Capítulo 4

1615 Palavras
Capítulo 4 LUNA NARRANDO Abri os olhos e o carro para devagar demais. Será que eu desmaiei? O silêncio pesa quando o motor morre. Não tem música. Não tem conversa. Só o barulho da minha respiração curta, nervosa, e o som distante de uma televisão ligada em alguma casa. Levanto a cabeça devagar. Meu estômago despenca antes mesmo de eu ter certeza. Eu conheço essa rua. O poste quebrado. A calçada irregular. A sombra da árvore torta projetada no muro. Minha casa. Olho para o Coiote assustada. — Não… — sussurro, sentindo o corpo inteiro gelar. — Aqui não. Ele não responde. A porta do carro abre com um clique seco. O ar da rua entra pesado, quente, trazendo junto um cheiro que eu reconheceria em qualquer lugar. Álcool. — Desce — a voz dele sai fria. Sem raiva. Sem pressa. Sem emoção. Meu corpo não obedece. As pernas parecem presas ao banco. As mãos suam. O coração bate tão forte que dói. — Por favor… — tento, a voz falhando. — Você disse que ia me escutar. — Eu disse pra descer caralhö! Tomar no cü porrä! Ele segura meu braço e me puxa pra fora. Não machuca. Não precisa. A força tá na decisão. No fato de que ele já escolheu. Meus pés tocam o chão. A porta do carro fecha. E a porta da casa abre. Meu pai aparece no mesmo segundo, como se estivesse esperando. Camisa aberta, barriga à mostra, olhos vermelhos, sorriso torto. A garrafa na mão. — Eu te disse que você não ia longe se tentasse — ele ri, satisfeito. — Sempre vou te achar. Olho pro Coiote. Desespero puro. Meu peito aperta tanto que parece que vai rasgar. — Não faz isso comigo — imploro. — Eu te contei tudo. Ele não me olha. Meu pai se aproxima, passa o braço pesado pelos meus ombros, apertando forte demais pra ser carinho. — Tá vendo? — ele fala no meu ouvido. — Ninguém quer você do lado vadiä, só eu te aguento. E tu ainda é ingrata! — Para… — tento me soltar. — Me solta. — Cala a boca — ele rosna. — Eu tô falando. Meu pai estende a mão pro Coiote, rindo como se fossem velhos conhecidos. — Trouxe ela de volta — o Coiote diz, frio. — Do jeito que você pediu. — Valeu, irmão. Homem de palavra é outra coisa. Valeu por trazer essa putä. Sabia que podia confiar. Coiote aperta a mão dele. Sem hesitar. Sem olhar pra mim. — Cuida do que é teu, não tenho tempo pra isso. Meu mundo desaba. — NÃO! — grito. — Eu fugi dele! Eu fugi pra não morrer! Meu pai me puxa pelos cabelos, a dor explode no couro cabeludo, e enquanto ele me arrasta, eu vejo Coiote virar de costas. Indo embora. Como se eu nunca tivesse existido. — NÃO ME DEIXA! NÃO FAZ ISSO COMIGO! Ele não olha pra trás. Meu pai aperta meu braço com uma força absurda. A dor explode. A mão dele sobe, marcando, invadindo. — Achou que ia se esconder? — ele ri. — Achou que algum homem ia te salvar? Ingênua! — Agora vou te ensinar que não se deve desobedecer o papai aqui. — Não… — tento me soltar, mas o corpo não responde. — Não, por favor... Sou arrastada pra dentro. A porta bate atrás de mim. O som ecoa alto demais. O ar some. A luz apaga. O mundo escurece. — NÃO! — grito com tudo que ainda tenho. E a última coisa que eu sinto é a mão do meu pai subindo pelo meu braço, possessiva, nojenta. ( ... ) Acordo sentando num pulo, o grito preso na garganta, o peito queimando, o corpo inteiro tremendo como se ainda estivesse sendo segurada. Demora alguns segundos pra eu entender. Não tem cheiro de álcool. Não tem a voz dele. Não tem aquela casa. O teto é outro. As paredes são outras. Foi um pesadelo. Só um pesadelo. Ou pelo menos é isso que eu tento convencer meu corpo a acreditar. Meu corpo inteiro dói. Como se eu tivesse apanhado de novo. Tento me levantar rápido demais e uma tontura me atinge em cheio. A cabeça gira, o estômago revira. Solto um gemido baixo e me apoio no colchão. É quando eu vejo. Ele tá aqui. Sentado numa poltrona, de frente pra cama. Coiote. A luz fraca do cômodo desenha o rosto dele em sombras duras. Ele tá com o corpo jogado pra trás, uma perna apoiada no chão, a outra relaxada, o cotovelo no braço da poltrona. Um baseadö aceso entre os dedos, a fumaça subindo lenta. O celular na outra mão. A expressão… meu Deus. Cara fechada. Maxilar travado. Olhar pesado. Daqueles que dão medo mesmo quando