Capítulo 19
Pedro narrando
A reunião foi surreal. Descobri umas coisas que a gente nem sabia que existiam, principalmente que o Ricardo era meu irmão. Cara, eu tô muito alegre com isso, porque nunca pensei que um dia eu teria um vínculo com um cara tão bacana como o Ricardo. Ele é um amigo que eu ia levar para sempre no meu peito. Cara, fiquei muito, muito alegre.
A minha mãe está estranha, está muito triste, achando que o Ricardo não vai perdoar ela.
Ela não conhece o Ricardo. Ricardo é um cara que tem um grande coração, não guarda rancor, não guarda mágoa. Agora, o lado do Ricardo que eu não conhecia me assustou. Ele matou aqueles três com instinto de crueldade, parecia outro Ricardo, não parecia o mesmo. A advogada ficou assustada com o acontecido.
Na reunião eu percebi que, de vez em quando, ela passava o olho em mim. Eu também olhava para ela. Estamos parecendo dois bobos.
Graças a Deus, Ricardo fez as pazes com alegria de novo, porque eu pensei que ele não ia mais falar comigo. Ele saiu com a cara tão feia lá da sede.
Vamos agora no escritório ver mais documentação. Vou chamar ele para isso. Não temos mais que fugir, não há mais tempo para fugir. O tempo agora é de ir para cima.
Nessa reunião, que foi muito proveitosa, descobri umas coisas boas e coisas ruins também. Pedimos para a advogada resolver as documentações para entrarmos com uma ação no banco para passar todas as contas para o nome do Ricardo, porque o pai dele tá morto, a mãe também, então as contas têm que estar no nome do Ricardo.
Conversando, entramos em um acordo: Ricardo vai morar no Juramento. Quando ele falou isso, quase que eu pulei de alegria, mas fiquei muito feliz. Ele não quer levar os móveis que estão no apartamento, vai deixar tudo.
Agora vou ficar morando lá no Juramento, perto dele. Temos que procurar uma casa.
— Em qual casa que vamos morar? — perguntei ao Ricardo, quando ele estava descendo do quarto com a toalha no pescoço, vindo do banho.
Ele respondeu:
— Na casa que era do meu pai.
— Pera aí, Ricardo. Essa casa, a Margarida que mora nela, ela não vai querer deixar essa casa para você. E, pelo que eu vi, seu pai não deixou nada para ela. Não vi Melissa falando nada sobre herança para Margarida. Falando nisso, vou ligar para Melissa. Depois eu vejo isso. Um instantinho.
Peguei meu telefone e logo liguei para Melissa. No segundo toque ela atendeu. Meu coração chegou a errar as batidas quando ela disse, com aquela voz linda:
— Alô.
Claro que eu respondi à altura:
— Oi, gata, tudo bem?
— Sim, está tudo bem. Aconteceu alguma coisa?
— Não aconteceu nada. Eu só quero te perguntar um negócio. Estou aqui na casa do Ricardo e gostaria de saber se o Garcia deixou alguma herança para Margarida.
Melissa, na mesma hora, disse:
— Estou aqui perto, vou passar aí no apartamento do Ricardo, porque eu quero realmente falar sobre isso com ele.
— Tá bom, então vou te aguardar aqui.
Olhei para o Ricardo, ele deu um sorriso daqueles bem debochados.
— O que você tá vendo, irmão? Tá rindo de quê?
— Tô rindo dessa cara sua de bobo quando fala com a advogada. Fica parecendo um viadinho.
E o sem-vergonha riu da minha cara. Tudo bem, deixa baixo. A vez dele vai chegar.
Não demorou nada, Melissa chegou e foi anunciada pelo porteiro. Ricardo mandou subir. A campainha tocou, abri a porta e lá estava ela, linda, imponente em seu salto preto verniz. Simplesmente ela estava linda.
Mandei que ela entrasse e se acomodasse na sala de visitas. Ela sentou e botou o notebook em cima da mesinha de centro. Ricardo logo apareceu de regata e uma bermuda larga preta, de sandálias Havaianas, bem jogadão mesmo, e sentou cumprimentando a advogada.
