Pré-visualização gratuita CONHECENDO RICARDO GARCIA
Capítulo 1
Narrativa do Autor
Ricardo Garcia sempre sentiu que vivia dentro de uma casa grande demais para ele.
Não pela metragem absurda, nem pelas paredes de vidro que refletiam o céu azul da Zona Sul como um espelho perfeito. Mas porque tudo ali parecia exigir uma versão dele que não existia.
Ele estava de pé na varanda do apartamento em São Conrado, observando o mar lá embaixo, com o vento quente de janeiro bagunçando o cabelo escuro que insistia em cair sobre seus olhos. Vestia uma camisa social clara dobrada até os cotovelos, relógio caro no pulso, sapatos italianos… e, ainda assim, sentia-se deslocado como alguém usando fantasia.
Atrás dele, a sala fervilhava de vozes.
— Meu Deus, Ricardo, você viu quem veio? a voz da namorada cortou o ar, fina e impaciente.
Helena atravessou a sala com uma taça de espumante na mão. Era linda de um jeito calculado: cabelos perfeitamente alisados, maquiagem impecável, vestido justo que gritava status. Filha de um desembargador, criada entre colégios bilíngues e clubes fechados, ela carregava no olhar uma certeza: o mundo lhe devia algo.
— É a família Farias, ela continuou . Donos de três construtoras no Sul. Você precisava ir falar com eles. Networking é tudo, amor.
Ricardo respirou fundo antes de responder.
— Eu já falei com meio mundo hoje, Helena. Eu só queria um minuto de silêncio.
Ela franziu a testa, incomodada.
— Silêncio? Hoje é sua festa de formatura, Ricardo. Arquitetura na melhor faculdade do país, concluída antes do tempo. Seu pai investiu uma fortuna nisso.
— Meu pai investiu em mim: ele corrigiu, com calma. Não em uma vitrine.
Helena revirou os olhos.
— Às vezes eu acho que você esquece quem você é.
Ricardo quase riu.
Talvez eu nunca tenha sabido, pensou.
A mãe apareceu antes que a discussão crescesse.
Isabela Garcia era o tipo de mulher que fazia as pessoas pararem de falar quando entrava em um ambiente. Não por ostentação, mas por presença. Os cabelos castanhos presos de forma simples, os olhos doces e atentos, o sorriso que carregava algo de maternal e algo de firmeza. Engenheira respeitada, referência em projetos urbanos sustentáveis, era o verdadeiro eixo daquela família.
— Vocês dois estão brigando no dia mais importante do Ricardo? perguntou, com suavidade.
Helena sorriu instantaneamente, falsa como um comercial de perfume.
— Claro que não, dona Isabela. Eu só estava dizendo ao Ricardo como ele deveria aproveitar melhor as oportunidades.
Isabela olhou para o filho, e aquele olhar dizia tudo.
— Filho, venha cá um instante.
Eles se afastaram para perto da janela. Lá fora, o mar continuava indiferente às pressões humanas.
— Você está bem? — ela perguntou, tocando o rosto dele.
— Eu estou… cansado, mãe.
— De quê?
Ricardo pensou antes de responder.
— De fingir que sou feito da mesma matéria que esse lugar.
Ela sorriu de um jeito triste.
— Você é feito da sua própria matéria, Ricardo. E isso sempre foi o que eu mais admirei em você.
Ele sentiu um nó no peito.
— Às vezes parece que eu nasci na família errada.
Isabela segurou o rosto dele entre as mãos.
— Não fale isso. Você é nosso filho. E isso é tudo.
Mas, por algum motivo, aquela frase não trouxe paz.
O celular vibrou no bolso do paletó.
RD, desce aí. Tô na portaria.
Ricardo sorriu pela primeira vez naquela noite.
— É o Pedro. disse para a mãe.
— Seu amigo do Juramento?
— Meu irmão de alma.
Ela assentiu.
— Vai lá. Você merece alguém que fale sua língua.
Ricardo atravessou o salão sob olhares curiosos e julgadores. Alguns convidados cochichavam — o herdeiro que preferia gente simples a magnatas. Helena o observou ir embora com clara reprovação.
Na portaria, Pedro estava encostado no balcão, usando camisa simples, tênis gasto e aquele sorriso aberto de sempre. Pele morena, olhos vivos, postura de quem conhece o peso da vida, mas não se curva a ele.
— Fala, arquiteto milionário, brincou.
— Agora vai esquecer de mim seu amigo favelado?
Ricardo riu e o abraçou forte.
— Nunca. Você é a única coisa normal na minha vida.
— Normal não. Pedro corrigiu. Real.
