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Capítulo 1
COIOTE NARRANDO
O bar tá cheio, mas dentro de mim tá vazio pra caralhö.
Sento na cadeira de plástico. A long neck suando entre meus dedos, o baseado aceso queimando devagar, espalhando fumaça no ar. Pagode antigo tocando, desses que falam de fidelidade, de amor eterno… sempre achei engraçado como essas músicas mentem pra um caralhö.
Bolador tá do meu lado. Fernando pra mãe dele. Aqui, não. Aqui ele é meu braço direito. O cara que resolve sem fazer muito barulho. Que olha antes de agir. Que pensa enquanto eu já decidi.
Dou um trago no baseadö.
Solto devagar.
— Faz mais um ano hoje — digo, sem olhar pra ninguém. Com a cabeça meio baixa.
Bolador entende na hora. Encosta o cotovelo na mesa, pega a cerveja dele.
— Eu sei. — ele respondeu virando a garrafa de cerveja.
Meu pai morreu na data de hoje.
A alguns anos atrás.
Não de doença.
Não de acidente.
Assassinado.
Tiro no peito e na cabeça.
Pelo amante da mulher que jurou amar ele até o fim da vida.
Minha mãe.
— Mais um ano… — murmuro em voz baixa. — E ainda parece que foi ontem.
O gosto da cerveja desce amargo. Não é a bebida. Sou eu.
E esse ódio malditö guardado no peito.
Minha mãe traiu meu pai. Fugiu com outro homem. Deixou tudo pra trás como se nós fôssemos um fardo pesado demais pra ela.
E o desgraçadö que se enfiou na cama dela foi o mesmo que armou pra matar meu pai.
Inimigö nosso.
Covarde.
Filho da putä.
— Se tu continuar se cobrando desse jeito, vai acabar se perdendo — Bolador fala, tentando soar leve. — Tu fez o que podia.
Solto uma risada curta. Sem humor.
— Não fiz o suficiente. — Olho pra ele pela primeira vez. — Homem que perde o pai desse jeito nunca faz o suficiente.
Dou outro trago. A fumaça sobe.
Minha mente vai junto.
Eu aprendi cedo que amor é fraqueza. Que confiar é dar munição pro outro te acertar. Minha mãe provou isso. O mundo real me provou isso. A vida só faz questão de reforçar na minha mente.
— Amor não constrói nada — digo, mais pra mim do que pra ele. — Só destrói.
Bolador me encara em silêncio. Ele sempre tenta me puxar de volta quando percebe que eu tô indo fundo demais.
— Nem todo mundo é igual — ele arrisca em dizer. Eu só dei um meio sorriso desacreditado.
— É sim. — Bebo mais um gole. — Só muda o tempo e a forma da traição.
Olho em volta. O morro funcionando como de costume. Gente rindo. Tudo sob controle. Tudo no meu ritmo.
Isso eu sei fazer.
Controlar.
— Tu virou o homem que virou porque precisava — ele continua. — Não porque quis. Sabe bem disso!
— Eu quis sobreviver — respondo, sério. — E sobreviver aqui não deixa espaço pra sentimento. Muito menos pra amar. Tu sabe bem disso.
Passo a mão pelo rosto, cansado. O peso do meu passado nunca some. Só aprendi a conviver com ele.
— Hoje eu mando. Hoje eu decido. Hoje ninguém encosta em nada que é meu sem permissão. — Dou um meio sorriso torto.
— Esse é o preço de não amar. Pega visão, Bolador!
Bolador levanta a long neck.
— Então bebe por ele — ele diz em voz baixa. — Pelo homem que te fez assim. Esse cara sem coração aí.
Encosto minha garrafa na dele.
— Por ele.
Bebi, mas logo em seguida senti um arrepio estranho. Bagulho louco, parada que nunca senti antes.
Deixei passar. Nem comentei nada com Fernando. Minha mente já estava pilhada demais no dia de hoje.
— Porrä! É a Melissa. — escutei a voz baixa do Fernando.
Minha irmã surge perto do balcão como se esse lugar fosse tranquilo. Dezoito anos recém-feitos e uma coragem que me tira do sério. Roupa curta, postura confiante, sorriso solto demais pro tipo de gente que frequenta esse bar.
Meu estômago fecha.
O álcool esquenta nas veias.
O meu sangue começa a ferver.
— Caralhö… — rosno, já me mexendo na cadeira.
— Coiote, na boa irmão... — ele me encarou e eu já me liguei na merma hora. — Deixa que eu cuido dela.
