O frio do asfalto parecia puxar todo o calor do corpo que a Manuela ainda tinha. Ela não dormir, ela havia apagado. O cansaço, a fraqueza, as dores, faziam o corpo dela desligar, levando ela para pesadelos do quais não conseguia acordar. A casa dos Vasconcelos.
— Acorda, vagabunda! Tá achando que aqui é hotel?
A água gelada atingiu Manuela no rosto e uma parte do corpo, foi como facadas. Ela deu um pulo, a respiração presa no peito, os olhos ardiam enquanto tentava focar, se acalmando do susto que tinha levado. Na sua frente havia uma mulher, de uns 45 anos, segurando o balde e uma cara de nojo, raiva.
Eram 06h20 da manhã. O sol ainda era uma promessa pálida no horizonte, mas o movimento de quem trabalhava cedo já começava a ganhar ritmo.
— Aqui não é lugar de mendiga dormir, não. Sai fora antes que eu chame a polícia! — a mulher gritou ], chutando um papelão molhado para perto dos pés descalços de Manu.
A palavra "polícia" agiu como um gatilho. Manuela se levantou com dificuldade, os músculos gritavam, o tornozelo inchado latejando a cada centímetro de movimento. Ela não disse nada. Não tinha voz, não tinha forças para brigar. Apenas recolheu o corpo fraco, sentindo o vestido rasgado grudar na pele molhada, e saiu tropeçando dali.
Parou em um ponto de ônibus próximo, onde algumas pessoas evitavam olhá-la. Ela exalava o cheiro do medo e da rua. Com a mão trêmula, tocou o ombro de uma senhora que esperava o transporte.
— Por favor... — a voz de Manu era um fio. — O Vidigal... em que direção fica o Vidigal?
A senhora a mediu de cima a baixo, entre a pena e a desconfiança.
— Ih, minha filha... Tá longe. Tem que seguir direto por essa avenida. Vai passar por São Conrado, passar pela Rocinha... depois da Rocinha é que você chega lá. Mas desse jeito aí, você não chega nem na esquina.
Manu não esperou o resto do conselho. Ela só precisava de um norte. "Depois da Rocinha". O nome soava como um trovão, mas era o único caminho para sua última chance de sobrevivência.
As duas horas seguintes foram um teste de resistência que nenhum ser humano deveria passar. Cada passo na calçada da avenida era uma tortura. O frio da manhã, a água fria, a fome, deixavam sua visão confusa.
Carros buzinavam no asfalto, indo em direção ao Centro, enquanto ela, um fantasma, rastejava no sentido oposto.
Quando os enormes paredões de casas sobrepostas da Rocinha surgiram no horizonte, a força de Manuela simplesmente evaporou. Ela não chegou ao Vidigal. Suas pernas cederam exatamente na barreira, o ponto de controle na entrada da maior comunidade.
Ela caiu de cara no chão, o som do impacto abafado pela poeira.
— Ih, car;alho! Que p***a é essa? — um vapor jovem, com um rádio no peito e uma pistola na cintura, se aproximou cauteloso.
Ele virou o corpo de Manuela com o pé e, ao ver que era uma garota jovem e completamente destruída, se abaixou. Manu abriu os olhos minimamente. A consciência estava indo embora, mas ela tinha uma última missão.
— Vidigal... — ela sussurrou, a voz morrendo. — Barão...
Com o resto da força que ela tinha, abriu a mão e entregou ao rapaz. Era uma corrente de ouro maciço, algo especifico e ele perdeu o ar por alguns segundos. Ele conhecia aquela joia. Não era uma bijuteria de camelô; era ouro puro, pesado, com os elos característicos que só a cúpula da facção usava.
O rapaz não perdeu tempo. Apertou o rádio.
— Alô, frente? É o 2K. Tem uma mina caída aqui na barreira da 1. Tá malzona, toda rasgada. Mas ó... ela tá segurando uma peça que eu tenho certeza que é da hierarquia. É corrente de herdeiro, do CV. Ela falou "Vidigal" e "Barão".
Do outro lado, a voz de Felix, o dono da Rocinha, veio grossa e imediata:
— Leva ela pro postinho agora! Não deixa ninguém encostar nessa garota. Tô descendo praí.
