Família

1992 Palavras
Maldito acomodado. Tahira pensou ao pegar a bicicleta de Kalu, ainda com a roda r**m, e colocar na caçamba da sua picape. Já havia passado muito tempo desde o acidente e ele ainda não tinha consertado aquilo. No fundo, sabia que não deveria se meter, afinal fez o seu papel de bom samaritano ao oferecer ajuda para consertar a bicicleta no dia do atropelamento, e ele recusou. Mas acontece que Kaluanã não estava se movendo para resolver o problema, e alguma coisa precisava ser feita a respeito. Resmungando sobre homens preguiçosos e a sua idiotice, a loira entrou no carro e partiu para sua missão. Era verdade que procurava um motivo válido para sair de casa — admitiu para si. O resto da semana havia se convertido rapidamente no seu inferno particular, pois m*l conseguia encarar Kalu sem sentir uma vergonha mortal, e ignorá-lo era uma tarefa extremamente difícil, visto que dividiam o mesmo quarto. É claro, Tahira não era burra, percebia que ele também estava tomando algumas medidas para ficar o mais afastado possível dela — chegava em casa cada vez mais tarde nos últimos 3 dias. E parte de si — uma que tratou de sufocar — sentia falta da rotina que tinham estabelecido, não era como se fossem bons amigos, mas aquele constrangimento incômodo era irritante, a deixava apreensiva durante o dia inteiro para ao final das contas recompensá-la com a amarga decepção, pois Kaluanã não lhe dirigia nem mesmo uma palavra. — Droga. — Liberou a sua frustração buzinando, de forma impaciente, para uma minivan que não saia da sua frente. Ela era uma pessoa de conflitos e discussões, não conseguia lidar com a Guerra Fria que a sua relação havia se transformado. Porém, para resolver a situação, teria que encarar a realidade. Além do flagra, o que mais a perturbava era a forma morena, sensual, com cheiro de hortelã e tabaco que a sua mente tinha invocado no auge do seu prazer. Não conseguia encarar o colega de quarto, ainda mais sabendo que havia sido a imagem dele que lhe deu um orgasmo espetacular. ____________________________ O trânsito de sábado era tranquilo, não foi muito difícil atravessar a cidade até os subúrbios. Estacionou no meio fio, em frente a uma casa de dois andares que, diferente das vizinhas, era feita de tijolos. Não tinha muito gramado entre a rua e a porta de entrada, mas eram bem cuidados — igual as trepadeiras que subiam pela lateral do imóvel, seguindo a calha até a pequena varanda do quarto. Não era muito grande e o bairro também poderia ser mais seguro, no entanto, Tahira sorriu ao sentir o contentamento no coração. Era seu lar, mais do que tijolos e telas nas janelas, a casa representava a libertação das regras sufocantes do pai, ou do próprio país natal. Não fora nem um pouco fácil sair de Sunandu, ou enfrentar as suas leis para tirar Kaik das garras de Rasanki, seu pai. Entretanto, ela era inteligente e assim que o irmão completou 18 anos, tratou de correr atrás da emancipação e partir sem olhar para trás. Às vezes sentia falta de Gaaran, perguntava-se o que teria acontecido com o caçula depois da sua saída, mas o medo dele ter se transformado numa cópia do pai a impedia de entrar em contato. — Oras, parece que alguém encontrou o caminho de volta. — O seu irmão saiu pela porta, carregando uma sacola de lixo na mão. Apesar de fazer tranquilamente 30 graus, Kaik usava calça de moletom preto e um casaco da mesma cor, com o emblema de alguma banda de rock que a loira desconhecida. Na primeira semana que pisaram naquele país, onde eram completos anônimos, os irmãos tiveram um surto provocado pelo excesso de liberdade. Tahira acabou por perder a virgindade com um completo desconhecido e Kaik — mais radical — tatuou o rosto. As linhas roxas em volta dos olhos, acima da boca, nariz e bochechas, davam-lhe