlam o poder vermelho — destrutivo, explosivo. E por fim, a Ordem das Sacerdotisas. Recrutam jovens bruxas e as ensinam a controlar seus poderes. São como a realeza entre as bruxas. Ensinar boas maneiras, combate, estratégia. Elas também aceitam humanos... e com eles, formam um exército que as protege. E pra lá que Clarice esta levando quem deseja lutar.
— É pra lá que você vai? — perguntou Elisa.
— Sim. Vou aprender a m***r bruxas. E vou salvar a Rebecca. — Seus olhos brilharam com uma mistura perigosa de raiva e determinação.
Elisa a observava em silêncio. Astrid era tão pequena... e tão forte. Elisa desejava que aquela força não estivesse enraizada no ódio. Sabia que isso poderia custar a vida da menina.
— Acho corajoso da sua parte. Mas não acha perigoso demais?
— Viver é perigoso, Elisa. Ser humano sem poderes... é ser fraco demais neste mundo. Não vê? Somos alvos fáceis. Se um deles decidir nos m***r, simplesmente o faz — disse com raiva.
Astrid guardava um ódio profundo. Perdera tudo. Sentia-se impotente, e agora só queria vingança.
Elisa também carregava dor. Mas tinha uma missão. Vingaria todos com seu poder. Só precisava aprender a usá-lo.
— Você disse que existe um lugar onde ensinam jovens bruxas... — começou ela.
— Sim. A Ordem das Sacerdotisas. Fica no reino de Elyria. Um reino mágico, governado pela rainha Alethea. Dizem que ela é justa e sábia. Não tem poderes, mas as bruxas juraram protegê-la — explicou Astrid.
— Se ela não tem poderes, como ajuda as jovens bruxas? — perguntou Elisa, confusa.
— Porque quem lidera o clã é a regente Lirya, a irmã bruxa. Ela vive numa ala especial do castelo, onde guardam grimórios antigos e o Lago Sagrado.
— Como sabe de tudo isso? — indagou Elisa.
— Uma bruxa de Everwood me acolheu. Me contou essas histórias.
— Everwood?
— Fica ao sul. Não muito longe daqui. — Astrid apontou. — É aqui que você mora? — perguntou, olhando a velha cabana caindo aos pedaços.
— Não — respondeu Elisa com um suspiro. — É só... um abrigo temporário.
— Hum... se quiser, pode vir comigo. Não é muito confortável, mas... você não estaria sozinha.
Elisa sorriu com tristeza. Queria muito aceitar. Queria manter Astrid por perto, protegê-la. Mas não podia. Não com Henrique ali.
— Fico grata, mas não posso. Obrigada, Astrid. Aprendi muito com você. Se cuide.
— A gente se vê, Elisa. Tome cuidado — disse a menina, se afastando.
Elisa a observou até sumir na trilha. Sentiu vontade de chamá-la de volta. De protegê-la. Mas sabia que ela também precisava sobreviver à própria jornada.
Na cabana, Henrique ouvia tudo. O alívio ao ouvir a voz de Elisa era imenso, mas ele não deixava de sentir a tensão. Quem era aquela menina? Elisa tinha confiado demais? Ele se perguntou se seria necessário ensinar a ela que neste mundo, não se confia em bondade facilmente.
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Ao abrir a porta do casebre em que se abrigava, Elisa se assustou ao encarar os olhos avermelhados de Henrique. Ele estava pronto para atacar. A veia em seu pescoço pulsava como um tambor de guerra, e seus dentes — afiados como aço — estavam expostos, prestes a perfurar alguém.
— Você demorou. — rosnou, num tom entre fome e alívio.
— O que é isso, Henrique? — ela recuou um passo, cautelosa.
— Pensei que estivesse em perigo. — disse, tentando conter os instintos.
— Trouxe algo para você. — Elisa entregou o coelho que Astrid lhe dera. — Sei que não é o suficiente, mas talvez o sustente até o pôr do sol...
Henrique pegou o animal com as mãos trêmulas. A sede o corroía por dentro, e o cheiro de Elisa era quase irresistível. Alimentar-se tão perto dela era um risco — um convite à tragédia. Para resistir à tentação, ele precisava estar saciado. Com fome, era apenas uma fera com a máscara de um homem.
— Preciso de um minuto. — disse, os olhos brilhando num tom carmim violento.
Elisa entendeu imediatamente o que ele queria dizer. Sem dizer nada, abriu a porta e saiu, oferecendo-lhe privacidade para saciar-se.
Assim que a madeira rangeu fechando-se atrás dela, Henrique atacou. O sangue quente do animal escoou pela sua garganta como um remédio sombrio. Não era o suficiente. Mas era o bastante para aguentar até que a noite cobrisse o mundo com seu manto.
Quando terminou, enterrou discretamente o corpo do coelho, ocultando-o sob uma das tábuas do chão, depois limpou a boca com a manga da camisa.
Henrique odiava aquilo. O sabor, a necessidade, o impulso. Nada era mais repulsivo para ele do que essa sede — e a lembrança constante de que era, no fundo, um monstro.
Dois toques na porta. Elisa entendeu: era seguro entrar.
Ela empurrou a porta devagar, encontrando os olhos cor de nozes de Henrique já mais calmos, a fera momentaneamente acorrentada.
— Você está bem? — a voz dele agora era suave, rouca como sempre, mas sem o rosnado de antes.
— Estou. — disse, entrando por completo.
— Vi que conheceu alguém. — comentou Henrique, tentando disfarçar a tensão. Elisa o encarou, surpresa.
— Como sabe?
— Ouvi vocês. — confessou, os lábios se contraindo. — Precisa tomar cuidado, Elisa. Nem todos são o que parecem ser.
— Eu sei... — respondeu, pensativa.
Henrique percebeu algo em seu olhar.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — Ele se aproximou num piscar de olhos.
— Não. Está tudo bem. — respondeu, tentando não se perder no incandescente dos olhos dele.
Aqueles olhos. Talvez tenha sido neles que começou a se apaixonar. Ou talvez tenha sido no modo como ele lutava contra o próprio instinto — por ela.
Henrique estava tenso. A ideia de Elisa caminhar sozinha o consumia de medo. Ele sabia o quanto ela era inexperiente, o quão fácil poderia cair em armadilhas...
E ele ainda não compreendia o tamanho dos sentimentos que nutria. Só sabia que, se algo a ferisse, isso o despedaçaria por dentro.
— Dorme um pouco. — ele disse enfim, com ternura. — Você precisa descansar antes de partirmos ao cair da noite.