O ATAQUE

1364 Palavras
O HERDEIRO Capítulo 2 Narrativa do Autor O sábado amanheceu ensolarado. O céu do Rio se abriu em um azul quase indecente, desses que fazem a cidade parecer uma promessa de um dia que começa com paz e vai terminar em paz. Da janela do apartamento em São Conrado, Ricardo observava o mar enquanto terminava de amarrar o cadarço do tênis. Aquele dia tinha um gosto diferente. Não era reunião, não era evento, não era networking. Era família. Isabela caminhava pela sala com uma bolsa de praia grande demais, separando toalhas, protetor solar, livros e frutas. Antônio, o pai, vestia uma camisa de linho clara, óculos escuros pendurados no colarinho, a postura relaxada como se finalmente tivesse largado um peso invisível. — Você chamou o Pedro? Isabela perguntou. — Chamei. Ele já tá chegando. Ricardo respondeu. Antônio sorriu. — Gosto daquele garoto. Ele olha nos olhos quando fala. Ricardo não comentou, mas sentiu orgulho. Eles desceram juntos e, minutos depois, Pedro apareceu vindo pela calçada, bermuda, chinelo e um sorriso no rosto. — Bom dia, família Garcia. — Bom dia, Pedro. — Isabela disse, calorosa. — Vem, hoje você é da família. Ele riu, meio sem jeito, mas aceitou. A praia estava cheia, mas ainda respirável. Famílias, vendedores, turistas, corpos estendidos sob o sol como se a vida não tivesse pressa. Eles se instalaram perto de um quiosque, guarda-sol fincado na areia, toalhas estendidas. Isabela tirou os sapatos e afundou os pés na areia quente, fechando os olhos por um instante. — Às vezes eu esqueço como isso é bom. Ela murmurou. Antônio a observou com um sorriso discreto. Ricardo e Pedro já estavam descalços, olhando o mar. — Vamos entrar? Pedro perguntou. — Daqui a pouco. Ricardo respondeu. - Quero aproveitar esse momento de normalidade. Pedro riu. — legal mesmo ver sua família aqui, assim… parece gente comum. — Talvez a gente seja! Ricardo disse. Eles se sentaram. O tempo passou leve. Riram, comeram milho, beberam água de coco. Almoçaram peixe grelhado e arroz num restaurante simples à beira da praia. Isabela contou histórias da época da faculdade. Antônio falou de viagens. Pedro ouviu mais do que falava, absorvendo aquele mundo que nunca foi feito para ele. Depois do almoço, Ricardo e Pedro correram para o mar. A água gelada bateu nos corpos quentes, arrancando risadas. Mergulharam, se empurraram, quase como crianças. Na areia, Antônio e Isabela observavam. — Ele parece feliz! Isabela disse. — Ele merece ser, Antônio respondeu. Foi então que algo mudou no ar. Uma mulher n***a caminhava pela areia, elegante, vestindo uma saída de praia simples. Os cabelos cacheados presos, postura firme. Ao lado dela, uma jovem de talvez 16 anos, linda de um jeito que . Ricardo, ainda dentro d’água, a viu. — c*****o… murmurou. — O quê? Pedro perguntou. — Aquela garota. Pedro olhou. — linda mesmo. Mas algo estranho aconteceu. A mulher mais velha parou por um segundo ao ver Antônio e Isabela. O rosto dela se fechou. Os olhos cravaram no pai de Ricardo como se ele fosse algo que não devia estar ali. Monstro. Era isso que o olhar dela dizia. Pedro, atento, percebeu. Viu quando as duas se afastaram alguns metros e fingiram não ter visto ninguém. — Aquilo foi estranho: ele murmurou. — O quê? — Aquelas duas. A mulher olhou pro seu pai como se quisesse matá-lo. Ricardo franziu a testa. — Deve ser coisa da sua cabeça. Mas um frio estranho escorreu pela espinha dele. Na areia, Antônio desviava o olhar da tal mulher meio sem graça. Isabela percebeu. — Você conhece aquela mulher? — ela perguntou. — Não. Antônio respondeu rápido demais. Ricardo e Pedro saíam do mar quando ouviram o som. Um carro freando. Gritos. E então… PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ. Os tiros rasgaram o ar como facas. Ricardo sentiu o mundo congelar. O carro passou pela avenida à beira da praia, os vidros escuros, uma mão para fora disparando na direção exata onde Antônio estava sentado. — PAI! Ricardo gritou. Isabela caiu na areia. Mas antes que o pânico pudesse tomar tudo, homens surgiram. De trás de quiosques. De