"Quando duas almas marcadas pela dor se encontram sob as cinzas da esperança, o mundo antigo escuta e a terra sussurra segredos esquecidos."
— Fragmento dos Cânticos de Thérion
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Elas caminharam até uma parte mais densa da floresta, e Elisa aproveitou para observar melhor a garota. Suas roupas estavam surradas, rasgadas e claramente grandes demais para o corpo franzino. Os cabelos negros eram presos em uma trança que caía até abaixo dos ombros. Era menor que Elisa, e não parecia ter muito mais idade que Willian.
— Ah, Willian... — A dor voltou como uma lâmina em seu peito, e por um momento suas pernas vacilaram.
— Está tudo bem? — a menina notou.
— Sim, só tropecei — apressou-se em responder. A garota assentiu e voltou a prestar atenção no caminho.
— Para onde estamos indo? — perguntou Elisa, tentando distrair-se.
— Caçar — respondeu, como se dissesse algo banal.
— Caçar? Sozinhas? — Elisa parou, alarmada.
A menina soltou um som entre o riso e o desprezo, mas seu rosto não trazia diversão alguma.
— E você acha que alguém vai caçar por nós? — retrucou, em tom desafiador.
— Vocês não têm caçadores? — indagou, desviando de alguns galhos.
— Todos mortos pelos monstros noturnos. É o que acontecerá com a gente se não aprendermos a sobreviver por conta própria — disse, agachando-se de repente.
Elisa abaixou-se também, instintivamente, enquanto a garota fazia sinal de silêncio, levando um dedo aos lábios.
— Fique quieta. Vai espantá-lo — sussurrou.
Elisa seguiu seu olhar e viu um filhote de esquilo remexendo o chão, farejando, descartando algo, e então pegando uma noz. Sentou-se para descascá-la, alheio ao perigo. A menina puxou um estilingue improvisado de dentro das roupas e posicionou uma pedra. Elisa sentiu o coração disparar no mesmo instante em que a pedra voou e acertou o animal em cheio na cabeça. Ela fechou os olhos no impacto.
— Isso! — comemorou a menina. — Já fazia tempo que não comia nada de verdade. Tava vivendo de restos dos comerciantes e frutas das árvores.
Aproximou-se do esquilo caído, e então disse:
— A propósito, meu nome é Astrid. E o seu?
— Elisa — respondeu com receio.
Elisa não estava acostumada a ver animais sendo mortos. Em sua casa, sua mãe os preparava antes que ela os visse. Tinha pena. Mas isso não a impedia de comer a carne.
— O quê? Não gosta de carne de esquilo? — Astrid percebeu sua expressão.
— Só não costumo vê-los sendo abatidos — respondeu, sincera.
— De onde você veio? — perguntou Astrid, desconfiada.
Desde a praga dos vampiros naquela região, muitas crianças haviam perdido tudo. Astrid era uma delas. E não entendia como alguém podia ser tão inocente.
— Deve estar bem longe de casa.
— Sim. Vim do leste — disse Elisa, tentando não revelar muito.
— Ah, lá nunca teve muita coisa mesmo. Dizem que era uma terra morta — disse Astrid, enquanto começava a tirar a pele do esquilo com uma faca rudimentar.
— Minha vila era isolada. Nunca havia saído de lá até agora — comentou, observando a agilidade da menina.
— Está explicado — disse Astrid, limpando uma gota de sangue que lhe manchava o rosto. — E por que saiu de lá?
— Fomos atacados por filhos da noite — respondeu Elisa, respirando fundo.
— Ah, os malditos vampiros... são como uma praga — disse a menina, balançando a cabeça.
Astrid já havia enfrentado os filhos da noite antes, mas o que mais a perturbava ultimamente era algo pior.
— Mas... existem coisas ainda piores que eles por aí — murmurou entre os dentes.
— Isso é impossível — reagiu Elisa, chocada.
