Pré-visualização gratuita Capítulo 01
REBECA NARRANDO
Eu tinha dez anos quando destruí a vida do meu irmão.
Naquela época, eu não sabia disso.
Para mim, tudo não passava de uma descoberta. Uma curiosidade infantil que começou quando eu encontrei um pacote escondido debaixo da cama dele.
Eu ainda consigo me lembrar daquele dia com uma clareza assustadora.
Era uma tarde de sábado. Meu pai estava trabalhando no escritório de casa. Meu irmão tinha ido jogar bola com os amigos, e eu estava procurando um brinquedo que havia desaparecido do meu quarto.
Revirei gavetas, procurei dentro do armário, embaixo da cama e até atrás da cortina.
Foi quando lembrei que talvez meu irmão tivesse pegado.
Entrei no quarto dele sem pedir autorização.
Meu pai odiava quando entrávamos nos quartos uns dos outros. Dizia que cada pessoa precisava aprender a respeitar o espaço alheio, mas naquela idade eu não ligava muito para regras.
Ajoelhei no chão e comecei a procurar debaixo da cama.
Foi então que minha mão bateu em alguma coisa.
Puxei uma pequena mochila preta.
Eu não reconhecia aquela mochila.
Abri.
E encontrei alguns pacotes.
Naquele momento, eu não fazia ideia do que eram.
Peguei um deles e fiquei olhando.
Era apenas um pó estranho dentro de um plástico.
Eu tinha dez anos. Não sabia absolutamente nada sobre drogas. Não sabia reconhecer cocaína, maconha, crack ou qualquer outra coisa.
Só sabia que aquilo parecia errado.
Muito errado.
Fechei a mochila rapidamente e saí do quarto.
Meu primeiro pensamento foi procurar meu pai.
Ele estava sentado atrás da escrivaninha, lendo alguns documentos com os óculos na ponta do nariz.
— Pai?
Ele levantou os olhos.
— O que foi?
Eu me aproximei devagar.
— Eu achei uma coisa no quarto do meu irmão.
Ele imediatamente largou o documento.
— O quê?
Coloquei a mochila sobre a mesa.
— Estava debaixo da cama dele.
Meu pai abriu a mochila.
Lembro perfeitamente da expressão que apareceu no rosto dele.
Foi como se, em poucos segundos, ele tivesse envelhecido anos.
Ele pegou um dos pacotes, analisou e ficou em silêncio.
— Onde você encontrou isso?
— Debaixo da cama dele.
— Você mexeu nas coisas dele?
Baixei a cabeça.
— Eu estava procurando meu brinquedo.
Ele respirou fundo.
Meu pai sempre foi um homem rígido.
Extremamente rígido.
Desde que eu era pequena, ele me ensinava que o mundo não perdoava erros.
Ele dizia que eu precisava ser forte.
Que gente fraca não crescia na vida.
Que ninguém teria pena de mim quando eu fosse adulta.
E que, se eu quisesse conquistar alguma coisa, teria que estar preparada para trabalhar duas vezes mais do que os outros.
Ele me criou para ser uma profissional excelente e um ser humano ainda mais excepcional.
Não aceitava notas baixas.
Não aceitava mentiras.
Não aceitava falta de respeito.
E muito menos aceitava que eu escondesse alguma coisa dele.
Naquele dia, ele me fez uma única pergunta:
— Você sabe o que é isso?
Balancei a cabeça negativamente.
— Não.
Ele fechou a mochila.
— Vá para o seu quarto.
— Mas, pai...
— Agora, Rebeca.
Obedeci.
Minutos depois, ouvi o telefone sendo usado.
Meu pai chamou a polícia.
Eu só descobri depois.
Naquela noite, meu irmão não voltou para casa como sempre.
Quando finalmente apareceu, havia policiais esperando.
Eu estava escondida atrás da porta da sala, tremendo.
Não entendia o que estava acontecendo.
Não entendia por que meu irmão estava sendo levado.
Não entendia por que ele gritava que aquilo não era dele.
E, principalmente, não entendia por que ele olhava para mim.
Aquele olhar nunca saiu da minha cabeça.
Era raiva.
Era medo.
Era decepção.
E talvez fosse uma pergunta.
Por quê?
Eu não tive coragem de responder.
Meu pai dizia que havia feito o certo.
Que não protegeria um criminoso, nem mesmo se fosse o próprio filho.
Eu acreditava nele.
Eu era apenas uma criança.
Não tinha maturidade para entender as consequências daquela decisão.
Só sabia que meu irmão havia sido levado embora.
E que, de alguma forma, eu tinha sido a pessoa que colocou tudo aquilo em movimento.
Os anos passaram.
E a culpa ficou.
Meu pai continuou me cobrando.
Estudei como nunca.
Quando terminei o ensino médio, contei a ele que queria cursar Direito.
Ele ficou orgulhoso.
Muito orgulhoso.
Lembro até hoje do sorriso que apareceu em seu rosto.
— Eu sabia que você conseguiria, filha.
Ele colocou a mão no meu ombro.
— Você nasceu para isso.
Eu sorri.
Mas ele nunca soube a verdadeira razão.
Nunca desconfiou.
