Capítulo 2
LUNA NARRANDO
Momentos antes…
Eu sempre soube que o dia que eu fugisse de casa não ia ser bonito.
Só não imaginava que ia ser tão silencioso.
Silencioso por dentro.
O barulho vinha de fora. Da televisão alta demais. Do copo batendo na mesa. Da voz dele embolada, xingando alguém que nem estava ali. Meu pai sempre foi assim quando bebia. E ele bebia quase todos os dias. Quando não bebia, descontava. Quando bebia, perdia o controle de vez.
Eu estava sentada na cama, no escuro, com a mochila encostada na parede. Pronta. Sempre esteve pronta. Roupas dobradas do jeito que dava. Documentos num envelope plástico. Um pouco de dinheiro escondido no forro. Dinheiro que eu fui juntando aos poucos, fazendo bico, vendendo coisa minha, guardando troco de mercado. Era pouco, mas era o suficiente pra sumir.
Eu só estava esperando o momento.
E ele veio.
A porta do meu quarto abriu com força. Não bateu. Nunca batia. Meu pai não sabia pedir licença, nem quando eu era criança. Ele entrou tropeçando, cheiro forte de álcool, camisa aberta, olhar pesado.
— Tá se escondendo de mim agora? — a voz grossa, arrastada.
Meu estômago embrulhou na hora. O corpo inteiro ficou em alerta. Aprendi isso cedo. Antes mesmo de aprender a me defender, eu aprendi a perceber quando vinha coisa r**m.
— Não tô me escondendo — respondi baixo, tentando manter a calma. — Só tô no meu quarto.
Ele riu. Um riso feio. Zombando.
— Teu quarto? — apontou em volta. — Tudo aqui é meu. Até você.
Essas palavras nunca pararam de doer. Mesmo depois de tantos anos. Mesmo depois de ouvir mil vezes.
Ele se aproximou demais. Eu recuei até encostar na parede. O coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca.
— Sai daqui, pai — pedi. — Você tá bêbado.
Erro.
Sempre foi erro falar isso.
O rosto dele fechou. A mão veio rápido demais. Não chegou a me bater, mas segurou meu braço com força. Apertou. Forte. Do jeito que deixava marca.
— Não fala assim comigo v***a — ele rosnou. — Eu sou teu pai. E você vai me respeitar.
Meu corpo congelou por um segundo. Um só. Tempo suficiente pra lembrar de todas as vezes que eu fiquei quieta. Que eu abaixei a cabeça. Que eu engoli o choro.
Mas hoje algo dentro de mim quebrou.
Ele tentou me puxar. Eu me debati. Ele perdeu o equilíbrio por causa da bebida, tropeçou na cama, me puxando junto. Foi aqui. Nesse segundo. Que eu vi o objeto em cima do criado-mudo. Um peso de papel de vidro grosso. Eu nem pensei.
Peguei.
Bati.
Não com força pra matar. Mas com força suficiente pra ele soltar meu braço e cair sentado na cama, tonto, xingando.
— Sua desgraçada…
Não esperei ouvir o resto.
Meu corpo se mexeu sozinho. Peguei a mochila, enfiei o celular no bolso, saí do quarto correndo. O som da casa parecia distante. Tudo distante. O mundo inteiro distante.
Abri a porta da rua e saí.
O ar da noite bateu no meu rosto como um tapa. Eu tremia. As pernas quase não me obedeciam. Caminhei rápido, depois corri. Não olhei pra trás. Não podia olhar. Se olhasse, eu voltava. E eu não podia voltar.
Nunca mais.
Entrei no primeiro aplicativo de carro que apareceu no celular. Digitei o endereço com os dedos tremendo. Um lado do Vidigal que eu só conhecia de nome. O lado oposto. Longe demais pra ele pensar em procurar.
Enquanto o carro não chegava, eu me encostei num muro e respirei fundo. O corpo doía. O braço ainda ardia onde ele apertou. O rosto quente. O olho roxo que já estava aqui, de outro dia, parecia pulsar.
Eu não tinha pra onde ir. Não de verdade.
Mas eu tinha um plano.
Eu sempre tive.
Pesquisei durante semanas. Horas e horas escondida, no celular, lendo tudo que aparecia. Notícias. Comentários. Histórias. Eu sabia que o Vidigal tinha dono. Sabia que ele mandava. Sabia que ele era c***l. Sabia que não era lugar pra uma mulher sozinha.
Mesmo assim, eu escolhi ir.
Porque meu pai nunca ia imaginar que eu fosse me enfiar num morro. Nunca. Pra ele, isso era o fundo do poço. O lugar que ele usava pra me ameaçar quando eu não obedecia.
“Se continuar assim, te largo no meio de bandido, em um morro qualquer para virar puta.”
Mal sabia ele.
