"O mundo além da prisão é um espelho turvo — nele, o reflexo pode tanto libertar quanto devorar."
– Fragmentos dos Grimórios de Étina
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A cabana era úmida e suja. Quase nada ali se aproveitava. Os móveis estavam destruídos, mas para Elisa, tudo era novidade. A própria estrutura da cabana era diferente das casas do vilarejo onde crescera. Além da madeira, suas paredes eram feitas de taipa de pilão, e o teto era coberto com argila e folhas secas.
Os móveis, velhos e carcomidos, estavam virando **, mas para os olhos grandes e curiosos da menina, pareciam verdadeiras obras de arte. A pequena e humilde mesa de canto, coberta por poeira, tinha um design rústico e sofisticado. Elisa passou os dedos pelos entalhes da madeira, encantada. Henrique a observava em silêncio. Ela explorava cada pequena diferença, maravilhada.
Ele estivera no vilarejo de Elisa, e sabia o quanto aquele povo vivia isolado, quase como numa era pré-histórica. m*l conheciam o mundo além da barreira. Habituaram-se àquela vida calma e miserável.
Henrique, no entanto, enxergava tudo com outros olhos — olhos capazes de detectar um grão de areia a quilômetros de distância. E o que via ali era pura imundície. Ainda assim, estava acostumado a lugares piores. Desde que abandonara o palácio e a vida de luxo, já conhecera cantos ainda mais decadentes.
Mas Elisa...
Sua pele macia, quase translúcida, lembrava vidro. Henrique receara machucá-la ao carregá-la. Aquele definitivamente não era o seu lugar. Ela merecia mais. Merecia conforto, p******o, talvez até o palácio que ele deixara para trás…
Mas isso era impossível. Se Malakai — ou algum de seus irmãos — descobrisse sobre Elisa...
Um gemido rouco interrompeu seus pensamentos. Henrique girou o rosto na direção da menina, cujo semblante estava ligeiramente contorcido. Preocupado, se aproximou, ainda que com cuidado para não assustá-la.
— O que foi, Elisa? — perguntou gentilmente.
— Nada — ela se apressou em dizer, desviando o olhar.
— Por favor, me diga — insistiu, inquieto.
— Só estou com fome... faz um tempo que não como nada — confessou, envergonhada. Henrique franziu os lábios.
Claro... ela precisava se alimentar. Fazia dois dias desde que estavam juntos, e nesse tempo, Elisa não comera nada. Ele também precisava se alimentar, e sabia que logo a sede viria. O maior medo, no entanto, era ela — tão frágil, tão... tentadora.
— Estou de mãos atadas — lamentou, olhando para a porta. — Até o pôr do sol, estou preso aqui dentro.
— Eu posso sair. Procurar algo para comermos — ela disse, animada.
Henrique sentiu a excitação em sua voz. Era a primeira vez que Elisa estaria fora da prisão mágica onde vivera desde o nascimento. Ela m*l podia esperar para explorar. Ele, por sua vez, tremia ao pensar nos perigos que ela nem imaginava.
— É perigoso — seus olhos se tornaram aflitos. — Você não sabe se defender. Pode se colocar em risco. Melhor esperar.
Ele se virou, querendo encerrar o assunto. Mas Elisa não desistiria tão fácil.
— Até você começar a me achar apetitosa? — provocou, mãos na cintura.
Henrique girou o corpo com fúria nos olhos.
— Não diga isso — respondeu com firmeza. — Não é algo para se brincar.
— Eu não estou brincando. É exatamente por isso que precisamos nos alimentar.
Ela se aproximou da porta com decisão. Quando segurou a maçaneta, Henrique já estava ali, sua mão cobrindo a dela.
Elisa se assustou. Ainda não se acostumara com a velocidade dele. E os olhos carmim, agora intensos, a paralisaram. Veias negras pulsavam no pescoço de Henrique, seus lábios comprimiam os caninos ocultos, e sua expressão era mais bestial que humana. Elisa ofegou, o coração disparado, o corpo em choque. Era aterrorizante — e hipnotizante.
— Não — rosnou Henrique. Sua voz soava como uma avalanche. — Não poderei te proteger lá fora.
Elisa entendeu. Ele não estava faminto. Estava com medo — por ela.
Ela relaxou seus músculos tensos.
