"O que protege pode também aprisionar. E o que liberta pode carregar o peso da ruína."
— Fragmento do Códice de Nymareth, sobre as quedas de barreiras mágicas
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Os olhos curiosos de Elisa varriam cada canto da cabana. Observava o lugar com atenção — havia pouco ali que inspirasse conforto. Talvez vampiros não precisassem disso.
— Você mora aqui? — ela perguntou a Henrique.
— Não — ele respondeu, os olhos fixos nela.
— E quem mora então?
— Não faço ideia. Provavelmente outro vampiro — deu de ombros.
Elisa o encarou com a testa franzida. Provavelmente um vampiro? Isso parecia uma invasão.
Percebendo o turbilhão de pensamentos dela, Henrique explicou:
— Estava abandonada. Precisava de abrigo antes do nascer do sol, enquanto viajava. Ia ficar só um dia... mas então te encontrei, depois de me deparar com aquela barreira — confessou.
— E desde então você ficou aqui? — ela perguntou, tentando organizar os pensamentos.
Henrique apenas assentiu.
Aquele lugar o prendeu por curiosidade — e por amor. Elisa dominava seus pensamentos, seus desejos. Não conseguiu mais ir embora, mesmo nas noites em que não a via. Nada conseguiu o afastar dela.
— No dia em que te vi desmaiada, queria perguntar se estava bem. Vi quando acordou, e os dois ficaram aliviados. Presumi que fossem seus pais — ele sondou.
— Sim, eram meus pais — Elisa confirmou. — Sempre tive uma ligação forte com aquele rio. Levarem-me até ele, para me trazer de volta. Assim como me ajudou a nascer.
— Isso faz sentido — disse Henrique, pensativo.
— O quê? — ela quis saber.
Ele hesitou. Mas conhecia Elisa o suficiente para saber que ela não deixaria passar despercebido.
— Sua ligação com a natureza. É parte do seu dom — afirmou.
Elisa desviou o olhar.
— Não. Isso foi uma maldição. Eu não sou uma bruxa — recuou, visivelmente incomodada.
Henrique respeitou o silêncio que se seguiu.
Ambos mergulharam em seus próprios pensamentos. Elisa tentava processar tudo: a verdade sobre Henrique, o dom que ela rejeitava, e a ideia de ter sido enganada. Ele era diferente dos outros vampiros... mas e se fosse tudo parte de um plano? E se ele estivesse apenas esperando o momento certo para matá-la?
— Podemos ir agora — disse Henrique, despertando-a do torpor.
Elisa sentiu um arrepio. Queria voltar, queria acalmar os pais. Mas agora, fora da barreira, com Henrique... o sonho tinha virado desconforto. O amor que desejava viver fora da barreira agora vinha com o gosto metálico do medo.
— Vamos — respondeu, apressando-se para sair dali.
Henrique ditava o caminho. Elisa, o ritmo. Para ele, era irritantemente lento. Os humanos eram frágeis demais. Pensava na fragilidade de Elisa. Sua pele parecia tão macia que apenas um inseto já poderia lhe causar problemas. E isso fazia crescer nele o impulso de protegê-la.
Já Elisa só pensava no que viria a seguir. Sabia que receberia uma bronca. Seus pais deviam estar desesperados. Ela tinha ficado fora uma noite inteira — algo impensável para eles. Mas havia uma dúvida ainda maior: deveria contar tudo? Sobre Henrique? Sobre o que havia acontecido?
Vampiros não contam como ajuda. Ou contam?
Ela pensou, angustiada.
— Elisa, espere — a voz de Henrique a fez parar, mas ela não virou para olhá-lo.
— Você pode me alcançar facilmente, Henrique. Então corra — disse, impaciente voltando a andar.
Mas ele a agarrou pelo braço e a virou com força, fazendo suas costas baterem contra uma árvore. O corpo dela se arrepiou quando os olhos de Henrique a encararam: vermelhos, intensos, as veias pulsando no rosto e pescoço. Era assustador. E, no entanto... ela não sentia o mesmo medo que sentira diante dos outros vampiros.
— Vai me morder? — ela provocou, sarcástica.
Henrique ouviu o coração dela disparar. Sabia que era medo — e orgulho.
— Olhe em volta — disse, a voz agora grave, como um rosnado. Elisa hesitou, mas obedeceu.
Estava escuro. Ela m*l conseguia ver.
— Ainda não entendeu? — ele insistiu, aflito.
— O quê?
— Eu não deveria estar aqui.
Ela não compreendia.
Henrique não deveria estar ali... é claro que não! Era um vampiro. A barreira...
Seus olhos se arregalaram.
— A barreira... ela sumiu... — murmurou, incrédula.
Era impossível. A barreira nunca havia falhado. Nunca! Como isso era possível?
Sua família…
— Oh, pelos Deuses — suspirou temerosa.
Ela se soltou e correu. O coração parecia explodir no peito. Não podia parar. Precisava chegar ao vilarejo. Eles estão bem. Eles têm que estar bem.
Nada aconteceu. Nada aconteceu. Nada aconteceu.
Mas quanto mais corria, mais sua mente a torturava com imagens horríveis.
Finalmente, avistou uma fumaça no horizonte. Lá estava sua vila. Sua prisão. E agora, sua única esperança.
E então — impacto. Algo sólido a impediu de seguir. Duas mãos a seguraram antes que caísse.
— Solte-me! — ela gritou, quase sem ar.
— Você não pode ir até lá — Henrique a segurava firme. — Por favor, Elisa. Não me faça deixar você ir.
Ela parou de lutar ao notar o desespero em seus olhos. Ele tremia. E lutava.
— O que está acontecendo? — perguntou.
— Eu consigo sentir. Por todos os lados...
— Sentir o quê?
Henrique hesitou. Então, encarou-a com dor e temor.
— Sangue.
Elisa sentiu a espinha gelar. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ela olhou para a vila. O peito apertava.
— Eu... preciso ir — murmurou, trêmula.
Henrique, com muito custo a soltou. Sabia que não podia impedi-la. Ela precisava ver. Precisava entender.
Ela avançou com passos vacilantes.
Silêncio.
Nenhum som de cavalos, de conversas, de vida. Nenhuma música, nenhuma criança. Apenas tochas — muitas tochas, espalhadas, como se uma multidão tivesse saído à caça de sombras.
O frio tocou seu pescoço. Arrepiou-se. Olhou para trás: Henrique a seguia. Olhos vermelhos, rosto tenso. Tentava não respirar. Mas o cheiro... o cheiro de sangue estava em toda parte.
À medida que se aproximavam de sua casa, Elisa sentia algo quebrar dentro de si.
E temia que já fosse tarde demais.