O relógio de parede no posto de saúde da Rocinha marcava meio-dia, mas para Ravi, o tempo havia congelado em algum lugar entre a dor do passado, o choque do presente e a brutalidade do que seria o futuro. Ele estava ali na poltrona, um homem enorme, reduzido a um menino com medo, que m*l conseguia soltar a respiração.
O celular, o rádio estavam na comoda e o fuzil no chão. Ambos xiavam e vibravam, porém para Ravi nada mais importava. O Rio de Janeiro podia explodir. Os chamados não paravam, então ele pegou o rádio, quase quebrando o botão do PTT e chamou seu irmão
— Trava? — chamou ele. — Assume tudo aí em cima. Esquece que eu existo pelas próximas horas. Não me liga, não manda mensagem. Depois eu te acerto os detalhes. É uma ordem, por.ra. Se qualquer um chamar, eu vou meter uma bala na cabela.
Ravi desligou o rádio e o jogou no chão,desligando o celular junto. O silêncio voltou a dominar o quarto, quebrado apenas pelo som rítmico do soro e pela respiração curta de Manuela. Ele a observava com uma intensidade devoradora, sentindo o peso de cada cicatriz que via na pele dela. De repente, o corpo pequeno debaixo dos lençóis se mexeu.
Os dedos pequenos de Manu se fecharam no lençol, a força no maximo, dentro dos limites dela. Ela balançava a cabeça de um lado para o outro, o medo exalava da pele dela.
— Não... para... por favor, solta... — a voz dela era um sussurro desesperador. — Me solta... dói... Ravi... ajuda...
Ela começou a se bater, lutando contra fantasmas que Ravi não podia ver. O monitor cardíaco disparou, um bipe agudo que fez o sangue do Titã gelar. Ele se levantou em um sobressalto, o coração batendo na garganta.
— Manu! — ele chamou, a voz travada. — Manu, sou eu! Acorda, pequena! Sou eu, o Ravi!
Ela deu um solavanco, um suspiro profundo de quem finalmente alcança o ar após se afogar. Os olhos de mel se abriram de uma vez, dilatados e perdidos. Lentamente, a cabeça dela virou na direção dele. O olhar percorreu o rosto de Ravi — o rosto que ela guardou na memória por dez anos. Ela viu as cicatrizes da guerra, a barba por fazer e as lágrimas que o dono do Vidigal não conseguia mais conter.
— Ravi? — A pergunta saiu tão frágil que parecia que o vento poderia levá-la.
— Sou eu, pequena. Sou eu.
Manuela levantou a mão tremendo, tocando a bochecha dele, explorando cada traço para ter certeza de que ele era carne e osso. Quando sentiu o calor da pele dele, ela desabou em um choro convulsivo, um desabafo de dez anos de tortura e solidão.
Ravi a puxou para o seu peito com uma força possessiva. Ele enterrou o rosto no cabelo dela, sentindo-a tremer violentamente em seus braços.
— Me perdoa, pequena... — ele sussurrou contra o seu pescoço. — Me perdoa por não ter te achado antes. Eu revirei esse mundo atrás de você, mas eles te apagaram, Manu. Eles te esconderam de mim.
Ele se afastou um pouco, segurando o rosto dela com uma delicadeza absoluta.
— Mas olha pra você... Eu prometi que ia te buscar, mas foi você que me achou. Você cruzou essa cidade e chegou em casa. Você é mais forte do que eu, Manu. Sempre foi. Deita agora, pequena. Descansa. O médico disse que seu corpo tá no limite. Eu tô aqui, do seu lado.
Ele tentou soltar as mãos dela para ajeitá-la nos travesseiros, mas o pânico voltou a brilhar nos olhos de mel. Manuela deu um grito abafado, as mãos pequenas agarrando a camiseta de marca de Ravi com uma força impossível. Ela torceu o tecido entre os dedos, puxando-o de volta com desespero.
— Não! Não me solta! — ela implorou, a voz rasgada. — Se eu soltar, você vai sumir! Eles vão te tirar de mim de novo! Eu não vou te perder, Ravi... eu prefiro morrer do que te perder outra vez! Fica aqui... entra aqui comigo... não me deixa sozinha!
Ravi sentiu um aperto no peito que quase o impediu de respirar. Ele viu que não adiantava prometer; ela precisava sentir que ele era real, que o escudo estava ali.
— Tá bom... tá bom, pequena. Eu não vou soltar. Eu fico aqui.
Sem se importar com o fuzil no chão ou com o que os médicos diriam, Ravi se acomodou na beirada da maca estreita. Com cuidado para não machucar o pé quebrado dela, ele se deitou de lado, ocupando o pouco espaço que havia.
Manuela imediatamente se enroscou nele, apoiando a cabeça no peito do Titã, ouvindo o coração dele bater exatamente sob a tatuagem que ele levava no braço. Suas mãos não afrouxaram o aperto na camiseta dele; ela se agarrou ao tecido como se fosse sua âncora para o mundo dos vivos.
Ravi passou o braço pesado por cima dela, envolvendo-a completamente. Ali, no silêncio daquele quarto, o dono do morro e a menina da viela choraram juntos — lágrimas de alívio, de luto pelo tempo perdido e de uma fúria silenciosa que Ravi jurou converter em justiça.
— Eu tô aqui, Manu — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela. — Pode dormir. O Ravi ta aqui e vai te levar pra casa.
Embalada pelo batimento cardíaco constante do homem que ela esperou por uma década, Manuela finalmente deixou o corpo relaxar. Ela dormiu, mas seus dedos continuaram firmes, presos à camiseta de Ravi, garantindo que, ao acordar, o seu milagre ainda estaria ali.
Já Ravi não dormiu; ele ficou vigiando o sono dela, enquanto em sua mente, ele já começava a planejar o rastro de sangue que deixaria até chegar nos resposáveis.
Quando ela relaxou e os dedos soltaram, Ravi puxando a roupa do hospital, vendo as costas ela, com marcas. O pescoço, o ombro, tinha algumas cicatrizes, algumas ele tinha certeza que seria de cigarro. Ravi sentia a raiva crescendo ele e controlando para que não assustasse Manu.