Eu não queria apenas ser advogada.
Eu queria me tornar doutora porque precisava reparar um erro.
O erro que eu havia cometido aos dez anos.
Foram anos estudando.
Noites sem dormir.
Finais de semana trancada em casa.
Provas.
Estágios.
Livros.
Leis.
Jurisprudência.
Enquanto outras pessoas comemoravam o fim de uma semana difícil, eu comemorava quando conseguia terminar mais uma página.
Eu tinha um objetivo.
E ele me mantinha de pé.
Eu precisava estar preparada quando chegasse o momento.
Porque sabia que, algum dia, eu teria que entrar naquele presídio.
Teria que olhar para o meu irmão.
E tentar fazer por ele aquilo que eu deveria ter feito muitos anos antes.
Meu pai morreu há alguns anos.
Foi estranho perder o homem que havia moldado toda a minha vida.
Durante muito tempo, achei que sentiria apenas tristeza.
Mas senti outra coisa também.
Liberdade.
E culpa por sentir liberdade.
Porque, mesmo depois de morto, meu pai continuava presente em tudo.
Na minha maneira de pensar.
Na minha cobrança.
No medo de falhar.
Naquela voz que dizia que gente fraca não cresce na vida.
Durante muito tempo, eu quis ser procuradora da União.
Era o plano perfeito.
Uma carreira sólida.
Prestígio.
Estabilidade.
Era exatamente o tipo de profissão que faria meu pai se sentir orgulhoso.
Mas havia um problema.
Meu irmão.
Eu sabia que, para ajudá-lo de verdade, teria que abandonar o caminho que havia planejado e entrar naquele processo.
E eu tive medo.
Muito medo.
Passei anos adiando.
Dizendo para mim mesma que ainda não era o momento.
Que precisava estudar mais.
Que precisava me preparar melhor.
Que talvez outra pessoa pudesse ajudá-lo.
Mas a verdade era muito mais simples.
Eu fui fraca.
Não tive coragem.
Tive medo do que ele faria quando me visse.
Medo de que me odiasse.
Medo de que nunca me perdoasse.
Medo de olhar para aqueles olhos novamente e enxergar a menina de dez anos que havia entregado o próprio irmão ao destino.
Só que o tempo não parou.
Meu irmão continuou preso.
E eu continuei vivendo.
Até hoje.
Hoje era o grande dia.
O dia do julgamento dele.
E, pela primeira vez em dezesseis anos, eu não podia mais fugir.
Ou eu começava a agir agora...
Ou nunca mais conseguiria ajudá-lo.
Levantei os olhos para o espelho enquanto terminava de prender o cabelo.
Meu rosto estava pálido.
Passei uma camada de maquiagem tentando esconder as olheiras, mas não adiantou muito.
Eu praticamente não havia dormido.
Minha mão tremia enquanto eu tentava colocar os brincos.
Respirei fundo.
— Você consegue.
Minha própria voz parecia estranha.
Olhei para o terno pendurado na porta do quarto.
Preto.
Sóbrio.
Profissional.
Exatamente como eu precisava estar.
Peguei a roupa e me vesti lentamente.
Enquanto abotoava a camisa, minhas mãos começaram a tremer novamente.
Parei.
Fechei os olhos.
Dez anos.
A mochila preta.
Os pacotes.
Meu pai.
A polícia.
Meu irmão sendo levado.
Aquele olhar.
Abri os olhos.
Não.
Eu não podia voltar para aquela menina.
Ela não sabia o que estava fazendo.
Eu sabia.
Eu era adulta agora.
Advogada.
E, pela primeira vez, tinha condições de tentar consertar aquilo.
Peguei minha pasta sobre a mesa.
Dentro dela estavam todos os documentos que eu havia reunido nos últimos meses.
Tudo que poderia me ajudar.
Tudo que eu havia estudado.
Tudo que eu havia preparado.
Passei os dedos sobre a capa da pasta e respirei fundo.
Meu celular vibrou.
Olhei para a tela.
Era uma mensagem lembrando o horário do julgamento.
Meu coração disparou.
Era real.
Não havia mais desculpas.
Peguei minha bolsa, conferi os documentos mais uma vez e caminhei até a porta.
Antes de sair, parei.
Olhei para o quarto vazio.
Por um instante, imaginei meu pai ali.
Talvez ele estivesse orgulhoso.
Talvez não.
Talvez dissesse que eu estava cometendo um erro.
Mas, pela primeira vez na vida, eu não podia me preocupar com o que ele pensaria.
Porque aquela decisão não era sobre ele.
Era sobre meu irmão.
Saí de casa e entrei no carro.
Minhas mãos continuavam tremendo sobre o volante.
Respirei fundo antes de ligar o motor.
Eu passei dezesseis anos me preparando para aquele momento.
Dezesseis anos tentando me tornar alguém forte o suficiente para encarar o passado.
Mas nenhuma prova da faculdade, nenhuma noite de estudo e nenhum livro de Direito poderia me preparar para uma coisa.
O momento em que eu finalmente ficaria frente a frente com ele.
Meu irmão.
O menino que eu amava.
O homem que eu ajudei a perder.
E talvez o homem que jamais pudesse me perdoar.