Ela retribuiu o cumprimento, falou comigo. Claro que eu dei dois beijinhos no rosto, bem pertinho da boca, para ela sentir que eu estou a fim dela.
Melissa foi logo entrando no assunto, abriu o notebook e chamou eu e Ricardo para o lado dela, para que ela pudesse mostrar o que estava falando.
Ela começou:
— Ricardo, eu sei que você não foi muito com a cara da Margarida. Eu também não. O meu pai disse que ela era muito ignorante com seu pai.
Ricardo concordou, dizendo:
— Eu vi seu pai chamando a atenção dela dizendo. Com meu pai ela brincava, mas comigo não. Ele falou sério: ela não vai brincar comigo. Se brincar comigo, vai virar saudade.
— Mas o que está escrito aí? — perguntou Ricardo.
— Seu pai deixou uma quantia grande em dinheiro para sua madrasta: um milhão e duzentos mil reais. Só que ele não deixou só para ela, deixou para Maria Luiza também. Agora tem que ver se ela vai dar a parte da Maria Luiza.
Ricardo ficou olhando, pensativo, e perguntou:
— Você sabe como é o relacionamento dela com a filha? Se elas vivem bem? Sabe de alguma coisa?
Melissa olhou para nós dois, dizendo:
— Não sei, mas algumas pessoas dizem que ela não trata bem a Maria Luiza. Não sei qual o motivo, mas ela vive brigando e batendo na Maria Luiza.
Aquelas palavras da doutora mexeram com algo dentro de Ricardo. Ele ficou com o maxilar travado e disse:
— Não quero a Maria Luiza longe dos meus olhos.
Melissa continuou lendo o que estava escrito no notebook:
— Está escrito: “Eu, Antônio Garcia, deixo para Margarida Maria da Silva a quantia de 1.200.000 reais, para que ela venha dividir com a minha enteada Maria Luiza, a qual eu tenho muito carinho e sei que, se eu não ajudar, ela vai ficar desamparada.
O pai dela é chefe da facção rival. Sei porque Margarida me disse que, quando ela disse que estava grávida de uma menina, ele não quis, falou para ela dar a criança ou fazer um aborto. Mesmo assim, ela ficou, e ele começou a maltratar ela e a criança. Foi quando ela atirou nele, e ele deu uma coça muito grande nela, e ela veio parar no pé do morro, toda machucada. Cuidei dela sem segundas intenções, mas depois nós tivemos um caso de anos, e a filha dela criei como se fosse minha. Ela me chamava de pai, por isso que eu não quero que ela sofra.
Para o Ricardo, eu deixo a mansão do alto do morro, que já estava pronta. Comprei os móveis, estão todos guardados no galpão da loja, e alguns são pré-moldados e já estão na casa. É uma casa digna de um chefe. Era para lá que eu ia levar a Margarida, por exigência dela. Ela sabe da existência dessa casa, mas ela vai continuar com essa casa que está morando nela, se ela quiser. Essa casa está sendo passada para o nome dela a partir do momento que o testamento foi lido. E a casa do alto do morro é do meu filho. Tem três carros na garagem e duas motos lá. Dá para ele viver muito bem e cuidar do mundo. Obrigado por dar essa ajuda.”
Eu entendi rapidinho. Garcia tinha deixado uma mansão para o Ricardo no alto do morro, para que não viesse ele e Margarida brigarem por causa de bens. Deixou uma pequena fortuna para Margarida, que ela vai dizer que não é nada, porque vai ter que dividir com a filha, e deixou a mansão e toda a herança principal para o Ricardo.
Gostei disso.
Agora é arrumar as roupas, botar nas malas e ir. Ricardo vai levar os três carros também para a Rocinha. Total, vai ficar sem carro nenhum aqui. Se for aquela casa grande que eu vi sendo feita no alto do morro, ali dá uns 10 carros tranquilos.
Melissa se despediu e foi embora. Disse que ia encontrar um cliente.
Eu e Ricardo subimos e fomos arrumar as malas de Ricardo. Ao todo, um total de 10 malas de roupa. Botamos divididas nos três carros. Liguei para o Luiz. Ele veio. Pedi para que ele viesse de Uber para poder levar um dos carros do Ricardo até o alto do morro.