"Todo monstro já foi uma promessa de salvação — antes que a escuridão o reconhecesse como seu."
— Fragmento atribuído a Étina, a Bruxa de Sangue
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Elisa ainda estava desacordada quando Henrique a colocou no chão de uma cabana rochosa que havia invadido tempos atrás. O lugar se assemelhava a uma caverna — sem janelas, sem qualquer a******a para que a luz do sol penetrasse. Provavelmente, algum vampiro fizera dela sua morada antes dele.
Henrique não sabia como acordá-la, mas ouvia seu coração bater, ainda que fraco, e sua respiração lenta, ofegante. Lamentava, do fundo da alma, não possuir o dom da cura. Mas tinha fé: ela acordaria, quando o corpo se recuperasse.
Só que, assim que a adrenalina do confronto passou, sua garganta ardeu.
O cheiro de Elisa dominava o lugar — doce, quente, indescritivelmente atrativo. Sua mente o traiu, imaginando o gosto de seu sangue, e o monstro que tanto temia despertou. Os olhos tingiram-se de vermelho, os caninos despontaram, e as veias em seu pescoço pulsaram com veneno.
Foi tomado por um impulso primal. Em segundos, estava sobre o corpo de Elisa — imóvel, vulnerável, adormecida. Mas então viu seu rosto... aquele rosto que admirara em sonhos, que o havia feito desertar do palácio, que o chamava sem palavras. Fechou os olhos com força, reprimiu os sentidos, afastou-se.
Não. Ele não podia ser o monstro que sempre temeu.
Saiu da cabana, apesar do receio de deixá-la sozinha. Precisava caçar. Só assim manteria o controle.
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Elisa acordou entre dores. O corpo parecia pesado, dormente, como se pertencesse a outra pessoa. Tentou se mover, mas tudo doía. Forçou os olhos a abrirem, mas foi recebida por uma dor de cabeça latejante e uma tontura nauseante. Tentou se sentar, mas um movimento no ar a alarmou — e um toque firme em seu braço a fez arregalar os olhos.
Henrique estava tão próximo que ela m*l o reconheceu.
— Não faça esforço — disse ele, em voz baixa.
Aquele som era familiar. Acalmava seu coração, apesar da confusão. Mas então as lembranças voltaram como lâminas. Elisa se desvencilhou de seu toque.
— Fique longe de mim.
Henrique não insistiu. Ergueu as mãos num gesto de rendição e se afastou.
— Você está segura. Eu não vou machucar você.
— Você é um deles — disse Elisa, recuando.
— Elisa... por favor.
— Por que eu confiaria em você?
— Porque você me conhece. Sabe dos meus sentimentos.
— Eu conhecia o humano chamado Henrique. Ele não era um monstro.
Henrique sentiu a dor daquelas palavras mais do que qualquer golpe físico. Havia escolhido ser diferente. Não caçava humanos havia anos. Alimentava-se de animais, controlava seus instintos, tudo por uma humanidade que julgava ter perdido — até encontrar Elisa.
— Você me enganou — acusou ela.
— Eu omiti a verdade. Não era necessário no começo...
— Então por que você parece... tão humano?
Henrique hesitou.
— Me pareço com você? É isso que quer dizer?
Elisa não respondeu. Estava confusa. Ele era diferente. Aquela força sobre-humana, os olhos vermelhos... mas algo nele ainda era o mesmo. O homem do riacho. O que sorria com os olhos, que a fazia sentir que pertencia a algum lugar.
— Elisa — ele disse, suave. — Eu sou o mesmo que te esperou no riacho todos os dias desde que te vi pela primeira vez.
Aquelas palavras a atingiram como uma onda. Elisa sentiu o calor subir pelo peito. Viu os olhos dele mudarem de novo, e deu um passo involuntário em sua direção.
— O que foi isso?
— Não... fique aí — pediu Henrique, recuando. Os olhos fechados com força e cabeça baixa — Só preciso de um minuto.
Ele respirou fundo, lutando contra os instintos. Concentrando-se no que sentia por ela.
— Henrique...
— Já passou.— disse ele abrindo os olhos novamente, conseguindo controlar seus instintos — Mas você ainda está fraca.
— O que aconteceu comigo?
— Você é uma Filha da Terra, Elisa. Todo aquele poder... ele veio de você.
Ela negou com a cabeça.
— Isso não faz sentido. Minha mãe disse que uma bruxa amaldiçoou sua gravidez. Deve ter sido isso. Meu corpo está colapsando com toda essa magia n***a!
— Pode ser. Mas se for uma maldição, só uma bruxa poderá desfazê-la.
— Eu não conheço nenhuma bruxa. Todas foram mortas por vocês — acusou.
— Eu não sou o monstro que você pensa — disse Henrique, com firmeza.
— Como não? A sua natureza é destruir tudo ao redor.
— Então me deixe provar o contrário. Eu vou levá-la até uma bruxa. Uma que pode curá-la.
Elisa hesitou. Queria apenas voltar para casa. Sabia que os pais estariam desesperados.
— Preciso ir embora.
Tentou se levantar, mas ainda cambaleava.
— Espere o pôr do sol. Eu posso te proteger e mostrar o caminho.
— Pôr do sol? Há quanto tempo estou aqui?
— Você dormiu o restante da noite... e quase o dia todo.
O desespero tomou seu rosto.
— Ah, não... estou perdida. Meus pais... vão pensar que fugi. Jamais vão confiar em mim de novo.
— Você voltará segura — disse Henrique, com um tom que tentava confortá-la. — Eu prometo.
Elisa o olhou nos olhos pela primeira vez desde que acordara. Olhos cor de noz. Profundos, fiéis, ainda os mesmos. Mas o medo ainda pesava em seu peito.
No fim, porém, sabia que não tinha escolha. Estava longe de casa, fraca, perdida. Henrique era tudo o que tinha naquele momento.
— Está bem — ela disse, enfim.
Henrique relaxou os ombros. Pela primeira vez, havia uma trégua. E talvez, no silêncio, entre monstros e lembranças, algo novo estivesse apenas começando.