Empoderamento

1668 Palavras
Tahira não teria acreditado se alguém lhe dissesse que iria à sua primeira festa do pijama aos 23 anos. Na verdade, ainda custava acreditar que havia aceitado o convite de Iara tão facilmente, afinal, a mulher era legal e divertida, mas não eram exatamente amigas. Porém, não conseguia passar mais um fim de semana enfiada na casa de Kaik aguentando as reclamações dele, ou perambulando pela cidade, procurando por um motivo para não enfrentar Kalu. Não que estivesse fugindo do i****a — garantiu para si —, só que a cada dia que passava ficava mais difícil manter o afastamento emocional, e levando em consideração o surto que teve quando o viu com outra garota, estava se deixando envolver pela situação mais do que deveria. O que precisava era voltar a colocar a sua vida em ordem, e não permitir que um homem — principalmente um sonso preguiçoso — a colocasse na posição de tola apaixonada — ou rejeitada. Assim, optou por passar o sábado à noite fazendo algo diferente — e talvez se divertindo — o que a levou ao lugar que estava: parada na frente da casa de Iara, com uma mochila na mão e um nervosismo que revirava o seu estômago. — Ei, você veio mesmo! — Iara a cumprimentou ao abrir a porta, a mulher a abraçou entusiasmada. — E chegou no timing perfeito, Samara acabou de tomar banho. — Com essas palavras enigmáticas e um tanto perturbadoras, puxou a loira pela mão. O pequeno apartamento estava um verdadeiro caos. Samara passeava pela sala com uma toalha envolvendo o corpo e outra, os cabelos, da porta aberta do banheiro dava para ver Tamara secando o cabelo enquanto cantava Kill This Love, BLACKPINK, animadamente. Ao longe, viu Helena colocando um vestido azul, de mangas longas e um decote enorme — que não combinava nem um pouco com uma festa do pijama. Tahira não disse nada, apenas encarou a sua anfitriã com a sobrancelha levantada. — Os planos meio que mudaram. — Iara respondeu à pergunta não feita com um sorriso de orelha a orelha. — Vamos sair! — Não! — recusou sem cerimônia, voltando-se para a porta. — Qual é, Tahira! — Iara foi atrás dela, apressada. — Vai ser divertido e de graça. Temos entradas VIP para a inauguração da Gokudō, é o evento mais esperado das últimas semanas. — Com esse nome, imagino o tipo de público interessado. — Não seja puritana, o nome é só uma... liberdade poética. — Iara justificou, com a voz doce. — O irmão do Samuel é um dos sócios. — Foi assim que conseguiu as entradas VIPs? — não imaginava Samuel como um “amigo gente boa”, aquilo deve ter custado algo, ou iria custar. — Quase isso… — desconversou, mas quando Tahira apertou os lábios em desaprovação e se afastou, Iara abriu o jogo. — Posso ter ganhado os ingressos em troca de mencionar, sutilmente, a inauguração da boate no jornal que trabalho. — Isso não é antiético? — Sou estagiária. — Deu de ombros. — Ainda posso cometer erros. Tahira abriu a boca para debater a relativização da outra, mas foi interrompida por Samara: — Então, amarelo ou rosa? — segurava dois vestidos, colocou um na frente do corpo e depois o outro. — Amarelo — Iara e Tahira responderam em uníssono. — Ok! — ela concordou. — Tamara, anda logo, preciso secar o meu cabelo. — gritou para a colega que rebolava no banheiro. — Vamos, por favor, vai ser divertido! — Iara voltou ao X da questão. — Acabamos de sair de uma semana fodida de provas, é quase nosso dever moral encher a cara de bebida, música e pegação. — Pegação? — Tahira repetiu lentamente, não totalmente avessa à ideia, mas estranhando a ênfase. — Você não namora? — É um relacionamento aberto. — respondeu com simplicidade. — Não trouxe roupa para isso. — Ignorou a resposta, definitivamente não estava ali para questionar os parâmetros do relacionamento de ninguém, por mais incomum que fosse. — Posso te emprestar algo. — Não vestimos o mesmo número. — salientou. — Exato. — Iara deu um sorriso malicioso. — No seu corpo, até a minha roupa mais comportada ficará absurdamente justa, tornando mais sexy tudo isso que Deus te deu. — Sapatos. — Quanto calça? — 39 — respondeu a contragosto. — Perfeito! — Eu só queria uma noite tranquila, com sorvete e uns filmes! — vencida, Tahira lamentou. — Outro dia, querida. — Vitoriosa, Iara a empurrou em direção ao quarto. Sem escolha, sentou na cama enquanto a outra tirava do guarda-roupa várias peças. Acabou escolhendo uma saia de couro vermelho. — A minha b***a nem entra nisso! — Tahira negou. — Verdade, então vamos de vestido. — Voltou a procurar. — Aquele vestido que você usou no Ano Novo, vai ficar legal nela. — Da penteadeira, Helena sugeriu, com muito cuidado, tentava colar os cílios postiços. — Sim! — Iara concordou. — Como pude esquecer dele, o Melga adorou. — Nicholas