"Quando os deuses se calam, a Terra chora.
E do pranto de uma filha nasce o trovão."
— Fragmento da Canção da Pedra-Mãe, manuscrito de Thérion, Era do Eclipse
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A porta da casa escancarada fez Elisa parar de súbito. Ela ficou imóvel, encarando a entrada. O silêncio, apesar de comum àquela hora, parecia estranho. Seus pais já estariam recolhidos, mas com sua ausência e a queda da barreira, esperava-se nervos à flor da pele — e não aquele vazio. Ela olhou ao redor. O vilarejo parecia abandonado. Portas abertas, outras arrancadas. Um calafrio subiu-lhe a espinha.
O coração acelerou. Com um impulso, correu para dentro.
— Não... — arfou Elisa, os olhos marejados.
A cozinha estava revirada. Panelas arrancadas das paredes, espalhadas pelo chão. Palha por todos os lados. Mas o que mais a chocou foi a trilha de sangue conduzindo ao quarto. Como se alguém tivesse sido arrastado, deixando rastros vermelhos como um último pedido de socorro.
Ela engoliu o ar como se queimasse. O pressentimento pesava mais que seu próprio corpo. O medo de confirmar o que já sabia era sufocante. As lágrimas caíam sem trégua, e cada passo rumo ao quarto exigia força que ela não sabia que possuía.
As mãos voaram à boca ao ver a cena.
Sua família estava jogada como sacas de grãos. Era como se uma espada em brasa tivesse atravessado seu peito.
— Não... não... por favor... — A voz de Elisa tornou-se o grito rasgado de um animal ferido.
Ela se jogou sobre o corpo de Meredith, a irmãzinha. Os olhos da menina estavam fechados, seu corpo inerte aos pés da cama. Estava seca. Eles haviam sugado tudo.
— Minha menininha linda... — soluçou Elisa.
Seu olhar, turvo pelas lágrimas, buscou William. O irmão do meio estava caído entre a cama e o chão, o braço estendido como se quisesse proteger Meredith.
Tão novo... pensou Elisa. Ele teria sido um grande guerreiro... de coração imenso.
Ela então viu o pai, Charles, no canto do quarto. Sentado, com as costas contra a parede, a cabeça pendida. Uma ferida grotesca no pescoço tingia-lhe o corpo inteiro de vermelho.
— Papai... — ela murmurou, ajoelhando-se, agarrando a mão já fria dele. — Papai, não...
O desespero que a consumia não cabia mais dentro de si. Queria ter estado lá. Queria ter morrido com eles. O que restava dela era só ausência.
Mas Elisa ainda não havia olhado para a mãe.
Ela permaneceu de costas, chorando, adiando o inevitável. Ver Melinda... seria enterrar seu coração de vez.
— E-Elisa... — a voz chegou fraca, um sussurro de dor.
Ela congelou. Era real? Ou um delírio?
— Minha... menina...
Elisa se virou, com medo de estar alucinando.
Melinda estava caída no fundo do quarto, o rosto voltado para a filha. Os olhos abertos, vermelhos. O corpo ensanguentado.
— Graças aos Deuses! — Elisa correu até ela. — Mamãe! Está tudo bem agora, estou aqui! Vai ficar tudo bem!
A esperança crescia como uma flor em meio ao campo enegrecido pelo luto. Elisa colocou o rosto da mãe em seu colo, limpando-lhe o rosto com mãos sujas de sangue.
Melinda lutava para manter-se consciente. Cada respiração era uma batalha. Sua expressão se contorcia de dor.
— Vou tirar você daqui. Eu prometo. — Elisa falou num sopro apressado.
Mas Melinda negou com um leve gesto.
— Eu... não tenho muito tempo. — disse, com dificuldade. — Precisa me escutar... e depois ir... o mais longe que puder...
Ela parecia ser puxada para o fundo de um lago escuro, lutando para emergir uma última vez.
— Você... seu poder...
A palavra a assustou. Elisa sabia, desde a noite anterior, que algo havia despertado dentro dela — algo que a aterrorizou.
Melinda viu o medo no rosto da filha e lamentou profundamente. Devia tê-la preparado. Devia ter confiado. Agora era tarde demais.
— Você é parte de algo maior... do que imagina. Seus poderes vão além do que este mundo pode compreender...
Ela pigarreou, esforçando-se para continuar:
— Você... precisa encontrar Étina.
Melinda fechou os olhos por tempo suficiente para Elisa se desesperar.
— Mãe?!
— Ainda estou aqui, querida... só estou cansada...
— Não diga mais nada! Irei tirá-la daqui. Henrique! — ela gritou, e ele surgiu na porta do quarto as presas, mesmo contra sua vontade.
Elisa suplicou:
— Ajude-me a levantá-la!
Mas Henrique ficou imóvel. O sangue no ar era uma tortura. Ele tentava conter o monstro dentro de si. Melinda estava fraca, e qualquer gota poderia ser fatal. Nem o seu próprio veneno a traria de volta, mesmo como um monstro.
Ele se aproximou, mas os olhos já estavam vermelhos. As presas expostas. Elisa engoliu em seco. O medo se infiltrava entre eles.
Henrique, num último esforço de controle, atirou-se contra a parede.
— Me perdoe... — sussurrou, tentando resistir ao impulso de sangue.
Elisa olhou para a mãe, em pânico. Sabia que não havia tempo.
— Quem...? — Melinda tentou perguntar, mas Elisa respondeu antes:
— O motivo das minhas escapadas noturnas...
Melinda sorriu, fraca. Nos olhos da filha, ela viu amor.
— Então... cavalheiro... cuide da minha preciosa Elisa. Ela tem... o poder de mudar o mundo.
Ela se virou de leve, tocando o rosto da filha.
— Etina vai te ensinar... a controlar o que tem dentro de você. Confie nela...
A respiração se tornava cada vez mais difícil.
— Nunca se esqueça... seu poder é a manifestação da sua vontade. Você pode ser... a mais poderosa da Terra. Eles temerão você. E o medo... os tornará perigosos. Vão tentar... ferir você. Mas não podem. Você é poderosa, Elisa.
A jovem escutava cada palavra como se fosse uma profecia. Um testamento.
Melinda sorriu, vendo na filha uma mulher forte, extraordinária. Puxou o ar uma última vez. E, então, partiu.
Elisa esperou. Esperou. Os olhos sem vida de sua mãe pareciam ainda tentar lhe dizer algo — mas ela já não podia mais ouvir.
— Elisa... — começou Henrique.
Mas Elisa ergueu a mão, pedindo silêncio.
O grito veio como um trovão:
— NÃO!
A casa inteira tremeu. Um vendaval nasceu do peito da garota. O luto tornou-se tempestade. Os corpos da família foram arremessados contra as paredes, objetos voavam. Elisa curvada, chorando como se quisesse rasgar o mundo com sua dor.
Raios roxos, vermelhos e azuis saíam de seu corpo, arrancando tábuas da parede. Seus olhos tornaram-se brancos. E então ela flutuou.
Henrique não conseguia acreditar. Protegia-se dos destroços, apavorado com o poder dela — mas ainda mais, com o risco de que esse poder a destruísse.
Com esforço sobre-humano, ele avançou. Cada passo era como mover uma montanha. Os ventos quase o despedaçavam. Mas não parou. Quando enfim tocou Elisa, o mundo silenciou e ela desmaiou em seus braços.