Capítulo 18 - Brincando comigo

2577 Palavras
Só estávamos há uma hora longe do complexo de Victor, e eu já estava surtando com a personalidade de David. — Isso funciona muito bem — David elogia, dedilhando o display, estapeio sua mão para que pare. — Foi da sua tutora? — É da minha tutora, prometi que iria devolver — ele sorre assentindo. — Ótimo, o lugar não é tão longe, só estamos à alguns minutos de lá, essa nave é veloz. — Qual é o nome da cidade? — Dylan questiona estressado. Ele pilotava bem, mas parecia sem prática. Estava tendo dificuldades com os controles e se estressou por eu me oferecer a tomar seu lugar, alegando ser capaz de prosseguir. — Kiev — respondo, e percebo David fazer uma expressão esquisita. — Hum — o moreno resmunga. — Vocês conhecem? — e esse nome me era familiar. — Foi aqui a última missão do Gustan... — oh, sim! Como pude esquecer?! Gustan foi um importante m****o de nossa equipe que infelizmente perdeu a vida durante uma missão. Ele e David eram muito apegados. — Eu vou, conheço a cidade e as regiões, já decorei as rotas e... — me adianto, imagino que estar aqui já seja doloroso demais para David. Dylan apenas se concentrava no caminho. — Não — o loiro me interrompe. —, eu irei, conheço tudo aqui como a palma da minha mão. — Mantenha o foco. — É tudo o que Dylan diz. — Eu trouxe a minha moto, você não vai saber pilotá-la... — aciono a porta que dava para a pequena garagem. — Eu sei pilotar ela, relaxa, Kate! — o encaro boquiaberta. — Você já pilotou a minha moto? — cruzo os braços tentando manter a calma. — Ressentimento faz m*l ao coração, Kate... — ele coça a nuca sem graça. — Maldito... — escolho lhe dar às costas. Sigo até a cadeira ao lado de Dylan, e checo as horas. — Se prepare, vamos pousar tempo o suficiente apenas para você sair, foque no que precisa fazer e nada à mais que isso. Apareça no local combinado assim que concluir a missão. — Entendido! Ele desce para o cômodo de baixo. Ele não levaria nenhum meio de comunicação, estaria por conta própria durante a missão. Se ele sofresse algum tipo de emboscada, não daria para nos rastrear, esse era o ponto. — Acha que já está bom? Olho para o moreno ao meu lado, preocupada por ele já estar parando o veículo, ainda estava muito alto para ele pular. Minha moto não poderia sofrer tanto impacto, ela era preparada para isso, mas eu ainda tinha um apego forte por ela. Montei ela inteira junto de Tobias, foi um lance significativo. — Irritante... — sussurra, concentrado. Reviro os olhos e sigo até onde o loiro já estava posicionado. — Acelera tudo, e incline seu peso para trás, para não capotar. — Pouso minha mão no botão que abrirá a porta. — Me pergunto se você está preocupada mais com a moto do que comigo... — ele ri, e então o motor range feroz. — Você não é tão burro quanto pensei que fosse — brinco, apertando o botão. O vento forte bagunça meus cabelos. — VAI! — e então ele salta. Fecho a porta imediatamente. Volto para perto de Dylan, observando que meu amigo i****a havia conseguido pousar sem problemas, indo com tudo em direção à capital da Ucrânia. A missão dele era simples, ele precisava entrar em contato com um antigo informante de Tobias, com quem Gustan já trabalhou, essa pessoa iria nos dizer se sabia algo sobre o que estava havendo entre as facções, e se ele tem informações adicionais que nos ajude. E se ele concordasse em nos ajudar, talvez teríamos mais chances de encontrar a Helena sem mais distrações. Ficaríamos nos limites de Kiev, à espera de David. Eu teria tempo o suficiente para aprender melhor a configurar o pequeno aparelho de Carol, um software capaz de localizar qualquer coisa, com o mínimo de informações. Tudo o que precisávamos fazer era lhe dar um padrão, e o programa estudaria o ritmo e reconheceria os passos, nos dando um ponto de partida. Nossa tarefa se resumia em reunir cada informação que pudermos, das mais básicas às cruciais. E em poucas horas teríamos uma direção para seguir. Estávamos apostando tudo nisso! — Ele já deve estar dentro — faço a observação, sentindo a ansiedade tomar-me todo o ar, desejando que aquele i****a volte ileso. — Seu notebook, já está logado no sistema dessa coisa? — ele pousa a nave no local combinado e olha para mim. — Sim, ele é rápido de fazer a leitura — sinto meus dedos tremerem, enquanto dedilho o teclado. — Como funciona? — ele se interessa. Umideço os lábios, e limpo a garganta. De repente, noto que ficaremos sozinhos nesse local isolado por tempo o suficiente para me deixar nervosa. — É um algoritmo, uma linguagem de programação que lê o mundo. — Ele estreita os olhos para o monitor, como se não tivesse entendido o que eu disse. — O século XXI é um livro online, Carol estudou por anos até aprender tudo o que é necessário