Domingo

2006 Palavras
Kalu estava extremamente cansado, o que era um péssimo sinal considerando que era seu dia de folga. Ser professor universitário demandava muito mais trabalho do que podia imaginar ao aceitar a vaga, especialmente quando se aproximavam das provas de fim de semestre. Porém, para ser fiel à sua natureza preguiçosa, Kaluanã havia decidido a tempos que os domingos seriam seus dias de absoluto ócio. Nada de trabalho acumulado, tarefas domésticas ou aporrinhações, se dedicava àquilo de segunda a sábado, para ter o descanso merecido. O problema é que, nas últimas 3 noites, o que menos estava fazendo era dormir pelo simples fato de que havia — inocentemente — flagrado sua colega de quarto em um momento constrangedor. Agora, tinha que lidar não só com o malabarismo de não se encontrar cara a cara com ela — sim, era um covarde e admitia tranquilamente — como a imagem de Tahira invadia os seus pensamentos todas as vezes que fechava os olhos. E não era como a mulher problemática e agressiva que fazia questão de brigar por quase tudo, e sim uma muito mais perigosa: Uma Tahira fodidamente sexy, de camisola de seda vermelha, rosto ruborizado, gemido rouco e um maldito vibrador entre as pernas. Cacete, quando a sua vida havia ficado tão miseravelmente complicada? O seu maior passatempo transformou-se no pior pesadelo, pois tinha medo de deixar escapar entre um sonho e outro, seu nome — por Deus, já acordara vezes o suficiente com uma ereção para comprovar o quão real era a possibilidade. Precisava resolver aquela merda, não fazia ideia de quantos períodos faltavam para ela cursar, o que significava que ainda podiam dividir o quarto por anos e não tinha a menor condição de arrastar a insônia por todo esse tempo. Já estava começando a afetar a sua saúde mental, até mesmo Nicholas — o mais desligado dos seus amigos — havia percebido as suas mudanças de humor e irritabilidade, algo totalmente oposto à sua personalidade. Ao entrar no Ramen Hashi, Kalu logo avistou Iara e Caio. Ambos escolheram a mesa que ficava no canto do grande restaurante. Não estava tão cheio para um sábado, algumas pessoas transitavam entre as mesas de quatro e seis lugares. Atrás do balcão central, na janela que dava acesso à cozinha, vários papéis estavam pregados e de tempos em tempos o sino era tocado informando a um dos atendentes que o pedido estava pronto. Iara estava discutindo algo com Caio que, não surpreendentemente, já estava comendo algo. — Não vai morrer de fome se esperar mais um pouco para encher a pança! — ouviu a loira esbravejar ao se aproximar da mesa. — Kalu já está chegando. — Foi o que disse 10 minutos atrás. — Resmungou o seu amigo, logo deu uma grande mordida no bolinho de arroz. — Sinceramente, não sei como conseguiu arrumar uma namorada com esses modos. — Deixa ele, Iara. — como um perfeito diplomata, Kalu interferiu. — Não me importo que já tenha feito o pedido. — Pois deveria — ela também o repreendeu, fazendo uma cara emburrada. Conhecia os dois desde criança, os seus pais eram muito amigos em primeiro lugar, então, se juntar a Caio e Iara fora algo natural, mesmo com as suas diferenças. Onde o gorducho não lhe cobrava absolutamente nada, aceitando-o exatamente da forma que era estando sempre disposto a apoiá-lo incondicionalmente, Iara era a força que o impulsionava a fazer coisas novas — confiando totalmente no seu potencial. E se não fosse pelos amigos, não teria se esforçado para prestar o vestibular ainda um adolescente, também não teria iniciado o mestrado, muito menos considerado a proposta da reitora da universidade para lecionar, tão jovem e inseguro. Kalu poderia conformar-se facilmente com a calma mediocridade, porém, fazendo uma retrospectiva da sua vida hoje, era mais que grato pelo que tinha. — Eu preferia o Saito Q. — Caio lamentou, e