Manuela sentiu o mundo balançar. O cheiro de álcool, desinfetante começou a invadir seu nariz. Quando a colocaram na maca de metal do posto de saúde da comunidade, ela teve um breve lapso de lucidez.
— Vidigal... por favor... — ela tentou se levantar, mas o corpo era chumbo. — Avisa...
— Calma, moça. Tu tá segura, ta no postinho — disse uma enfermeira, mas Manu já tinha apagado de novo.
Minutos depois, Felix entrou no postinho. Ele era um homem de presença pesada, o rosto marcado por anos de guerra e uma expressão de quem já viu de tudo. O vapor entregou a corrente para ele. Felix segurou o ouro, sentindo o peso. Ele analisou os detalhes, o fecho, o brilho.
— Isso aqui não é qualquer coisa — Felix murmurou, os olhos estreitos. — Isso aqui é herança. É corrente de herdeiro, peça de fundição antiga.
— Ela disse "Vidigal", patrão — o vapor reforçou.
Felix franziu o cenho.
— O Barão... o velho dono do Vidigal... — ele pensou alto. — O Barão só teve um filho, o Titã. Eu conheci o coroa, era amigo do meu pai. Nunca fiquei sabendo de filha nenhuma. Se o Barão teve essa herdeira, ele escondeu muito bem.
Felix pegou o celular. Havia uma dúvida ali que só uma pessoa poderia resolver. Ele discou para o Titã.
No topo do Vidigal, Ravi atendeu no primeiro toque. Sua voz estava carregada, a mesma tensão daquela madrugada na rede ainda presente.
— Fala, Felix. B.O?
— B.O não, Titã. Mas chegou um bagulho aqui na Rocinha que tu precisa ver. Ou ouvir.
— Fala logo, tô sem tempo pra mistério.
— Uma garota, novinha, caiu aqui na minha barreira hoje cedo. Tá por um fio, toda marcada de pancada, acho que tá fugindo, irmão. Mas o estranho não é isso. Ela chegou com um papo de Vidigal e segurando uma corrente, Titã. Mas não é corrente de vapor, não. É ouro de herdeiro, fundição da antiga, do tempo do teu pai.
O silêncio do outro lado da linha foi absoluto. Felix deu uma risadinha ácida, tentando quebrar o clima.
— Pô, parceiro... parece que o Barão pulou a cerca e não contou pra ninguém, hein? Será que tu tem uma irmã perdida por aí? A mina tá aqui chamando pelo Vidigal e segurando o teu brasão de família na mão.
Ravi sentiu o mundo parar. O ar sumiu de seus pulmões por um segundo. Aquela corrente... a corrente que ele jogou pela janela do carro há dez anos.
— Onde ela tá? — a voz de Ravi saiu tão baixa e perigosa que Felix parou de rir na hora.
— Tá no postinho aqui da Rocinha. Os médico tão tentando estabilizar, mas a garota tá m*l de verdade. Tá toda estourada, Titã. Se tu conhece ela...
— Não fala nada pra ninguém, Felix. Nem uma palavra sobre essa corrente ou sobre essa garota pra quem tá aí fora — Ravi disparou, já pegando a chave do carro e o fuzil. — Tô descendo agora. Se um fio de cabelo dela cair enquanto eu não chego, a Rocinha e o Vidigal vão entrar em guerra. Tá me ouvindo? Segura ela.
Felix percebeu o peso da situação. Não era uma irmã. Não era um segredo do pai. Era algo muito mais profundo.
— Entendido, Titã. Ela tá protegida. Voa pra cá.
Ravi desligou o rádio e saiu da sala como um furacão. No corredor, encontrou Trava, que já estava de prontidão ao ver a cara do patrão.
— O que foi, irmão? Invasão?
— Não — Ravi respondeu, os olhos injetados, a mão apertando o fuzil com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Acharam ela, Trava. Acharam a minha Manu.
O ronco da moto berou pelas vielas do Vidigal como um aviso de que o rei estava descendo para buscar o que o mundo tentou roubar dele.
Dez anos de espera estavam prestes a explodir em um único encontro. E quem quer que tivesse machucado a menina da corrente de ouro, já podia encomendar o próprio caixão.