— Aqui não é lugar pra ela — respondo com a voz baixa. — Nunca foi. Ela sabe disso.
Olho em volta e vejo o que eu já esperava ver: olhos demais em cima dela.
Já estava me levantando. Quando ele segurou meu ombro e me fez sentar novamente.
— Eu cuido dela, confia em mim!
Confiança.
Ele sabe como essa palavra pesa muito sobre mim.
Solto o braço dele do meu ombro devagar, mas não tirei os olhos da minha irmã. Melissa ri de alguma coisa, pede uma bebida.
Como se não tivesse aprendido desde cedo que aqui não é lugar pra ela.
Dou outro gole longo. Minha cabeça gira, mas meu instinto está em alerta. Sempre estão.
Bolador caminha até ela. Fica perto demais pra ser só vigilância. Meu maxilar trava. O ciúme não é só de irmão. É territorial. É instintivo. É meu jeito errado de proteger a única coisa que ainda presta na minha vida.
Encosto as costas na cadeira, trago o baseado de novo. Tento respirar. Falho.
Homem que perdeu tudo não sabe proteger sem exagerar. Sem controlar demais. Eu sou paranóico mermo.
Observei de longe a relutância da Melissa.
Bolador falava alguma coisa, gesticulando, tentando conter a situação.
E a filha da putä?
Só debochava.
Levantei na merma hora e fui direto na reta deles.
— Mete o pé pra casa, Melissa. O Bolador vai te levar.
Ela me encarou com os olhos apreensivos. Tentou me abraçar.
— Me deixa curtir um pouco? Por favor, Coiote. Para de ser assim… é sexta-feira, todo mundo se divertindo. Eu não sou sua prisioneira. Nem sua prioridade.
Na hora, meu sangue ferveu.
Segurei o braço dela com força, acabando com qualquer tentativa de aproximação. Eu tô cheio de ódio, e me conheço.
Não quero machucar ela.
— Pra casa! — falei num tom frio, rude.
— Leva ela. — acenei com a cabeça pro Fernando.
— Juízo. O bagulho vai ser rápido. Daqui a pouco eu tô de volta.
Ele saiu com ela e com outra menina que tava junto. Uma outra que tava junto foi pra outro canto… mas naquela, né? Sorrisinho fácil, simpatia demais.
Menina nova pra caralhö.
E eu não tô nem maluco.
Encosto as costas na cadeira, trago o baseado de novo.
Então um vapor se aproxima. Nervoso. Olho baixo. Respeito e na postura.
— Patrão… tem uma menina querendo subir.
Não levanto o olhar na hora. Dou um gole na long neck.
— Subir? — deixei escapar uma risada baixa, sem humor algum.
— Ninguém sobe sem eu liberar.
O vapor engole seco.
— Eu sei. Por isso vim avisar.
Finalmente encaro ele.
— Quem é ela, qual nome?
— Disse que se chama Luna. Chegou agora. Tá com mala.
Mala já é um problema.
— Eu não autorizei ninguém novo a subir — respondo, firme. — Ela fica lá embaixo.
— Ela insistiu.
Um meio sorriso torto puxa meu canto de boca.
— Insistiu?
— Disse que precisa falar com o dono.
Aperto a garrafa com mais força.
— E tu disse o quê?
— Que aqui quem manda é você. E que, se o senhor quisesse, ia descer.
Apago o baseado com calma. Levanto.
— Fez certo.
Não é curiosidade que me move. É controle. Se tem alguém parado na minha porta, eu quero saber por quê. E que é.
— Onde ela tá?
— Na barreira.
Pego a chave da moto.
— Ninguém encosta nela. — Minha voz desce. — Ninguém fala com ela. Ela fica lá até eu chegar.
(...)
Desço a viela sem pressa. O motor da moto ronca. No Vidigal, som também é linguagem.
Paro na barreira.
Desço.
E a menina tá ali.
Sozinha.
Loira. Vestido colado marcando o corpo, deslocada demais pro lugar. Uma mala numa mão, mochila pesada nas costas. Não anda. Não senta. Espera de cabeça baixa.
Meu olhar percorre o corpo e o rosto dela.
Roxo abaixo do olho.
Arranhões recentes nos braços.
Um corte com pontos perto da cabeça.
Meu corpo arrepiou novamente. Mas agora, ela estava olhando pra mim.
— Tu não vai subir — digo, direto.
Ela me encara. Sustenta.
— Eu sei.
As palavras dela me pegaram de surpresa. Dou um passo à frente.
— Então por que ainda tá aqui?
— Porque se só você pode decidir — ela responde, firme. — Eu preciso falar com você.
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