Tempestade de Luto

1129 Palavras
"Quando os deuses se calam, a Terra chora. E do pranto de uma filha nasce o trovão." — Fragmento da Canção da Pedra-Mãe, manuscrito de Thérion, Era do Eclipse ___ A porta da casa escancarada fez Elisa parar de súbito. Ela ficou imóvel, encarando a entrada. O silêncio, apesar de comum àquela hora, parecia estranho. Seus pais já estariam recolhidos, mas com sua ausência e a queda da barreira, esperava-se nervos à flor da pele — e não aquele vazio. Ela olhou ao redor. O vilarejo parecia abandonado. Portas abertas, outras arrancadas. Um calafrio subiu-lhe a espinha. O coração acelerou. Com um impulso, correu para dentro. — Não... — arfou Elisa, os olhos marejados. A cozinha estava revirada. Panelas arrancadas das paredes, espalhadas pelo chão. Palha por todos os lados. Mas o que mais a chocou foi a trilha de sangue conduzindo ao quarto. Como se alguém tivesse sido arrastado, deixando rastros vermelhos como um último pedido de socorro. Ela engoliu o ar como se queimasse. O pressentimento pesava mais que seu próprio corpo. O medo de confirmar o que já sabia era sufocante. As lágrimas caíam sem trégua, e cada passo rumo ao quarto exigia força que ela não sabia que possuía. As mãos voaram à boca ao ver a cena. Sua família estava jogada como sacas de grãos. Era como se uma espada em brasa tivesse atravessado seu peito. — Não... não... por favor... — A voz de Elisa tornou-se o grito rasgado de um animal ferido. Ela se jogou sobre o corpo de Meredith, a irmãzinha. Os olhos da menina estavam fechados, seu corpo inerte aos pés da cama. Estava seca. Eles haviam sugado tudo. — Minha menininha linda... — soluçou Elisa. Seu olhar, turvo pelas lágrimas, buscou William. O irmão do meio estava caído entre a cama e o chão, o braço estendido como se quisesse proteger Meredith. Tão novo... pensou Elisa. Ele teria sido um grande guerreiro... de coração imenso. Ela então viu o pai, Charles, no canto do quarto. Sentado, com as costas contra a parede, a cabeça pendida. Uma ferida grotesca no pescoço tingia-lhe o corpo inteiro de vermelho. — Papai... — ela murmurou, ajoelhando-se, agarrando a mão já fria dele. — Papai, não... O desespero que a consumia não cabia mais dentro de si. Queria ter estado lá. Queria ter morrido com eles. O que restava dela era só ausência. Mas Elisa ainda não havia olhado para a mãe. Ela permaneceu de costas, chorando, adiando o inevitável. Ver Melinda... seria enterrar seu coração de vez. — E-Elisa... — a voz chegou fraca, um sussurro de dor. Ela congelou. Era real? Ou um delírio? — Minha... menina... Elisa se virou, com medo de estar alucinando. Melinda estava caída no fundo do quarto, o rosto voltado para a filha. Os olhos abertos, vermelhos. O corpo ensanguentado. — Graças aos Deuses! — Elisa correu até ela. — Mamãe! Está tudo bem agora, estou aqui! Vai ficar tudo bem! A esperança crescia como uma flor em meio ao campo enegrecido pelo luto. Elisa colocou o rosto da mãe em seu colo, limpando-lhe o rosto com mãos sujas de sangue. Melinda lutava para manter-se consciente. Cada respiração era uma batalha. Sua expressão se contorcia de dor. — Vou tirar você daqui. Eu prometo. — Elisa falou num sopro apressado. Mas Melinda negou com um leve gesto. — Eu... não tenho muito tempo. — disse, com dificuldade. — Precisa me escutar... e depois ir... o mais longe que puder... Ela parecia ser puxada para o fundo de um lago escuro, lutando para emergir uma última vez. — Você... seu poder... A palavra a assustou. Elisa sabia, desde a noite anterior, que algo havia despertado dentro dela — algo que a aterrorizou. Melinda viu o medo no rosto da filha e lamentou profundamente. Devia tê-la preparado. Devia ter confiado. Agora era tarde demais. — Você é parte de algo maior... do que imagina. Seus poderes vão além do que este mundo pode compreender... Ela pigarreou, esforçando-se para continuar: — Você... precisa encontrar Étina. Melinda fechou os olhos por tempo suficiente para Elisa se desesperar. — Mãe?! — Ainda estou aqui, querida... só estou cansada... — Não diga mais nada! Irei tirá-la daqui. Henrique! — ela gritou, e ele surgiu na porta do quarto as presas, mesmo contra sua vontade. Elisa suplicou: — Ajude-me a levantá-la! Mas Henrique ficou imóvel. O sangue no ar era uma tortura. Ele tentava conter o monstro dentro de si. Melinda estava fraca, e qualquer gota poderia ser fatal. Nem o seu próprio veneno a traria de volta, mesmo como um monstro. Ele se aproximou, mas os olhos já estavam vermelhos. As presas expostas. Elisa engoliu em seco. O medo se infiltrava entre eles. Henrique, num último esforço de controle, atirou-se contra a parede. — Me perdoe... — sussurrou, tentando resistir ao impulso de sangue. Elisa olhou para a mãe, em pânico. Sabia que não havia tempo. — Quem...? — Melinda tentou perguntar, mas Elisa respondeu antes: — O motivo das minhas escapadas noturnas... Melinda sorriu, fraca. Nos olhos da filha, ela viu amor. — Então... cavalheiro... cuide da minha preciosa Elisa. Ela tem... o poder de mudar o mundo. Ela se virou de leve, tocando o rosto da filha. — Etina vai te ensinar... a controlar o que tem dentro de você. Confie nela... A respiração se tornava cada vez mais difícil. — Nunca se esqueça... seu poder é a manifestação da sua vontade. Você pode ser... a mais poderosa da Terra. Eles temerão você. E o medo... os tornará perigosos. Vão tentar... ferir você. Mas não podem. Você é poderosa, Elisa. A jovem escutava cada palavra como se fosse uma profecia. Um testamento. Melinda sorriu, vendo na filha uma mulher forte, extraordinária. Puxou o ar uma última vez. E, então, partiu. Elisa esperou. Esperou. Os olhos sem vida de sua mãe pareciam ainda tentar lhe dizer algo — mas ela já não podia mais ouvir. — Elisa... — começou Henrique. Mas Elisa ergueu a mão, pedindo silêncio. O grito veio como um trovão: — NÃO! A casa inteira tremeu. Um vendaval nasceu do peito da garota. O luto tornou-se tempestade. Os corpos da família foram arremessados contra as paredes, objetos voavam. Elisa curvada, chorando como se quisesse rasgar o mundo com sua dor. Raios roxos, vermelhos e azuis saíam de seu corpo, arrancando tábuas da parede. Seus olhos tornaram-se brancos. E então ela flutuou. Henrique não conseguia acreditar. Protegia-se dos destroços, apavorado com o poder dela — mas ainda mais, com o risco de que esse poder a destruísse. Com esforço sobre-humano, ele avançou. Cada passo era como mover uma montanha. Os ventos quase o despedaçavam. Mas não parou. Quando enfim tocou Elisa, o mundo silenciou e ela desmaiou em seus braços.
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