pela reação de Iara, Kalu tinha certeza que aquela não havia sido a primeira vez. — Novamente, sou uma vegana em iniciação. — respondeu pacientemente. — Entrar em um restaurante de carne grelhada é o tipo de tentação que não posso lidar no momento. — Já que está tão empenhada em se transformar em alguém melhor, não deveria começar punindo os seus amigos, — retorquiu Caio, enfiou uma grande porção de ramen na boca. — Isso é coisa do seu namorado esquisito. — Resmungou. — Melga não é esquisito! — a loira defendeu. Sabendo que aquilo estava longe de terminar, Kalu fez um sinal de mão para Anne, a filha do dono do restaurante, ela pediu um instante, mas logo se aproximou da mesa deles com um sorriso entusiasmado e um bloquinho para anotar os pedidos. — E então, desembucha. — Iara soltou assim que a garçonete se afastou — Por que nos chamou aqui? — Ué, por nada! — Kaluanã respondeu na defensiva. — Não insulte a minha inteligência, Kalu. Te conheço muito bem e você tem espírito de idoso. — Lhe lançou o seu melhor olhar de jornalista investigativa. — Toda vez que quero te arrastar para algum lugar nos fins de semana, tenho que ameaçar, me humilhar, até conseguir um “sim” muito malcriado e várias reclamações durante o rolê. — Se inclinou mais na sua direção, invadindo totalmente o seu espaço pessoal. — Mas então, você nos convida do nada para um almoço em pleno domingo, e vem com esse papo de “por nada”. — Conhecemos a sua cara de “por nada” e ela não é assim. — à sua frente, Caio contribuiu entre uma mordida e outra. — Exatamente, essa é sua cara de “fiz merda, preciso de ajuda, mas vou torturá-los bastante antes de contar o que aconteceu”. — Odiamos essa cara! — novamente, Caio validou o argumento da amiga. Os dois nem parecem que estavam brigando minutos atrás. Kalu pensou, constantemente se surpreendia com a capacidade de ambos de esquecerem os conflitos e unir-se para infernizá-lo. — Preciso de um saquê! — com um suspiro derrotado, deixou os ombros caírem. — p**a merda, aposto que é algo com a colega de quarto. — Iara disse para Caio, solidária, deu tapinhas de encorajamento nas costas de Kaluanã. — Você pode ser muito inteligente, Kalu, mas é um completo i****a quando se trata de mulheres. Ele não fazia ideia de como começar, só o simples pensamento de colocar em palavras já deixava o seu rosto quente. Era embaraçoso demais, e falar sobre o assunto com outra pessoa fazia com que se sentisse um pervertido. Abriu a boca para falar, porém, foi interrompido por Anne com os seus pedidos. Uma vez que tudo estava devidamente servido, ele não pode mais adiar: — Meio que peguei a Tahira, no flagra, se masturbando. De forma rápida e nervosa, explicou toda a situação. Desde a fatídica decisão de dar um pulo em casa na hora do almoço para pegar um livro, até a forma covarde que estava fugindo da colega de quarto. Caio acompanhou tudo de olhos arregalados e rosto vermelho, por outro lado, Iara o interrogou sem dó nem piedade, empurrando e esmiuçando cada pequeno detalhe. — Então só têm ignorado a menina, mesmo dividindo o mesmo quarto? A cada resposta, a postura de Kaluanã se retraia mais e mais, não deveria ter tocado no assunto, nunca havia — voluntariamente — se colocado em uma situação tão vergonhosa. — Sim. — Por isso tem ido lá em casa todas as noites para jantar? — o questionamento veio de Caio. — Realmente gosto da comida da sua namorada. — E também é um p**a covarde! — Iara explodiu, no entanto, segurou a vontade de socar o amigo. — Está agindo como um i****a imaturo, garotas se masturbam tanto quanto garotos, Kalu, isso não deveria ser um tabu e com toda a certeza, você não deveria estar ignorando Tahira como se tivesse pego ela fazendo algo errado. — Sei que preciso conversar com ela, mas não sei como fazer isso, — quase choramingou. — É