— Vocês não podem andar sob o sol. Que perigo eu correria? São apenas humanos lá fora — tentou argumentar.
— Os humanos... podem ser cruéis.
— Eu posso me defender — ela insistiu.
Henrique fechou os olhos com força. Lutava para conter seus impulsos. Queria protegê-la, queria que ela confiasse nele. E para isso... ele precisava confiar nela também. Respirou fundo. Quando abriu os olhos, sua face voltara ao normal.
— Está bem — disse com amargura.
Elisa soltou um suspiro de alívio.
— Mas fique atenta. Os humanos são traiçoeiros. Podem ver maldade em você. Qualquer coisa estranha, volte correndo. Não se arrisque. Eu te suplico.
Ele acariciou o rosto dela com o polegar. Elisa congelou. Seu coração transbordava por aquele homem, mas seu corpo ainda gritava por distância. Henrique sentiu a hesitação e recuou.
— Não vou demorar — prometeu ela, saindo pela porta.
Do lado de fora, o sol a saudou. Elisa sentiu o calor e a luz em sua pele com gratidão — e pensou em Henrique. Quanto tempo fazia desde que ele perdera aquilo? Como havia sido sua transformação? Havia tantas perguntas... e ela percebeu que sabia quase nada sobre ele.
Sacudiu a cabeça, afastando os pensamentos. Teriam tempo para isso. Mas se Henrique quisesse sua confiança, teria de lhe contar a verdade.
A floresta se abria diante dela. Era a primeira vez que saía da prisão mágica que chamava de lar. As árvores ali pareciam maiores, mais densas, mais cheias de vida. Pássaros cantavam em coros diversos — algo raro em sua vila, onde os animais haviam parado de se reproduzir dentro da barreira.
Seguindo sons metálicos e vozes distantes, Elisa saiu da mata e deu de cara com uma cidade que até então só existia em sua imaginação.
As roupas das pessoas eram sofisticadas. Vestidos leves com tecidos bordados em cores vivas, casas com paredes de pedra e madeira pintada, telhados vermelhos inclinados, janelas de vidro ondulado. Ela caminhava encantada, vendo animais sendo conduzidos, e a multidão se aglomerando na praça central.
Ali havia uma igreja azul como o céu da tarde, com uma torre e um sino imponente. Barracas alinhadas vendiam frutas, verduras, tecidos e utensílios que ela jamais vira. Tudo a fascinava.
— Por uma moeda de prata, pode levar essas deliciosas maçãs — ofereceu um vendedor, sorrindo.
Elisa arregalou os olhos. Onde vivia, nada era comprado — viviam do cultivo. Ela não tinha uma moeda sequer. E estava faminta.
— Que bela menina... — sussurrou uma voz próxima. Uma mão segurou seu cabelo. — Você não é daqui.
Era um homem de meia-idade, os olhos cheios de gula, como quem observa carne exposta no mercado.
— Com licença — disse Elisa, tentando se afastar.
— Não tenha medo, florzinha. Posso te dar uma moeda... se fizer algo por mim — disse, exibindo dentes podres.
Ela recuou, enojada.
— Deixa ela, velho babão! — gritou uma voz fina e infantil atrás do homem.
O velho quase caiu, perdendo o equilíbrio.
— Corre! — gritou a mesma voz, puxando Elisa pelo braço.
Correram juntas, enquanto o velho gritava palavras horríveis — algumas que Elisa nunca ouvira antes.
— Espera! — ela arfava, já longe do perigo. — O que você fez com ele?
— Chutei as pernas do depravado — respondeu a menina com orgulho.
— Depravado? Ele só queria me da... um emprego, eu acho.
Elisa franziu a testa, confusa. Aquilo era novo demais para ela.
— Você definitivamente não é daqui. Os cavaleiros dessa região estão longe de ser nobres — disse a garota. — Colar bonito, cuidado com ele. Se for valioso, vão tentar roubar.
— É de família. Tem valor sentimental — respondeu Elisa. — Espere, para onde vai?
— Arrumar comida antes que anoiteça — disse a menina, afastando-se da cidade.
Elisa sabia o que precisava. Comida para si — e alguma presa viva para Henrique. Antes que ele morresse de fome... se isso fosse possível.
— Espere! Eu vou com você — disse, correndo atrás da garota.