"Quando a terra chama, nem mesmo a noite consegue calar o seu rugido."
— Fragmento das Crônicas de Thérion, Volume III
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No dia seguinte, o corpo de Elisa ainda sentia os efeitos do esforço da noite anterior. A febre havia cedido, mas a exaustão parecia ter se enraizado em seus ossos. Nem os bálsamos preparados por Melinda, nem os chás sagrados de cura surtiram efeito imediato. Charles e Melinda observavam, impotentes, a palidez que tomava conta do rosto da filha. Chegaram à conclusão inevitável: não havia mais como evitar. Precisariam buscar ajuda além da barreira.
— Partiremos ao amanhecer. Viajaremos à luz do dia e encontraremos abrigo antes do anoitecer. Com as ervas da p******o, eles não conseguirão nos seguir. Vai dar certo — disse Charles, tentando tranquilizar Melinda com um abraço firme.
— Precisamos avisar o Conselho da Vila. Se cruzarmos a barreira com Elisa, todos devem estar preparados para proteger suas casas — ela respondeu, a voz marcada por uma angústia crescente.
— Podemos dizer que Étina nos contatou... de alguma forma. Que pressentiu a barreira caindo. Ninguém sofrerá por nossa causa, querida — Charles assegurou, olhando nos olhos da esposa. — Partimos em dois amanheceres.
Naquela noite, Melinda não arredou o pé de junto de Elisa. Vigiou seu sono como se esperasse que o fio tênue da vida pudesse, a qualquer momento, se romper. Mas, ao amanhecer, Elisa despertou com os olhos mais vívidos e uma força renovada. Conseguiu caminhar até o pátio da casa e sentir o sol aquecer seu rosto pálido. Seus irmãos, Meredith e Willian, celebraram a melhora com risos e danças em volta dela.
Após o almoço, Elisa se deitou sob a sombra da nogueira e contou histórias aos irmãos. Eram contos inventados, criados a partir de seus devaneios, pois o mundo fora da barreira ainda era apenas um desejo. Mas seus olhos ardiam com o anseio de um dia vivenciar aquilo que narrava.
Ao anoitecer, a família se reuniu à mesa. Melinda agradeceu aos espíritos antigos pela melhora da filha. Todos dormiram com os corações aliviados. Todos, menos Elisa.
Ela ansiava por vê-lo. Por contar a Henrique que estava melhor. Vestiu seu manto de lã espessa, cobriu os ombros com o casaco acolchoado, e escapou sorrateiramente para o mesmo lugar onde sempre o encontrava, além da árvore marcada.
Mas Henrique não veio.
Três figuras se aproximaram das sombras da floresta, silhuetas disformes e animalescas. Elisa recuou instintivamente. Mas eles a viram.
Com um rugido, os três avançaram — mas a barreira os conteve imediatamente.
— O que é isso? — rosnou um deles, os olhos vermelhos como brasas, as veias grossas e negras pulsando sob a pele fina do pescoço.
As criaturas se atiraram contra a barreira, arranhando o ar com garras sujas e dentes à mostra.
— Venha... atravesse. Só um passo — sibilou outro, como se o cheiro do sangue de Elisa o tivesse enlouquecido.
Elisa ficou paralisada. Nunca estivera tão próxima daquilo que o povo chamava de filhos da noite. Monstros famintos, deformados pela sede ancestral. A barreira tremia com cada investida, e Elisa se encolheu, incapaz de respirar.
— Vou arrancar sua garganta — rosnou o terceiro, a saliva escorrendo como ácido.
Ela pensou em Henrique. Onde ele estava? Estaria ferido? Teria sido pego por aquelas criaturas horrendas? Seu coração disparou.
Foi então que uma voz como trovão partiu da escuridão:
— Afastem-se!
Henrique.
Ele surgiu das árvores como um vendaval, os olhos carmesim reluzindo com fúria. Os outros o reconheceram.
— Um desertor — zombou o maior deles.
— Saiam agora — rosnou Henrique, com os dentes à mostra.
— Ajude-nos a derrubar a barreira, e teremos um banquete — sussurrou o outro.
Henrique não respondeu. Avançou com velocidade monstruosa, pulando quatro metros sobre os inimigos. Montou nas costas de um deles e arrancou-lhe a cabeça com brutalidade, lançando-a ao chão com um baque s***o.
Elisa gritou. O horror congelou seu corpo. Henrique... era um deles!
Mas era diferente. Seus olhos não eram como os dos outros. Seus gestos, sua voz, seu coração — não podiam ser falsos.
Os outros dois filhos da noite investiram contra ele, e Henrique lutou com tudo o que restava. Mas ele estava fraco. Seu sangue — nutrido apenas de animais — não lhe conferia a mesma força dos que se alimentavam de humanos.
Elisa chorava, impotente.
Até que um grito irrompeu de sua garganta:
— NÃO!
O som cortou o ar como uma lâmina. A barreira estremeceu.
Ela atravessou.
Henrique virou-se, horrorizado.
— Elisa, não!
Mas já era tarde. Os dois monstros a sentiram. Seu cheiro — puro, mágico — os enlouqueceu.
Eles largaram Henrique e avançaram. Elisa não recuou. Um poder gritava dentro dela. Uma força bruta e antiga que nunca havia sentido antes.
A terra tremeu.
O céu escureceu.
Ventanias giravam em torno de Elisa, que pairava com os olhos brancos como mármore. Raios de energia brotavam de sua pele — vermelho como brasa, azul como o gelo, roxo como as sombras.
Henrique viu. Finalmente compreendeu.
Elisa era uma Filha da Terra.
O vento se ergueu como uma muralha, árvores se curvaram. Os três monstros congelaram diante da manifestação mágica. Elisa gritou — e da sua alma explodiu uma rajada de energia.
Os dois filhos da noite foram pulverizados.
Henrique foi lançado a dezenas de metros, atingido pela onda mágica.
Quando tudo cessou, Elisa tombou no chão, inconsciente.
Henrique, machucado e incrédulo, arrastou-se até ela.
Ela havia salvado sua vida. Mas... o que exatamente ela era?
Ele a observou, deitada sobre a terra revirada, envolta por um halo de magia resquente. O mundo ao redor estava em silêncio — como se até a floresta reverenciasse o ocorrido.
Henrique sabia o que precisava fazer.
Ele a pegou nos braços.
A protegeria. E quando ela despertasse, contaria a verdade. Sobre ele. Sobre os filhos da noite. Sobre a guerra que se aproximava.
E sobre o destino de uma bruxa que nasceu do sangue... e da terra.