também. — Helena sorriu. — Obrigada pelo empréstimo. — Disponha. — Iara fitou a morena através do espelho da penteadeira — Por falar em Nicholas, a senhora está me devendo o relato de um ménage. Tahira cogitou a possibilidade de sair do quarto, não tinha certeza se queria saber da vida s****l dos caras que dividiam apartamento com ela, por outro lado, era um ser humano como qualquer outro, tinha a sua curiosidade para saciar. — Não tem muita coisa para contar. — Apesar da maquiagem, o rosto de Helena tingiu-se de vermelho. — Garota, não me obrigue a recorrer à violência, estou no meu limite aqui. — Foi muito bom, não imaginei realmente que existisse alguma química real entre mim e Samuel. — Desviou o olhar das meninas para os cosméticos que arrumava metodicamente na bancada, numa clara demonstração de timidez. — Mas teve, e os dois juntos... — suspirou com nostalgia. — Os dois juntos o quê? — Iara gritou — quero detalhes, mulher! — Detalhes? — Tamara entrou no quarto usando só sutiã e calcinha. — Do ménage. — Oh, sim! — entusiasmada, a morena sentou ao lado de Tahira. — Eles chegaram a se pegar ou só te pegaram? — Aparentemente, os dois são bi. — Garota de sorte! — Tahira acabou deixando escapar. — Nem me fala. — Iara concordou com inveja. — Tenho certeza que não foi a primeira vez do Samuel com um menino, e ele sabia exatamente o que fazer no geral. — Helena continuou. — Fiquei um pouco nervosa de início, Nicholas também, mas as coisas simplesmente fluíram. — O sorriso de contentamento dela deixava muito pouco a imaginação sobre o significado do “fluíram”. — Samuel é do tipo mandão na cama. — Iara lembrou, pegou um vestido longo, preto e branco, do fundo do armário. — Você já ficou com ele? — Tahira perguntou, admirada. Quando Iara lhe entregou a roupa, foi até o espelho enorme que tomava conta de metade da parede do cômodo, encarando a peça com um olhar descrente ao colocá-la na frente do próprio corpo. Duvidava que os seus p****s fossem caber dentro daquilo, entretanto — por algum motivo desconhecido — foi condescendente. Não tinha amigas mulheres, na verdade, amigos em geral. O seu curso era um território masculino — por definição, machista — então, teve que ser melhor que a maioria, mais agressiva e autoritária, para evitar ser soterrada pela avalanche de testosterona. No fim, era uma caminhada solitária, pois de duas uma, ou os caras tinham medo dela, ou a desprezavam por sua excelência. — Iara já pegou o bonde todo. — Quem respondeu foi Tamara — Não perdoou nem o viado do Kaleb. — Estávamos bêbados! — a loira agachou-se no chão para escolher um dos sapatos que estavam debaixo da cama, sem se importar em sujar o roupão branco que usava com a poeira. — Foi divertido, mas é o tipo de coisa que só se faz uma vez na vida. — Você nunca ficou com Nathaniel. — disse Samara ao entrar no quarto. — O banheiro está livre. — Tem razão, a vaca da Tamara chegou lá antes de mim. — Iara levantou com o rosto vermelho pelo esforço. — Para o banho. — disse para Tahira. — Toalha? — Já levo para ti. Tahira não discutiu, apenas saiu do quarto, porém, no caminho, ainda conseguiu ouvir parte da fofoca das meninas: — Agora quero saber sobre o término com Nathaniel. — Não foi um término, Iara. — Tamara corrigiu. — Só paramos de ficar. — Por causa do Leon? — Nathaniel não sabe o que quer, e não tenho mais paciência para esperar ele decidir. Tahira fechou a porta do banheiro, tirou a roupa e ligou o chuveiro maravilhoso, perdendo-se na cascata relaxante. Usou com abundância todos os produtos caros de Iara, em determinado momento, a porta foi aberta por Tamara reclamando da monopolização e Samara com as maquiagens, avisando que terminaria de se arrumar ali, enquanto ela tomava banho. Acabou dando de ombros. Apesar de ser muito territorialista, não era exatamente tímida quanto à nudez, e sentia-se confortável na companhia das garotas. A forma acolhedora e inclusiva como elas faziam questão de tratá-la deixava o seu espírito feliz. Como se só agora pudesse participar de rituais que a sua infância problemática havia-lhe roubado. Foi trabalhoso conseguir se enfiar dentro da roupa, porém, ao ficar pronta — frente ao espelho, com todas as meninas olhando para ela com admiração — Tahira quase agradeceu a Iara pela escolha. — Isso que é um mulherão da p***a! — Iara sorriu. O vestido tinha uma alça só, entrelaçando a dualidade dos tecidos preto e branco no b***o — ainda mais valorizado por ser dois números abaixo do indicado — com uma f***a frontal que terminava estrategicamente um palmo da virilha. Tudo isso completado por uma maquiagem impecável e um salto agulha n***o. Definitivamente, aquela seria a sua noite.
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