uma aparência marcante — perfeito para o artista excêntrico que era. — Não posso te deixar muito tempo sem a supervisão de um adulto. — Cruzou os braços na frente do peito, respondendo ao sorriso debochado dele. — E onde está ele, pois só vejo uma pirralha convencida. — Impassível perante o olhar assassino da irmã, foi até a lixeira próxima a caixa de correios e jogou a sacola dentro. — O que aconteceu, os perdedores já te colocaram para fora? Tahira não se importou com as farpas, muito pelo contrário, na escala da sua família as palavras afiadas eram o equivalente a um abraço apertado, ou admissão de saudade. — Nem se eles quisessem com muita força. — Ainda sorrindo, foi até a traseira do carro. — Trouxe uma bicicleta para você consertar. — Oh, Kaik! Pode por favor abrir mão do seu valioso tempo e habilidades que valem milhões quando empregadas na atividade certa, para consertar uma simples bicicleta? — ele recitou usando um tom muito fino, que ela duvidava muito que se comparasse ao seu ou de qualquer outra mulher. — Claro que posso, irmãzinha, afinal, não tenho nada mais importante para fazer nesta linda manhã de sábado. — Ótimo! — ignorando todo o sarcasmo, Tahira pegou a bicicleta e empurrou nas mãos dele. — Só não demore muito, preciso disso para hoje. — Mandona, me explorando! — ele resmungou, mas a seguiu. A casa por dentro era muito bem decorada e com tudo que havia de melhor no mercado. Quando se mudaram — anos atrás — tudo que tinham eram móveis de segunda mão e eletrodomésticos básicos, porém, conforme a carreira de Kaik foi se tornando proeminente, as suas peças mais conhecidas e caras, ambos puderam encher a sala, cozinha, quartos e todas as outras partes, de tudo que desejavam. Tahira fez questão de ter uma cozinha planejada, chão de taco e tetos com pé direito alto. Também mandou instalar banheiras em todos os banheiros da residência, afinal, nascida em uma nação desértica, poder esbanjar água com coisas supérfluas era a realização de um sonho. Em contrapartida, o seu irmão não ligava muito para suas arrumações ou a maneira que o dinheiro era gasto, sempre fora um homem despretensioso. Desde que o seu estúdio estivesse em ordem e pudesse pagar pela matéria-prima que precisava, ficaria satisfeito. Tahira brincou com a ideia de ficar o fim de semana ali, ainda tinha o seu quarto e ter um pouco de privacidade lhe faria bem. Mas desistiu, sabia que estava arrumando outra desculpa para fugir do seu problema com Kaluanã e não era uma covarde. Não podia mais chegar atrasada nas aulas ou dormir às 21h como uma idosa, tudo para evitá-lo. Precisava resolver aquilo, decidiu. No fim das contas estava sendo uma i****a completa por cismar tanto com as suas fantasias, era uma coisa que não podia controlar. E bem, a sua vida s****l não estava exatamente ativa fazia algum tempo. Não era de se surpreender que tivesse invocado o cara que mais convivia. Claro que não sentia atração por Kalu, ele só estava a mão do seu subconsciente por uma questão de regularidade. Pelo amor de Deus, ele era a primeira pessoa que via todas as manhãs, e a última antes de dormir, além do café da manhã passavam os jantares juntos e até se revezavam para ajudar Nicholas e Kaleb com os estudos — ela com as matérias de humanas e ele com as de exatas. Mas por que não Nathaniel ou Samuel? A voz perversa da sua consciência a questionou. A preguiça e passividade nunca fizeram parte do seu gosto — sem falar dos cigarros — só que diferente de Nathan, Kalu era acessível. Apesar de ter se aproximado um pouco do estudante de direito por conta da curiosidade dele pela culinária de Sunandu — vez ou outra lhe ensinava a cozinhar alguns pratos — a linha na areia era muito bem definida, o que existia ali era uma amizade muito fraterna, até mesmo um pouco de