"E o sangue dos antigos chamará de volta o poder perdido.
Quando a Terra chorar e o céu se abrir,
uma filha renascerá em carne e dor."
— Fragmento da Profecia Velada
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Henrique carregou o corpo desacordado de Elisa para o mais longe que podia daquele vilarejo em ruínas. Ele tinha muito a pensar e a fazer dali em diante. Precisava encontrar um lugar seguro para sua amada antes que o sol nascesse — o que limitaria sua busca e inutilizaria sua força.
Henrique já havia se acostumado com suas limitações: não poder andar sob a luz do dia, vagar sozinho pela eternidade, jamais encontrar o amor... Mas, desde que aquela bela garota ruiva cruzara seu caminho, nada dentro dele fora o mesmo.
Os objetivos que o fizeram aceitar a solidão agora pareciam vazios diante do sentimento que Elisa despertara nele. O mundo havia deixado de importar. Seu mundo agora era apenas ela.
E isso... era assustador.
Aquela criatura tão frágil havia se tornado sua única preocupação.
Ele precisava agir. Elisa ainda estava desacordada, seu coração batendo mais forte que o normal. A descarga de poder fora intensa demais. Aquele descanso era merecido. Mas Henrique temia o que viria quando ela acordasse.
Depois de uma longa viagem a passos de vampiro, ele avistou à distância um pequeno vilarejo. Algumas tochas ainda iluminavam casas isoladas. Parado no campo, Henrique escutou com seus sentidos aguçados. Corações batiam dentro das moradias. Ele hesitou. Entrar ali seria arriscado — se não fossem hospitaleiros, talvez tivesse que usar a força. Mas não queria assustar ainda mais Elisa. Então, virou-se para a floresta.
Para sua sorte, encontrou uma cabana antiga. Estava coberta por poeira e teias de aranha, mas parecia segura. Ele se aproximou da porta. Tocou a madeira com o pé. Nada o impediu de entrar. Com cuidado, levou Elisa até uma cama de palha no fundo do cômodo.
Trabalhou depressa, tampando todas as frestas por onde o sol poderia invadir. O dia já começava a nascer, e com ele vinha sua maldição.
Henrique odiava aquilo. Ser uma criatura da noite. Muitos como ele tentaram reverter essa condição — com feitiços, objetos negros, rituais proibidos. Todos falharam. Mas nenhum jamais desistiria de tentar.
A voz fraca de Elisa o arrancou dos pensamentos.
— Onde eu estou?
Ele correu até ela, mas seu movimento foi rápido demais. Para Elisa, pareceu um vulto. Ela se assustou, afastando-se.
— Perdoe-me, não queria assustá-la — disse ele, vendo o medo no rosto da jovem. — Como se sente?
— Dilacerada — arfou ela, com os olhos marejados. Lembrava-se dos corpos de sua família. Do vilarejo em ruínas. — Tudo culpa sua... e dos seus amigos vampiros.
Henrique sentiu a dor daquelas palavras como uma estaca no peito. Mas era maduro o bastante para saber: aquilo era luto. Medo. Desespero.
A menina havia perdido tudo. E acabara de descobrir que o amor da sua vida era um monstro das histórias que ouvira desde criança.
Ele resolveu mudar de assunto. Evitar mais dor.
— Você é uma bruxa.
Elisa franziu a testa.
Ela sabia que havia algo errado dentro de si. Mas bruxa? Nunca soube de ninguém em sua família que herdasse poder das Filhas da Terra. O dom havia sido esquecido a muito tempo no seu vilarejo.
Mas havia Étina. A anciã que sumira anos atrás. As histórias diziam que ela amaldiçoara a gravidez de sua mãe. Me mesmo assim... sua mãe pedira que a procurasse. Por quê?
— Minha mãe disse que... eu tenho poder — sussurrou Elisa.
— Você tem, Elisa. Eu vi. Com meus próprios olhos.
Henrique ocultava algo. Elisa percebia em seu olhar.
Ele sabia mais do que deixava transparecer.
— Você conhece outras como eu?
— Não como você. Eu nunca vi alguém com tamanho poder. Se existisse outra... alguém já teria vindo atrás disso. Talvez a barreira... fosse para mantê-los longe de você.
— Não, não pode ser! — protestou ela. — A barreira foi criada para proteger nosso povo. A última Filha da Terra a ergueu para proteger sua descendência!
— Elisa, você mesma disse que não se via uma bruxa no vilarejo há anos.
— Mas ela pode estar lá há milênios! Não temos como saber!
Henrique se aproximou, a voz baixa, firme:
— Para manter um poder como aquele, algo precisava alimentá-lo... sustentá-lo. Você não sente mais febre, sente?
Elisa hesitou. Mas era verdade. A febre desaparecera. O m*l-estar também.
— Eu... não me sinto mais doente.
— Talvez, ao atravessar a barreira, o encantamento se quebrou. E o fardo que você carregava... se foi.
Henrique começou a juntar as peças. Um calafrio percorreu sua espinha.
— Acho que temos um grande problema — murmurou, passando as mãos pelos cabelos.
Elisa o encarou com desconfiança e medo.
— Me diga.
Ele andava de um lado para o outro, pensativo.
— Alguns anos atrás, houve um evento celestial que as bruxas chamaram de Abundans Potentia. Um grande poder perturbou a natureza. Era como um grito. Um lamento tão forte que os ventos cortavam o ar como lâminas. Árvores arrancadas. Casas destruídas. Todos sentiram.
Mas então... sumiu. Como se tivesse sido engolido pela terra.
— O que aconteceu com esse poder? — perguntou Elisa, assustada.
— Ninguém sabe. As bruxas tentaram rastrear sua origem. Quando falharam... decidiram caçá-lo. Estavam dispostas a começar uma guerra por ele.
Henrique abaixou-se diante dela. Dessa vez, Elisa não recuou.
— Todos o queriam. Um poder como aquele poderia reescrever o mundo. Mas então... ele desapareceu. Escondeu-se.
Seus olhos cruzaram os dela. Olhos de esmeralda. Tão vivos, tão antigos.
Henrique compreendeu.
O Abundans Potentia estava bem ali. Diante dele. Em carne, alma e dor.
— Precisamos encontrar alguém para te ajudar com esse poder, Elisa.
Ela entendeu. Não havia mais escolha. Eles viriam. E ela precisava estar pronta.
— Precisamos de Étina — sussurrou.