— Você não conhece o mundo, Elisa. Aqui fora, longe da sua vila, o perigo espreita por todos os lados. Foi por isso que ataquei o velho no mercado. Nós devemos nos ajudar, ou todos morreremos nessa guerra maldita — disse Astrid, encarando Elisa com uma intensidade desconcertante.
Elisa suspirou enquanto ela acendia uma fogueira. Espetou a carne do esquilo em dois galhos e colocou sobre as chamas. Elisa a observava, cheia de curiosidade. Aquela pequena menina parecia saber tanto da vida... tanto sofrimento em tão poucos anos. Perto dela, Elisa sentia-se quase infantil.
— Posso fazer uma pergunta? — disse, sentando-se ao lado de Astrid.
— Vejo que está prestes a explodir. Vai, pergunta logo — disse Astrid, sem emoção.
— O que aconteceu com você? Por que está sozinha?
Astrid piscou devagar, como se tivesse sido puxada bruscamente de volta ao passado. Seus olhos perderam o foco por um instante.
— Éramos descendentes das Filhas da Terra — começou.
Elisa engasgou com a surpresa.
— O quê? Você... é uma bruxa?
— Não! — respondeu de imediato. — Nunca! Sou só descendente. E renego tudo isso com todas as minhas forças.
— Por quê? Não entendo... Não seria bom? Ter poderes?
— Elas são tão horríveis quanto os sugadores de sangue — disse Astrid, com amargura. — Por aqui, tememos mais as bruxas do que os vampiros.
Elisa não conseguia compreender. Ela mesma era uma bruxa, mas nunca machucaria Astrid... ou qualquer outro humano. Os vampiros eram monstros — exceto talvez por Henrique —, mas as bruxas?
— Não entendo... — disse, genuinamente.
— As bruxas estão em uma missão. Procuram um objeto sagrado.
— Isso não é bom? Talvez queiram usá-lo para lutar contra os vampiros.
— Não se engane. Elas não querem ajudar ninguém — disse, com um sorriso torto.
— Como você sabe?
— Porque na busca... minha família sofreu as consequências — disse Astrid tristemente. — Um grupo de bruxas apareceu dias atrás, dizendo que um objeto emanava poder nas redondezas. Falaram de uma profecia. Sentiram algo na minha irmã, Rebecca...
Astrid baixou a cabeça. A voz falhou.
— Nós tentamos lutar... minha mãe deu tudo de si... até a última gota de sangue. No fim, levaram Rebecca. Mataram todos. Só restou eu. E nem sei por quê.
Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto. Ela a limpou com as costas da mão.
Elisa sentiu o coração apertar. Ambas haviam perdido tudo. Ambas estavam sozinhas agora. Carregavam a mesma dor, o mesmo vazio onde sua família morava dentro de si.
— Eu entendo — disse Elisa, com a voz embargada. — É como se tudo estivesse coberto por uma névoa densa. Cada passo pesa, cada respiração dói. O pior é o silêncio... aquele silêncio sem as vozes que amávamos. As memórias são feridas abertas que sangram com o toque mais leve.
Astrid sentiu algo desatar dentro de si. Palavras que ela nunca conseguiu formar... estavam ali.
— Esse sentimento me acompanha há muito tempo — murmurou, com os olhos marejados. — É como uma sombra. Sempre presente. Sempre me lembrando do que perdi.
Elisa estendeu a mão e segurou a dela.
— Mas mesmo na escuridão... há luz. Somos duas feridas, com cicatrizes profundas. Podemos viver cobertas por essa dor, ou encontrar equilíbrio. Talvez, um dia, ela vire apenas lembrança.
As palavras serviam para Astrid... mas também para Elisa. Ela ainda se culpava. Ainda revivia tudo, a cada instante. Sabia que tinha que seguir em frente. Havia uma longa estrada à frente. Mas jamais esqueceria de sua família.
Eles viveriam dentro dela. Para sempre.