admiração, sem falar que o i****a ainda não havia se dado conta de que estava completamente apaixonado por Tamara. Agora com Samuel a coisa era complicada, Tahira criou a teoria de que o moreno era a rainha do pedaço antes dela chegar, ninguém o contrariava ou o tratava com igual grosseria quando ele era um panaca arrogante. Quando ele era detestável, ela não lhe lançava o olhar complacente de Nathaniel, a indiferença silenciosa de Kalu ou os escândalos banhados de palavrões de Kaleb, não, a loira era sarcástica e o enfrentava com a mesma soberba. No fim, Samuel se sentia ameaçado por encontrar um oponente a sua altura, e Tahira não conseguia se imaginar na cama com ele. — Se fizer bem-feito, posso te pagar o almoço. — Ofereceu ao irmão, tentando se ancorar no agora e desligar os seus pensamentos. — E quando foi que não fiz? Ambos saíram pelos fundos da casa, o quintal ali era pequeno, um grande galpão tomava grande parte do terreno. Dentro dele, tinham várias marionetes de madeira, umas em fase inicial — sem forma ou aparente propósito — já outras terminadas, assumindo a forma híbrida entre o animal e o humanoide, com garras e pontas afiadas a mostra. Ela nunca realmente entendeu a arte bizarra do irmão, ou como as pessoas poderiam pagar uma pequena fortuna por uma peça de mau agouro que podia matá-las — sério, literalmente, alguns dos bonecos carregavam facas embebidas de veneno. Mas faziam, e no fim era isso que pagava as contas. — Vou te levar ao Ramen Hashi. — Onde fica isso? — Kaik colocou a bicicleta em uma bancada afastando para o lado alguns braços de madeira e ferramentas. — Perto do campus. — Então, do outro lado da cidade. — Se esticou para pegar uma chave de f***a presa a parede e começou a desatarraxar a roda. — Acho que vou passar. — Você precisa conhecer a cidade, Kaik, sair um pouco de casa. — Olhou em volta com ênfase. — Interagir com outros seres humanos que não sejam feitos de madeira. — As minhas marionetes não me irritam. — Pois é, mas também não atravessam a droga da cidade para saber se está vivo. — respondeu zangada, porém, respirou fundo ao repensar a sua estratégia, empurrá-lo nunca funcionava, a teimosia estava no sangue da família e onde Tahira era agressiva quando obrigada a fazer algo, Kaik simplesmente ignorava e fazia exatamente o que queria. — Você precisa de uma namorada. Sempre sentiu um pouco de culpada pela reclusão do irmão. Ser antissocial poderia cair bem para os negócios — vendendo a imagem de artista eremita — mas a solidão nunca fora boa companhia. Quando criança, era uma condição empurrada goela abaixo dos dois, ambos reagiram à sua maneira: Tahira se tornou uma maníaca por controle, mas Kaik a abraçou como uma velha amiga. A loira temia, no entanto, que a fuga para uma nação diferente da sua, tanto nas regras como na cultura, pudesse ter contribuído para perpetuar o comportamento. Você fez o que precisava ser feito, não fique choramingando por isso. Repreendeu-se em pensamento. — Uma namorada só me traria mais problemas, Deus sabe que já tenho o suficiente com uma irmã extremamente mandona. — i****a! — deu um soco nada gentil no braço dele. — Aí! — passou a mão pelo lugar dolorido — Preciso é que pare de se preocupar comigo. — Isso não vai acontecer. Com um suspiro cansado ele cedeu. — Tudo bem! Vamos ao maldito restaurante do outro lado da cidade. — Nunca realmente conseguiu vencer uma briga contra ela, seja verbal ou física. — Fique sabendo que vou escolher o que tiver de mais caro no cardápio. Tahira quis salientar que o dinheiro era dele de qualquer forma, já que compartilhavam uma conta conjunta e a única renda que entrava era dos seus trabalhos, no entanto, guardou silencia, deixaria que Kaik tivesse aquela pequena vitória.
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