Eles caminharam para fora do prédio, sentando-se no meio-fio, olhando a cidade.
— E aí, como foi a festa dos ricos? — Pedro perguntou.
— Um zoológico de gente vestida de ouro Ricardo respondeu.
— Todo mundo querendo algo que não sabe explicar.
— E você?
Ricardo pensou.
— Eu só queria desenhar casas que as pessoas pudessem chamar de lar.
Pedro deu um tapinha no ombro dele.
— Por isso você não é igual a eles.
Ricardo olhou para o amigo, sentindo algo estranho no fundo do peito. Como se aquela amizade fosse uma âncora em um mar que começava a se agitar.
Ele ainda não sabia que tudo o que acreditava sobre sua vida estava prestes a ruir.
Mas, naquela noite, sob o céu do Rio, Ricardo Garcia ainda era apenas um jovem tentando descobrir quem realmente era.
O vento da noite trouxe o cheiro salgado do mar misturado ao barulho distante dos carros. Ricardo ainda estava sentado no meio-fio ao lado de Pedro quando ouviu passos firmes atrás de si.
— Então é aqui que o formando está …
A voz era grave, calma, carregada de cansaço.
Ricardo se virou.
Seu pai estava ali.
Antônio Garcia não usava o terno caro que todos conheciam. A gravata estava frouxa, a camisa branca com as mangas arregaçadas até os cotovelos. O cabelo levemente desalinhado, o rosto marcado por um dia longo demais. Ele parecia mais um homem comum do que o magnata que lotava revistas de economia.
Pedro se levantou de um pulo.
— S-senhor Garcia…
Havia respeito, mas também um certo medo. Nem todo dia um morador do Juramento se via diante de um dos homens mais ricos do Rio.
Antônio sorriu de leve.
— Calma, garoto. Eu não mordo. Estendeu a mão. — Você deve ser o Pedro. O Ricardo fala muito de você.
Pedro, sem jeito, limpou a mão na bermuda antes de apertar a do empresário.
— É… prazer.
Ricardo observava a cena com um estranho aperto no peito. Seu pai não tratava Pedro com condescendência, nem com aquele sorriso plástico que usava com investidores. Era um sorriso real.
— Senta aí com a gente, pai, Ricardo disse.
Antônio hesitou por um segundo, depois se sentou no meio-fio ao lado deles, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Foi então que Ricardo viu.
As mãos do pai.
Os nós dos dedos estavam avermelhados, a pele marcada, pequenas rachaduras, uma mancha escura de graxa na lateral do polegar.
Ricardo franziu a testa.
— Pai… o que é isso na sua mão?
Antônio olhou para os próprios dedos como se só então tivesse notado.
— Ah… isso? esfregou uma palma na outra. — Nada demais.
— Nada demais? Ricardo insistiu.
— Parece que você andou carregando saco de cimento.
Pedro desviou o olhar.
Antônio respirou fundo, um meio sorriso cansado surgindo.
— Eu estava no hangar mais cedo. Um dos mecânicos faltou e o serviço não espera. Avião parado custa dinheiro. — Deu de ombros. — Fui ajudar.
Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo. Um dono de empresa bilionária carregando peças, sujando as mãos.
— Você não precisa fazer isso! murmurou.
— Preciso sim. Antônio o encarou.
— Nunca esqueça de onde você vem, Ricardo. Dinheiro não apaga origem.
Pedro olhou para os dois, confuso.
— Seu pai é… diferente.
Antônio riu.
— E isso é elogio.
O silêncio se espalhou por alguns segundos, confortável.
— Desculpa ter chegado atrasado na sua festa, filho Antônio disse, agora mais sério.
— Eu… não gosto desses ambientes. Gente que sorri demais, fala demais e sente de menos.
Ricardo pensa a mesma coisa.
— Eu também não.
— Eu sei. O pai respondeu. Você puxou isso de mim.
Pedro observava tudo com olhos atentos, como se estivesse vendo algo que não combinava com o que o mundo dizia sobre aquele homem.
— Você parece mais com seu pai do que com… ele fez um gesto vago em direção ao prédio luxuoso — …sua mãe e Você não liga para isso, falou olhando pro prédio de luxo.
Antônio inclinou a cabeça.
— Porque isso tudo é só cenário. O que importa é quem a gente é quando senta no meio-fio.
Ricardo sentiu um arrepio estranho.
Ali, entre o amigo humilde e o pai com as mãos sujas de trabalho, ele sentiu algo que nunca sentira dentro daquele apartamento de vidro: pertencimento.
Mal sabia ele que aquele sentimento estava apoiado em verdades muito mais frágeis do que parecia.
E que aquelas mãos marcadas carregavam mais do que graxa.