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1186 Palavras
O ronco da minha moto não era um som, era um grito. Eu não tava dirigindo, eu tava rasgando o asfalto da avenida como se eu pudesse atropelar o tempo, como se a minha vida dependesse disso - e de fato, dependia. A moto inclinava nas curvas de um jeito que qualquer um diria que eu tava querendo morrer, mas era o contrário: eu nunca quis tanto estar vivo. Cada segundo daqueles vinte minutos parecia uma hora de tortura. O vento batia no meu rosto, mas eu só sentia o calor do sangue fervendo. "Acharam ela. Acharam a minha pequena." Parei na barreira da Rocinha e nem esperei os moleques falarem nada. Só viram que era eu, o Titã, com a cara de quem ia botar fogo no mundo, e abriram caminho. Subi as ladeiras no rastro, o pneu cantando, até frear bruscamente na porta do postinho. Desci da moto sem nem desligar a chave. Chutei a porta de vidro com toda a força do meu 1,94m. O estrondo fez todo mundo lá dentro pular. — CADÊ ELA? — berrei, e minha voz pareceu um trovão naquele lugar apertado. — CADÊ A MINA QUE CHEGOU COM A CORRENTE? Felix apareceu no corredor e veio rápido na minha direção, botando a mão no meu peito pra me segurar. Eu tava parecendo um animal enjaulado, o fuzil atravessado no peito, a respiração tão forte que eu sentia o gosto de ferro na boca. — Calma, Titã! Calma, por.ra! Ela tá lá dentro, os médicos ainda não deram notícia — Felix disse, me segurando firme. — Me solta, Felix! — Eu puxei o braço esquerdo, aquele que carrega o meu único segredo, e esfreguei o desenho na cara dele. — Olha aqui! Olha pra essa tatuagem! Ela é parecida com essa menina? É ela? Felix olhou pro meu braço, pro rosto da criança sorrindo, e depois olhou pra mim. O semblante dele mudou, ficou sério, quase triste. — Tá diferente, Titã... a vida deve ter sido covarde com ela. Mas os olhos... os olhos de mel são iguais. Parece que é ela, sim. Eu desabei num banco de madeira, sentindo minhas pernas tremerem pela primeira vez em dez anos. Felix sentou do meu lado, o silêncio pesando mais que o armamento que a gente carregava. — Quem é essa mina de verdade, Ravi? — ele perguntou baixo, ninguém nosso nome em voz alta — Tu tá procurando ela há uma década, não tá? — É a única pessoa que importou nesse mundo — respondi, com a voz rouca. — Eu perdi ela naquele dia maldito e nunca mais tive paz, desde o destino quis brincar com a minha cara. Felix limpou o rosto, pensativo. — Agora eu tô ligando os pontos... Lembro do meu coroa comentando que o Barão ligou pra ele, anos atrás. Disse que tu tava perdidinho, que tinha perdido uma pessoa e pediu pro meu pai mandar eu falar contigo, pra tentar te distrair, te focar no morro. Ele contou por cima que o Conselho Tutelar tinha levado uma protegida tua. Eu nunca soube que era tão sério. — Foi o dia que eu morri, Felix. O Titã nasceu no lugar daquele moleque porque eu precisava de poder pra achar ela. E agora ela tá aqui... A porta lateral abriu e uma enfermeira apareceu, com uma prancheta na mão e a cara cansada. — Quem é o responsável pela moça que deu entrada? Eu me levantei antes dela terminar de falar. Eu era uma torre perto daquela mulher. — Sou eu. Como é que ela tá? Fala a verdade. A enfermeira suspirou, olhando pra mim com um misto de medo e dever cumprido. — O estado é crítico, senhor. Ela está muito machucada. Tem marcas de agressões por todo o corpo, algumas antigas e muitas recentes. O pé esquerdo está quebrado, uma fratura feia que vamos precisar avaliar se vai pra cirurgia. Além disso, ela está severamente desidratada e com as vitaminas extremamente baixas. Ela é uma sobrevivente, porque o corpo dela está no limite da exaustão. Meu coração deu um soco no peito. Dei um passo pra frente, a voz falhando: — Ela... — engasguei com a palavra. — Algum desgraçado abusou dela? A enfermeira negou com a cabeça prontamente. — Não encontramos sinais de abuso s****l, mas ela sofreu muita violência física. Pancadas, queimaduras de cigarro e privação de alimento. O ódio que eu senti naquele momento foi algo que eu não sabia que cabia dentro de um homem. Eu ia achar quem fez isso. E eu ia fazer essa pessoa implorar pela morte por mil anos. Mas eu precisava ver ela, eu precisava encostar nela. — Eu quero ver ela. Agora. A enfermeira olhou pro meu fuzil, assustada, mas eu nem dei chance dela negar. Ela apenas assentiu e me levou até o final do corredor.Entrei no quarto e fechei a porta com o pé. O barulho foi seco. Soltei o fuzil no chão, o metal batendo no azulejo, e me debrucei sobre a maca. Meu mundo caiu, o ar sumiu. Tudo parou. Manu tava ali. A minha Manu. A minha menina que amava sorvete e sorria quando eu levava doce. Tão pequena debaixo daqueles lençóis brancos. O rosto, que eu lembrava sendo tão gordinho e sorridente, tava apagado, marcado por um roxo feio no olho e um corte no lábio. Peguei o braço dela com toda a delicadeza que minhas mãos brutas conseguiam ter e vi as cicatrizes, as marcas de queimadura, os rastros de uma vida de dor que ela nunca mereceu - meu corpo tremia, minhas mãos, tudo em mim tremia. Passei a ponta dos dedos no rosto dela, sentindo a pele quente da febre. — Manu... — chamei baixinho, o nome saindo como um gemido. — Sou eu, pequena. O Ravi. Ela não acordou. O peito subia e descia bem devagar. Eu sabia que ela precisava de descanso, que o corpo dela tava lutando pra não apagar de vez. O destino agora me devolveu ela, porém entre o mundo dos vivos e dos mortos. Sentei na poltrona de corino ao lado da maca e segurei a mão dela. Era tão pequena perto da minha. Encaixei meus dedos nos dela e, ali, no silêncio daquele postinho na Rocinha, a armadura do Titã rachou. Senti as lágrimas surgirem e descerem sem controle. Eu não chorava desde o dia que o carro do Conselho Tutelar sumiu na curva da ladeira. Dez anos de ódio, de busca, de solidão... tudo desaguando ali, em cima daquela mãozinha machucada. — Eu não consegui Manu — sussurrei entre os soluços abafados. — Eu prometi e eu não te achei. Mas você voltou, você conseguiu minha pequena, assim como anos atrás. Você continua forte. Ninguém nunca mais vai te encostar o dedo, Manu. Eu vou queimar o mundo por você. Fiquei ali, segurando a mão dela como se, se eu soltasse, ela pudesse sumir de novo. O dono do Vidigal tinha voltado a ser apenas o menino que amava a menina do esgoto. E o acerto de contas com quem fez isso... ah, esse ia ser lendário.
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