Capítulo 17 - Despedida

1116 Palavras
Os porta-retratos ainda continham as mesmas fotos. Sua organização e perfeccionismo podiam serem notados nos primeiros detalhes de sua sala, a pilha de pastas em cima da mesa, as canetas enfileiradas, seus equipamentos em ordem decrescente por tamanho e especialidades nas bancadas, até as provetas. Uma música tocava baixo, ela não gostava de barulho, não sem antes algumas doses de uísque. Seus olhos se estreiram para mim, me avaliando rapidamente, e depois volta sua atenção para algo que escrevia numa pequena agenda. — Achei que não viria me ver. — Foi o que disse, e soava tão decepcionada. É claro que ela estava. — Desculpe, é minha especialidade enrolar com minhas obrigações. — Isso eu não te ensinei, e eu não sabia que me enxergava como uma obrigação. – Ela entortou os lábios. — Você me ensinou a ter educação, e eu soube que cuidou de mim na enfermaria, então no mínimo deveria vir te agradecer. — Tanto faz — ela puxa os óculos do rosto e me olha novamente, se erguendo preguiçosamente da cadeira. Ela fazia isso quando se sentia incomodada com alguma situação. Cambaleou para outra mesa mexendo em alguns objetos. — Como está lidando com as informações sobre seu irmão? – e como sempre, ela é direta. — Antes, você sabia de alguma coisa? — lhe observei atentamente, mas eu sei que ela nunca mentiria pra mim. Ou ela nunca conseguiria pois eu a conheço muito bem. — Lembro de Tobias me rondar com perguntas sobre ele, quando você decidiu partir. Ele parecia saber de algo, fazia perguntas específicas... — abre uma pasta, folhea as páginas desinteressadamente como se minha presença não fosse nada demais. Ela é uma das pessoas mais orgulhosas que conheço. — É, já discuti com ele sobre isso. É confuso — ela para seus movimentos. —, me sinto i****a. — Por quê? — me encara. — Meu irmão está morto, aquele homem não é ele — ela respira dramaticamente. — Gosto de como enxerga a situação — é tudo o que diz, depois de muito tempo em silêncio. — É a forma que encontrei de não enlouquecer, eu acho. Preciso fazer minha parte pra resolver essa merda. — Veio me pedir o que dessa vez? — suspiro. — Dá última vez que nos encontramos, você trabalhava com um sistema de reconhecimento inteligente. – Ela continua inerte, apenas me ouvindo. — Conseguiu desenvolver o programa? — Para que, exatamente, você usaria? — Precisamos encontrar a Helena. — Entendo. — Ela joga a pasta na mesa e se vira para mim. — Katherina, eu nunca julguei suas decisões, é claro que expressei meu ponto de vista sobre seus passos enquanto ainda estava aqui, mas isso é diferente. — Eu sei o que vai dizer... — Eu lhe dei habilidades específicas, mas também lhe dei orgulho. — Puxo o ar e o seguro no peito. Ela sempre fala a mesma coisa. — Lhe dei as ferramentas e o conhecimento adequado para utilizá-las. Uma arma só é uma arma quando é usada para ser uma. — Você não me tornou assassina. — Mas lhe dei o que precisava para ser. – Ela pigarreou. — De vez em quando Tobias entra em contato para me falar sobre você, ele também se culpa por... — Você e o Tobias são iguais, vivem tomando minhas responsabilidades para si, é irritante, eu não sou uma criança! — dou meia volta para ir em direção a porta, mas meu corpo é puxado para trás. Agora estávamos cara a cara, tão próximas, mas ainda tão distantes. — Sei que se culpa por tudo, sei que se sente impotente, mesmo sabendo tudo o que tem em suas mãos. — Eu não tenho nada... — a voz me falha. — eu só sinto dor, e... — Eu não me arrependo de nada, eu sei que você faz o que julga ser o certo, afinal eu te ensinei a pensar por conta própria, muitas vezes não se importando com as consequências. Você era uma menina tão doce, e estava sofrendo. Você tem essa associação emocional quando se lembra do seu irmão. Por isso está se sentindo assim. Precisa lembrar que agora você é forte e inteligente. Está mais que preparada para lidar com essas situações! Suas mãos largam os meus braços, e me acariciam no rosto. Eu senti a parede desmoronar aos meus pés, e me vi puxando-a para os meus braços. Carol era para mim aquilo que chamamos de porto-seguro. Com ela não havia fingimentos, nem mentiras. Com ela era puro e simples. — Você é capaz. — Eu não sei se consigo — sussurro. — O quê? — me aperta com força. — Ser apenas uma agente — soluço. —, todos esperam que eu seja a Kate de sempre, pronta para apontar uma arma para ele... — Lembre de suas próprias palavras. Ele não é mais aquele rapaz que está em suas memórias... — ela sussura de volta. — E se nos vermos? — Esteja preparada para tudo. – Ela disse, convicta. Eu apenas assenti, me recompondo. Em poucos minutos nós estaremos longe e por conta própria. Tínhamos que conseguir qualquer informação. Alguma coisa que nos ponha na direção certa. — Sigam as coordenadas, elas estão configuradas no automático, não vou poder estar online com vocês quando partirem, senão poderiam rastrear vocês, então mantenham o modo furtivo. — Bucky termina de acrescentar, com um olhar penoso para nós, como se nunca mais fôssemos nos ver, e eu carregava a mesma sensação. Para onde quer que tudo isso nos leve, terá de ser assim. Faríamos de tudo para encontrar Helena. — Obrigada por tudo — ele acena positivo para mim, e então David faz um toque de mãos com ele. — Devemos muito à você! — ah, sim, muito mesmo. Foram tantas missões... Quem diria que todo aquele estresse viraria uma nostalgia como esse sentimento em meu peito. — Cuida da Kirby — sussurro de mais perto. Os outros funcionários não poderiam desconfiar daquela despedida. — Pode deixar — responde baixo, com as bochechas vermelhas. — Dylan — ele cumprimenta o moreno atrás de mim. — Nerd da cadeira — Dylan retribui, e eu estava por fora desse apelido. Bucky se afasta com um sorriso leve no rosto. Ele acreditava que conseguiríamos voltar pra casa, repetira isso muitas vezes após contarmos nossos verdadeiros planos. — Até daqui à algumas horas — disse por fim, quando já estava perto dos outros funcionários, que terminavam de abastecer o Quinjet. — Prontos?! — pergunto. Dylan põe o fone e eu sigo para o painel. David fecha as portas, e o portão de saída no fim do túnel se abrira. — Vamos nessa!
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