dentro de carros estacionados. De lugares onde ninguém havia notado ninguém. Homens armados. E eles não estavam ali para correr. Os disparos foram respondidos na mesma hora. PÁ! PÁ! PÁ! Ricardo foi puxado por Pedro para trás de uma barraca. — Que p***a é essa?! Pedro gritou. — Eu não sei! Ricardo espiou. Os homens que atiravam para proteger Antônio não usavam o uniforme dos seguranças da empresa. Eles eram diferentes. Postura diferente. Olhar frio. Movimentos treinados para matar. Antônio estava deitado no chão protegendo Isabela, enquanto os tiros cortavam o ar. O carro atacante fugiu. Silêncio. Sirene distante. Gritos. Ricardo correu. — Pai! Mãe! Antônio o segurou. — Fica aqui! Ricardo encarou o rosto do pai e, pela primeira vez, viu algo que nunca tinha visto. Medo. Mas não por si. Por algo que vinha. Pedro, atrás dele, também entendia. Aquele ataque não tinha sido aleatório. E a vida de Antônio Garcia… tinha acabado de rachar. O barulho dos tiros ainda parecia ecoar nos ouvidos de Ricardo quando os homens armados começaram a se mover em volta do pai dele. O caos na praia era absoluto: gente correndo, crianças chorando, cadeiras viradas, guarda-sóis caídos. O mar, indiferente, continuava quebrando nas pedras como se nada tivesse acontecido. Ricardo tentava respirar. — Pai… você tá machucado? perguntou, passando as mãos pelo corpo de Antônio, como se pudesse encontrar um buraco invisível. — Eu tô bem: Antônio respondeu, segurando os ombros do filho. Sua mãe? Isabela estava sentada na areia, ainda em choque, mas sem ferimentos. Dois homens de preto estavam agachados perto dela, atentos, olhando em volta como cães de guarda. — Dona Isa tá inteira, chefe, um deles disse. Ricardo congelou por um segundo. Chefe? Não senhor? Não doutor? Não senhor Garcia?mas chefe? Outro homem se aproximou, falando rápido, nervoso: — Patrão, os caras vieram de carro, rajada curta, coisa de intimidação. Placa fria. Já sumiram. Patrão. Ricardo sentiu o estômago afundar. Ele olhou para Pedro, que também havia notado. — Você ouviu isso? Ricardo murmurou. — Ouvi — Pedro respondeu, baixo. — Eles tão falando igual… — parou, como se tivesse medo de terminar a frase. Igual gente do morro. Os homens tinham postura de soldados, mas a forma de falar, as gírias, o jeito de se mover… aquilo não era de segurança corporativa. — Tá suave agora, chefe; disse outro, olhando em volta. — Mas é melhor a gente tirar vocês daqui. Mó vacilo ficar exposto assim. Antônio assentiu, tenso. Ricardo sentiu um frio na nuca. Foi então que ele lembrou da mulher. A mulher n***a. Ele olhou em volta, procurando-a. Ela estava mais afastada agora, com a filha ao lado, fingindo interesse em um vendedor de água de coco. Mas os olhos dela estavam cravados neles. em Antônio especificamente e em Ricardo. O olhar da mulher corria pelo corpo de Isabela como se procurasse um ferimento. Quando percebeu que todos estavam inteiros, algo em seu rosto mudou. Alívio. Pedro também notou. — Tá vendo aquilo? ele murmurou. — O quê? — A mulher. Ela tava tensa… agora parece que… relaxou. Ricardo seguiu o olhar do amigo. Mas então, num movimento quase imperceptível, a mulher desviou os olhos para Antônio. E ali não havia ódio. Havia… preocupação. O tipo de preocupação que só existe quando alguém importa. A filha, a jovem de olhos verdes, observava tudo em silêncio, o rosto aliviado, como se aquilo confirmasse algo que ela já sabia. Ricardo sentiu um arrepio. — Pedro… aquilo não faz sentido. — Nada disso faz sentido. Um dos homens se aproximou de Antônio. — Chefe, os aliados tão chegando pra fazer a contenção. Melhor vazar antes que a polícia encoste. — Aliados? Ricardo pensou. Antônio percebeu o olhar do filho. — Depois eu explico, ele disse rápido demais. Ricardo não respondeu. Mas dentro dele, algo começava a se quebrar. Aquela não era a primeira vez que alguém queria matar seu pai. E aquelas pessoas… não eram apenas seguranças. E aquela mulher… Ela sabia disso. O sol continuava brilhando. Mas a sombra já estava lançada sobre tudo.
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