constrangedor demais. — Concordo, mas evitar o problema não vai fazer com que ele suma. — O seu tom era quase gentil. — Não se conhecem a muito tempo, algo assim pode moldar a relação dos dois de uma forma negativa. — Não temos uma relação. — Claro que tem, são colegas de quarto. — Deu um sorriso complacente, como se estivesse lidando com uma criança burra. — Não deixe que essa situação se arraste até um ponto irremediável. — Falando no d***o! — Caio fez um gesto nada discreto apontando para a entrada. Kalu mudou de posição para que pudesse olhar a porta às suas costas, e lá estava Tahira, entrando no restaurante com o seu passo desafiador, como se fosse a dona do lugar. Com as suas botas de combate, uma calça jeans desbotada e uma blusa curta preta que deixava parte da sua barriga à mostra. Tudo muito justo. Kalu sentiu um tropeço no coração — que associou rapidamente a apreensão pela questão inconveniente que estavam metidos, não atração ou desejo, por imaginá-la de volta naquela cama, excitada, corada e completamente entregue a uma fantasia. — Será que é um encontro? A pergunta de Iara — felizmente — o trouxe de volta a realidade. Desviou o olhar da razão das suas noites m*l dormidas, para se fixar no cara estranho que vinha logo atrás dela. — Outro esquisito. — Caio constatou, e Kaluanã não pode deixar de concordar. Com as roupas pretas e marcas no rosto, o acompanhante dela era infinitamente incomum. Algo pesado e doloroso remexeu-se no estômago de Kalu, será que aquele era o tipo de cara que Tahira curtia? Se bem que nunca o tinha visto antes, e até mesmo Samuel quando namorava Samara a levava ao apartamento algumas vezes. Talvez não fosse nada sério, mas a simples concepção da sua colega de quarto envolvida casualmente com qualquer um que fosse, o irritou. — Conheço esse cara de algum lugar. — Iara soprou ao seu lado, entretanto, a atenção de Kaluanã estava em outro lugar. Podiam ser parentes, só que a aparência dos dois era bem diferente. Onde Tahira era uma loira de olhos verdes, o esquisitão tinha cabelos castanhos e olhos escuros. E novamente, era bem complicado que ele nunca tenha ido visitá-la. Que espécie de irmão abandona uma mulher em uma república com outros cinco caras que não conhecia? — Gostei do estilo dele. — Iara o elogiou, quase ronronando. — Ah, que novidade! — Caio debochou. — Quanto mais bizarro, mais você curte. — Verdade, só nunca imaginei que Tahira compartilhasse desse mesmo fetiche. — Totalmente alheia a reação do amigo ao seu lado, que fervia com uma raiva injustificada, ela continuou. — Será que é um relacionamento fechado? — Isso não é da nossa conta. — Kaluanã respondeu, mais ríspido do que deveria. Recebeu uma levantada de sobrancelha perfeitamente delineada por parte da amiga, porém — graças a Deus — ela não disse mais nada. Logo Caio emendou em uma conversa sobre uma nova boate que abriu no Centro chamada Gokudō, o que levou toda a atenção de Iara Durante o resto do almoço, Kalu lançou olhares ao casal — se irritando cada vez mais a todo segundo que passava. Sempre considerou Tahira uma pessoa fechada, dividiam o maldito quarto fazia semanas e nem mesmo tinham uma amizade. Ela não era do tipo que puxava assunto, nem revelava muito sobre si, também não cometia demonstrações públicas de afeto. Entretanto, com aquele esquisitão ela sorria, confabulava e o tocava. Pareciam íntimos, familiarizados. Iria perguntar a Nicholas e Nathaniel sobre o cara — decidiu — os dois eram mais próximos dela e, com certeza, saberiam se ele fosse da família dela, ou se estavam em um relacionamento. Era uma questão de segurança, afinal, algo dentro de si não tinha ido muito com a cara do sujeito e se ele fosse começar a frequentar a sua casa, deveria saber muito bem de quem se tratava.
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