a pessoa tá parada. Meu corpo inteiro enrijece. — Que porrä é essa, ficou louca? — ele rosna, dando uma tragada funda e levantando o olhar direto pra mim. O coração quase sai pela boca. — Onde eu tô? — pergunto, a voz fraca, a garganta seca. Ele solta o ar pela boca, impaciente. — Tu acordou achando que tava no spa, caralhö? Engulo seco. O quarto é pequeno. Simples. Uma cama de casal onde eu tô deitada, uma cômoda velha, a poltrona onde ele tá, uma janela pequena fechada. A porta fechada. Fechada. O pânico tenta subir de novo. — Eu… — tento falar, mas ele me corta. — Tu chegou desmaiando, dando trabalho pra caralhö — ele diz, ríspido. — Primeira noite e já apagou no meu colo. Pra minha casa que eu não ia te levar. Tá achando que isso aqui é o quê? Sento devagar na cama, abraçando o próprio corpo sem perceber. — Eu não pedi pra desmaiar — rebato, a voz tremendo. — Meu corpo só… — Não me interessa — ele corta de novo, mais duro. — Aqui ninguém faz nada sem me avisar e eu autorizar. Tu já começou errado. — Então eu tinha que pedir autorização para desmaiar? — escapa de mim, antes que eu consiga segurar. Ele estreita os olhos. — Cuidado com o tom, mina. — Eu só… — respiro fundo. — Eu acordei achando que você tinha me entregado pra ele. O silêncio cai pesado. Ele me encara por alguns segundos longos demais. A fumaça do baseadö sobe entre nós. — Que porrä tu tá falando? — Eu sonhei — explico rápido, a voz embargada. — Que você me entregava pra ele. Que vocês eram amigos. O rosto dele endurece ainda mais. — Ele quem porrä? Tá falando de quem? — Ninguém, só um pesadelo. — Fodä-se se foi pesadelo, não te perguntei. Meu estômago aperta. Eu abaixo o olhar, sentindo aquele velho impulso de me encolher. De me fazer pequena. Ele percebe. O silêncio pesa de novo. — Por que eu tô aqui? — pergunto, mudando de assunto antes que eu desmonte. — Porque tu apagou — ele responde simples. — E eu não ia te largar na boca desacordada. — Isso aqui é sua casa? Ele faz uma careta. — Não. Meu coração acelera. — Então é onde? — Um canto que eu uso quando eu quero comer putä e não quero gente enchendo o saco. — Eu posso ir embora? — pergunto, quase num sussurro. Ele me encara como se eu tivesse contado uma piada rüim. — Agora? — ele pergunta. — Tu mäl fica em pé. — Eu não quero dar trabalho… — Tu já deu filhona — ele corta. — Agora senta aí e fica quieta e só fala ou faz algo quando eu mandar. O tom manda. Não pede. — Você não manda mim. — digo, mesmo sabendo que ia cutucar onça. O maxilar dele trava. — Tu não me testa porrä — ele avisa. — Já tô putö em ter que perder tempo te trazendo aqui. — Eu não pedi pra você me trazer — retruco. — Você que decidiu. Ele levanta de repente. A poltrona range. Meu corpo reage no reflexo, encolhendo. — Tu ta querendo levar umas porradas? Tu perdeu a noção pra falar assim comigo? Apesar que tu já tá acostumada apanhar né? Deve tá sentindo falta e tá caçando. Ele passa a mão pelo rosto, nervoso. Anda de um lado pro outro do quarto. — Eu só queria um lugar pra morar — falo. — Só isso. — Eu não sou imobiliária. E muito menos abrigo. Ele para perto da porta. — Eu vou sair — ele diz. — Antes que eu faça merdä. — Que tipo de merdä? Ele abre a porta, me olha por cima do ombro. O olhar escuro, carregado. — De meter a mão em você do jeito que tu tá acostumada. Meu corpo inteiro gela. — Não fala assim… — minha voz falha. — É a verdade — ele rosna. — Tu tá me testando. E eu não sou um homem paciente. Ele sai. A porta bate. O som ecoa pelo quarto pequeno, me fazendo estremecer. Fico sozinha. Ou quase. Demoro alguns segundos pra perceber. O clique metálico. Levanto devagar, o coração disparado. Vou até a porta. Tento a maçaneta. Trancada. Meu estômago despenca. — Coiote…? — chamo, a voz saindo fraca. Nada. Bato de leve. — Ei… — a mão treme. — Você trancou? Silêncio. Escorrego a testa contra a madeira fria da porta. O pânico volta com tudo, misturado com raiva, confusão e medo. Eu fugi de uma prisão pra acordar em outra. E o pior de tudo? Eu não sei se ele trancou pra me proteger. Ou pra garantir que eu não vá embora. E essa dúvida me dá mais medo do que qualquer pesadelo.
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