O carro chegou. Entrei sem olhar muito pro motorista. Dei o endereço. O trajeto pareceu durar uma eternidade. Cada esquina me deixava mais longe da vida que eu conhecia. E mais perto do desconhecido.
Quando desci, o morro parecia outro mundo. A iluminação diferente. O movimento. As pessoas. O som. Meu coração acelerou de novo. Apertei a alça da mochila com força.
Cheguei na barreira.
Dois homens armados. Postura séria. Olhar atento. Eu engoli seco. Mas não voltei. Não podia.
— Boa noite — falei, tentando manter a voz firme.
Um deles me olhou de cima a baixo. Reparou na mala. No meu rosto machucado. Nos meus braços.
— Boa — respondeu curto. — O que tu quer?
— Subir o morro, posso?
— NÃO! Tá achando que é bagunçado assim porrä? E outro quem autoriza essa parada é o patrão.
— Então eu preciso falar com o dono — disse direto. — Com o Coiote.
O nome saiu pesado da minha boca. Eu sabia quem ele era. Sabia o que diziam. Sabia que ele não era homem de conversa fácil. Só não sabia a fisionomia.
O outro soldado arqueou a sobrancelha.
— Como tu sabe o vulgo do patrão?
— Todo mundo sabe. Ele é procurado, eu assisto televisão.
— Falar com ele não é assim, não.
— Eu sei — respondi. — Mas eu preciso.
Eles se entreolharam. Um pegou o rádio.
— Vou avisar. Quem manda aqui é ele, só se ele quiser ele vai descer, porque subir tu não vai, não sem o aval dele.
Eu esperei.
De pé. Sozinha. No meio de um lugar que não me pertencia. O medo subia pela minha espinha, mas junto vinha algo diferente. Uma certeza estranha. Como se eu já tivesse ido longe demais pra desistir.
Minutos depois, o som de moto cortou o ar.
Ele chegou.
Não precisei perguntar quem era. Eu soube na hora.
O jeito que ele parou. O silêncio que se formou ao redor. A forma como todos pareciam se alinhar sem ninguém mandar. Ele desceu da moto com calma. Olhar duro. Presença pesada.
Quando nossos olhos se encontraram, meu corpo arrepiou inteiro. De alerta.
Ele me analisou rápido. Cada detalhe. Como se estivesse lendo algo que eu não sabia escrever.
— Tu não vai subir — ele disse, sem rodeio.
A voz dele era firme. Fria. Não tinha espaço pra negociação aqui.
— Eu sei — respondi.
Vi a surpresa passar rápido pelo rosto dele. Um microsegundo. Mas passou.
— Então por que ainda tá aqui? — ele perguntou, dando um passo à frente.
Meu coração disparou. Mas eu sustentei o olhar.
— Porque se só você pode decidir — minha voz saiu mais firme do que eu esperava — eu preciso falar com você.
Ele ficou em silêncio. Me encarando. O peso desse olhar me atravessava.
— Eu preciso alugar uma casa — continuei. — Tenho dinheiro. Não quero problema. Só preciso subir.
Ele me olhou como se eu fosse louca.
— Já disse que tu não vai subir p***a! Aqui não é lugar pra você.
— Eu sei — repeti. — Mas é o único lugar onde ele não vai me achar.
As palavras escaparam antes que eu pudesse segurar.
Merdä! Falei demais.
Eu vi algo mudar no olhar dele. Não suavizar. Mas focar. Como um predador que encontra uma brecha.
— Quem? — ele perguntou.
— Meu pai.
O silêncio se estendeu. O morro parecia prender a respiração junto comigo.
— Eu não fico devendo favor — falei rápido, antes que ele me cortasse. — Eu pago aluguel. Pago adiantado. Trabalho. Não dou trabalho.
Ele cruzou os braços.
— Tu não sobe.
Meu peito apertou. O medo tentou me dominar. Mas eu não deixei.
— Então me escuta — pedi. — Só isso. Cinco minutos. Eu te explico tudo.
Ele me encarou de cima a baixo mais uma vez. O olhar parou nos machucados. No roxo. Nos pontos.
— Já disse que tu não sobe p***a, tá surda nesse c*****o. — ele disse, a voz mais baixa agora. — Eu mando aqui se tu ainda não entendeu e se eu disse que tu não vai subir, tu não vai.
— Eu sei — respondi. — Por isso eu vim falar com você. Eu vim pedir sua autorização.
Ele ficou aqui, parado, me avaliando. Eu sentia o peso da decisão dele nas minhas costas. Se ele dissesse não, eu não sabia pra onde ir. Não tinha plano B.
— Me escuta — repeti, quase num sussurro. — Depois você decide.
O olhar dele escureceu. Um passo à frente. A distância entre nós diminuiu. Meu coração quase saiu pela boca.
— Aqui quem decide sou eu — ele disse. — E eu já decidi.
Engoli seco.
— Então deixa para decidir depois de me ouvir — rebati. — Porque eu não vou embora.