para lê-lo, decodificar os padrões, cada vez mais preciso... Podemos encontrar alguém, ou alguma coisa, acessar informações de contas bancárias, acompanhar os passos de um universitário canadense, se alguém espirrar vamos saber quem limpou seu nariz. Só preciso enviar o básico para o sistema, fotos, arquivos de vídeo, descrição de perfil, hábitos; países, cidades e lugares que já visitou, qualquer coisa... — Isso parece ser perigoso, é uma arma moderna perfeita, isso nem deveria existir. Em mãos erradas seria o fim de muita gente — é tudo o que ele diz, com sua costumeira cara de b***a. — O estrago que esse pen drive pode provocar é o mesmo de sua pistola — respondo, ele apenas dá de ombros. E sem mais delongas, começo o meu trabalho. — Vou dar uma olhada lá fora. — Aceno concordando e então volto a me concentrar em meu notebook. A próxima hora foi longa e tensa. Dylan estava confiante em David, toda vez que menciono minhas inseguranças no loiro ele me xinga e diz que estou sendo i****a. Aquele cabeça oca era esperto, sabia lutar tão bem quanto nosso professor, ele tinha seu próprio instinto de sobrevivência, mas eu pensei que poderia ter ficado emocionado pelo o local por causa do Gustan. — Dor de cabeça... — murmuro, me inclinando para minha mochila, talvez tivesse enfiado algum analgésico nos bolsos. — Terminou com aquilo? — pergunta-me, outra vez. Respiro fundo, o observando por cima do ombro. — Sim... Volto a caçar um remédio na bolsa, mas nada. Decido me contentar com apenas água, talvez fosse por estar concentrada demais na tela do computador, e já iria passar a dor. — Também já pilotei sua moto — ele comenta calmamente, como se comentasse sobre o tempo. Bufo, lhe dando meu pior olhar assassino. — Logo você? Isso é injusto, nunca peguei nada seu! — Isso não é verdade — ele se senta no piso da nave, enquanto que permaneço na cadeira, bebendo tranquilamente minha água. — Nunca invadi seu espaço pessoal, e a minha moto é sagrada. Você é um hipócrita de merda, aceite seu julgamento. — Dou de ombros, cruzando as pernas. Capturo o momento exato em que ele estreita os olhos para as minhas coxas. Ah, Dylan... — Não que não tenha tentado — algo no seu olhar me fez querer pagar para saber no que ele estava pensando. Talvez ele estivesse insinuando sobre minhas investidas. — Eu não faço nada que não seja consentido — retruquei, com deboche. — Hum — fez, retirando sua jaqueta preta. Permito-me fazer uma breve avaliação física. Ele também estava com seu uniforme, que obviamente era preto, composto por uma camisa de mangas curtas, uma calça e seu coldre de coxa, armado. — Se ela se negar a ficar com a gente, o que acontece? — pergunto, me referindo a Helena. — Não pensei nisso. — Franzo o cenho, e ele percebe. — Estou focado em executar a missão, não temos que pensar no que vem depois dela ainda. — Só que, essa não é uma missão qualquer — ele nada diz, talvez concorde comigo. — Penso que ela espera que Eduard decida pelo os dois. — Ele não seria capaz de deixar a facção. — É isso o que me preocupa — ele dá de ombros. — Confio nele porque ele quer o bem dela, mas no seu avô é outra história. O líder tem suas influências na máfia, com ou sem laços, e ele não se importa com as consequências, desde que saia ganhando. Eduard é fraco em relação à isso, e é totalmente dependente das vontades do avô. Helena é independente, ela vai exigir uma posição dele. Mas é a sua família, e não a minha. Você sabe melhor do que eu. — Quando usa a palavra família, também se refere ao seu irmão? — e então noto que talvez ele não goste dessa palavra. — Ele tem haver com a associação. – Dei de ombros e ele parece aceitar a resposta. — O que meu avô ganharia provocando Victor com as mortes? – Ele perguntou de forma reflexiva. — Eu tenho uma teoria sobre isso... — suspiro, pois não estava acostumada a dividir meus pensamentos com o moreno. — Fale — engulo em seco, olhando para o chão. — Tente ver por essa perspectiva — eu sabia que dentre todos, ele me entenderia com mais facilidade, por agora compartilharmos fatos parecidos sobre um ao outro. — A bomba, pode ter sido uma distração, apenas. — De quem? — E se não foi seu avô quem explodiu o complexo? — Quem você pensa que foi? — ele estreita o olhar. — Se Victor for com tudo pra cima deles, a fim de vingar as mortes, os Prier's terão dois problemas para resolver, o desaparecimento de Helena e um confronto. Victor, desde o começo quando decidiu nos ajudar, quis manter as formalidades, e não queria matar ninguém. E eu acredito que você só saiu daquele complexo porque eles deixaram. — Acha que meu avô me deixou sair? — eu assenti. — Você desconfia de mim ou deles? — Não consigo achar um motivo para desconfiar de você, mas como você mesmo disse, era bem capaz de