Capítulo 16 - Habitat Natural

1673 Palavras
Os estalos graves de cada bala ao impregnarem no alvo à vários metros de distância de mim, produziam um efeito poderoso sob minha pele. Adrenalina. Injetada quase que intantaneamente, na mesma rapidez das mensagens enviadas do cérebro para todo o meu corpo causando satisfação. Eu precisava canalizar tudo o que estava sentido, e usar ao meu favor. Transformar o desuso em uso. Dissolver o conflito em uma resolução eficaz, e então em bons resultados. Eu não conseguia raciocinar corretamente, de acordo com o julgamento de Dylan, eu estava deixando os sentimentos me envolverem por completo. Eu não tinha que agir desumanamente, apenas precisava organizar minhas emoções, e ao invés de deixá-las me dominarem, eu as controlarei. Estava no caminho disso, e o pontapé inicial sempre foi, para mim, em um studio como este, onde pudesse extravasar a raiva sem consequências. — Por um momento achei que meus tímpanos estourariam — a voz de Kirby me puxa para fora da bolha. Recolho minhas mãos no corpo, abandono a pistola e retiro os fones protetores. — Se preparando para encontrar seu irmão? — E como está o seu? — tiro os óculos, e finalmente me viro para ela. — Perguntou por você ontem, por que não foi visitá-lo? David quase o deixa louco! — nos encostamos numa parede. Respiro fundo antes de olhá-la nos olhos. — Eu sinto a perda dele como se tivesse sido eu mesma que tivesse os executados... — ela franze o cenho. — Kate, isso é ridículo. — Sua expressão severa me diverte, me advertendo de pensar assim. — Estou tentando trabalhar isso. — Descontando a raiva em nada? — acena para os alvos de papel muito além de nós duas. — Você vai na próxima missão? — Estou contando com isso, você irá cobrir Steve, não é? — ela assente. — Quando eu voltar, eu o verei. — Ela nada diz, mas aceita a resposta de sua pergunta anterior. Suspiro dramaticamente, buscando a alça da minha mochila no chão, e escapando dali rapidamente. Eu ainda precisava de um banho, antes de me encontrar com os outros, para a reunião. David devia estar com os outros, ele se dava bem com as pessoas facilmente, se enturmar é um hobby seu, sua facilidade de comunicação dera fruto para várias amizades. Lilian o acompanhava quase sempre em suas idas ao pátio, onde todos se reuniam para o jantar. Lá, os veteranos conversavam, dividiam histórias, e até riam sobre qualquer coisa, juntos. Eu não me sinto tão bem em público, talvez fosse meu lado antissocial falando mais alto, ou apenas fosse uma preferência momentânea, já que selecionalmente gostava de estar com alguém. Automaticamente me lembro do Dylam, onde será que ele estava? Tobias devia estar jantando no quartel ao lado de Bucky, Mathew podia estar paquerando alguma veterena daqui. Mas e Dylan? A academia não ficava muito longe do Studio de tiros, não faria m*l visitar o bloco para saber dele, não é? As lembranças de nossa última conversa me abatem levemente, como se uma parte minúscula de mim repudiasse a ideia de vê-lo. Mas assim que escuto seus rugidos, ao espancar incansavelmente um saco de pancadas, qualquer que tenha sido meus últimos pensamentos, são anulados instantaneamente. Seus músculos estavam inchados, a regata que usava os deixava expostos. Sua pele molhada pelo o suor era também notado de longe, pelo o brilho leve que a cobria diante da luz fraca da sala. Seus cabelos estavam espetados para todos os lados ao seu redor, e mesmo assim, era o homem mais lindo que já vi. Ele dá um último golpe, aquele que vibra a corrente que segurava o peso do saco, e ela se rompe, fazendo o saco atingir o chão, uns quatro metros longe do seu corpo. — Eu iria me oferecer, mas acho que não quero voltar para a enfermaria — chamo a sua atenção, e ele aparenta não estar surpreso de me ver ali, ou havia me notado esse tempo todo o observar. — É tão eficaz quanto atirar em alvos de papel — sua voz é entrecortada pela falta de fôlego. Então, ele estava me ouvindo surtar usando uma pistola como se fosse um rifle. — Cada um tem seu próprio hábitat natural. Encosto minha coluna na parede, deslizando até o chão sobre seu olhar avaliador. Ele engancha o saco no suspensório e volta a socá-lo, porém com menos emoção que antes. — Hum — lambo os lábios ao perceber que a vista melhora de onde estou. — Não gosto que me assistam. — Por que você me odeia? — ele erra um golpe, mas continua como se eu não tivesse percebido. O que isso significa? — E por que acha que sabe alguma coisa sobre mim? — Sua calça moletom marcava um pouco de seu bumbum. Como eu queria dissipar toda essa tensão corporal em uma noite com você, Dylan Prier... — Hum — por que tenho que responder suas perguntas se ele não responde as minhas? Que fique na dúvida também! — Preciso de um banho — me ergo em pé novamente, arrastando minha mochila até a porta. — Eu