SOFIA NARRANDO — Eu vou morrer. — murmurei baixo, só pra mim, trancada dentro do banheiro do meu apartamento. — A Sol vai me matar. Minha mão tremia, mesmo sem cigarro, mesmo com o copo de vinho encostado na pia há meia hora. Fiquei encarando meu reflexo no espelho. Olheiras fundas, cabelo preso daquele jeito porco, e o vestido preto ainda pendurado na cadeira da sala. Do enterro. Do que sobrou do Roberto. A imagem do caixão lacrado ainda tava grudada na minha cabeça. Fechado. Selado. Carbonizado. Um caixão que nem precisava de flores, porque ninguém ia abrir. Só enfeite. Aquilo não foi velório, foi um teatro. Cheio de figurante. Empresário, político, mulher de tudo quanto é idade chorando. Aposto que a metade era amante. A secretária dele, então… a fulana chorava como se tivesse perdi