você virar prisioneiro, e futuramente, uma moeda de troca, caso ele precisasse de Tobias ou da influência dele para com Victor. — Ele acena uma vez, como se estivesse entendendo meu ponto de vista. — Hum, e sobre a bomba? — Os próprios Yakusa. — Faz sentido. – Ele disse, me deixando totalmente surpresa. Me senti empolgada para continuar falando meus pensamentos. — Mikhael deve estar fazendo negócios com o México assim como antes já fez como Tobias disse, e depois da possibilidade de eles estarem com a Helena, podendo ela ser a filha de um gangster poderoso e influente, ele ficaria do lado de quem negocia, e então traiu seu avô para não perder a confiança dos mexicanos. — Estou curioso, você pensou nisso tudo desde qual momento? — ele olhou para mim, da cabeça aos pés. — Desde nossa conversa na academia, quando você mencionou que estávamos nos distraindo. Olhei as mesmas situações com perspectivas diferentes. — Hum — ele ofega, passando a mão no rosto, parecendo impaciente. — Eu só não entendo como Helena se encaixa em tudo isso... Mesmo com o boato de que ela possa ser a filha de um m****o importante da mafia mexicana. Se esse boato é tão antigo, por que só agora resolveram de fazer algo a respeito? Por causa da gravidez? — Não vejo como esse detalhe ajuda. — Ele dá de ombros, e eu reviro meus olhos. — Ajuda porque nos deixaria à frente na situação. Ela passou anos trabalhando como hacker, antes de se casar com Eduard e entrar para uma facção americana. Eles tiveram sim oportunidade de contatar ela antes, e acha que ela mesma não teria ido atrás de sua origem? Ela sempre foi esperta, seu próprio "sequestro" não deixou rastros, pra mim tudo isso não há sentido algum — ele acena negativo, amassando a própria jaqueta no colo. — Tem três facções nessa história. Se fomos tentar achar sentido nisso, vamos elouquecer e acabar não resolvendo nada. Vamos continuar com o que estamos fazendo, encontrar a localização de Helena e buscá-la. — Era um ponto importante. — O que quer que esteja acontecendo entres as gangues não é da nossa conta. Fugimos de Victor exatamente por causa disso. — Você tem razão... — ergo-me da cadeira, penteado meus cabelos para trás com os dedos. — Mas isso não quer dizer que não seja importante avaliarmos o que está acontecendo. — De qualquer forma, a informação que David nos trazer irá esclarecer nossa posição — apenas aceno para concordar. David talvez fosse demorar mais um pouco, nós estávamos sem mais tarefa alguma para fazer, senão esperarmos. Sentia-me tensa e hostil para qualquer outro papo estressante, mas também não aguentaria ficar calada o tempo todo. E seus olhares em minha direção pareciam pedir para que jogasse verde com ele, e eu me sentia tentada à isso, por mais que não parecesse hora e nem o lugar certo para esse tipo de coisa. Seria uma distração de todo esse estresse, e por isso me encosto na parede, de frente pra ele, e passo a observá-lo outra vez. Sua pose firme e arrogante era algo nagural seu, o corte de cabelo, o tom preto intenso como o dos seus olhos... Tudo o deixava atraente aos meus olhos. — Perdeu alguma coisa em mim? — ergue uma sobrancelha, com sua expressão petulantemente convencida. Eu nunca o vi puxar tanta conversa comigo. — Ainda estou escolhendo seu castigo por ter pego minha moto. — Cruzo os braços. — Não. Você está me paquerando, como sempre — subo meu olhar para o seu, sentindo meu rosto esquentar levemente. Não que eu tenha vergonha na cara, isso eu não tenho. — Só estava notando que está armado — sorri debochada. Ele estava jogando comigo, e eu irei apostar alto. — Eu sempre estou armado — rebate, ignorando o duplo sentido. Será que ele estava entrando na minha? — Está com medo das minhas intenções, Prier? — ele me olha de cima abaixo, impassível. — Não tenho medo de nada. — Todo mundo tem medo de alguma coisa — por que será que ele nunca cedeu para mim? Eu caminhei até o meio da sala. — Está tentando me intimidar? — ele ri, e meu coração bate forte por isso. Eu não estou acostumada com seus sorrisos, mesmo que sejam de deboche. — Você está brincando comigo — observei em voz alta. — Não estou fazendo nada. — Estala a língua. — Tudo bem — dou de ombros, puxando o zíper do meu macacão, despreocupada. Estava com uma blusa fina, branca, de alsinhas, por baixo. Qual era o problema nisso? Está calor. Não olhei em seus olhos, enquanto me livrava das mangas, deixando-as penduradas na cintura. Volto a sentar na cadeira de antes, abrindo meu computador, percebendo meu decote sinuante no reflexo do monitor. Meus s***s também apontavam no tecido, pois não estava usando sutiã. Pois bem, se o seu jogo era provocar, espero que ele esteja ciente de com quem ele estava jogando.
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