tenho uma teoria — ele fala com se estivesse incomodado. — Sobre o quê? — me equilibro preguiçosamente no portal. — Feche a porta. – Manda. Ele saca as luvas da mão e consequentemente me sinto nervosa. Ele começa a se aproximar e eu não sabia o que pensar sobre o que pediu e sobre o que estava fazendo, mas o fiz, ansiosamente. Largo minha mochila ao chão o olhando desconfiada. Minha consciência sussurra que com certeza não era sobre o assunto que impus. — Helena está sendo tirada de foco, com toda essa bagunça. — Sim — concordo respirando fundo, tentando me concentrar no que ele estava querendo me mostrar. Dylan estava pacificamente dividindo seus pensamentos comigo, isso era novo e bom, muito bom. — A chave para resolver tudo isso é ela. — Tecnicamente. — E ela está ficando em segundo plano, todas as vezes que temos algo para resolver. — Eu já entendi o que está querendo dizer, mas o que você quer fazer sobre isso? — dou mais um passo a sua frente, estávamos tão perto que compartilhavamos o calor de nossos corpos. Consequentemente me sentia mais tensa. — Devíamos montar uma equipe independente. — Uma equipe que continue as buscas e a outra que lide com as consequências, basicamente limpando essa bagunça enquanto o motivo principal não é corrompido pelas consequências. — Continuo seu raciocínio como quem lia um trecho pré-escrito. Meus olhos se colidem com os seus e no mesmo segundo capturo um bilho de divertimento em seu globo n***o, e isso me contagia instantaneamente. Que bom que ele notou que nós somos melhores juntos, e não brigando feito gato e cachorro o tempo todo. — Deixa comigo, Prier. — Lhe jogo uma piscadela antes de deixar a sala quase que sem fôlego. Tobias resmunga soprando um palavrão abafado pela sua mão. Ele não estava gostando da ideia de dividirmos a equipe. Quando eu contei, ele surtou, e chamou Dylan para saber de sua opinião, e ficou ainda mais revoltado em ver que na verdade foi ideia do próprio. — Isso é perigoso — conclue. — Mas é necessário. — Adverto antes de mais uma reclamação. — Não temos escolha — Dylan assume uma feição despreocupada, enquanto observo Tobias limpar a garganta para falar mais, mas é interrompido outra vez. — Todo dia algo novo acontece, nos afastando do objetivo inicial. Algo está estranho nisso. — E então, autoriza? — David suspira, atento. Ele também concorda com a ideia. — Eu não tenho autorização para submetê-los às suas vontades. Estamos sob a jurisdição de Victor aqui, esqueceram? — estava bom demais pra ser verdade. — Diga logo o que pretende. — Dylan insiste. E eu continuo sem entender a conexão entre os pensamentos dos dois. Eles sempre se entendem com mais facilidade que o normal, não me admira eles quererem advinhar os passos um do outro. — Posso mandá-los numa missão de reconhecimento, seriam breviamente equipados à carater, e então seria daí por diante pela suas contas em risco. — Dylan brevemente troca um olhar comigo, apenas dou de ombros. Isso não seria problema. O importante era a Helena e seu filho, nenhuma consequência seria mais importante que a certeza da segurança deles. E acredito que este pensamento valia por todos, ao perceber que David assente para o aviso como se aceitasse-o. — Certo, irei providenciar. Levem apenas o necessário, e conto com vocês. — Também contamos com você. — Ele acena positivo para mim, nos dando as costas, mas antes de abrir a porta, ele nos encara por cima do ombro dramaticamente. — Estarão sozinhos depois disso. Todo esse tempo lutávamos como se estivessémos com as mãos atadas. Ser nomeada e juridicamente pertencer à uma facção, significava estar sob sua tutela e abaixo das vontades de seu líder, mesmo que temporariamente. Foi o que interceptou os desejos de Steve ao ter de se submeter ao mandato de Victor, que mesmo sendo seu irmão ainda era o seu líder. Victor não necessariamente compraria uma guerra com eles, seus conselheiros transformaria qualquer decisão sua numa burocracia sem fim, causando mais e mais impertinência para resolvermos isso. A reunião de hoje se trataria disso, em como contornariamos a situação enquanto era ainda decidido a forma como tomariamos o controle dos objetivos iniciais. Contudo, os nossos inimigos não sentariam e esperariam por uma decisão nossa, e era para isso que estávamos indo à luta. Não tivemos mais notícias de Helena, há semanas que este circo estava armado, estamos apenas nos defendendo, enquanto eles escolhiam as cartas. Até o meu irmão supostamente morto havia entrado nesta batalha, nos deixando sem ação e sem o que pensar. Helena e seu filho era a cartada final da família Prier, e nós a teríamos. Nós lhe daremos a escolha, e com isso resolveríamos metade da confusão, senão toda a confusão. E com sorte, viveríamos em seguida para contar essa história.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR