Ravi continuava ali, deitado naquela maca pequena, sentindo o calor e fragilidade da Manuela no peito dele. O silencio era quebrado pelo monitor e a respiração curta dela.
Ele baixou o olhar, viu o corpo dela sujo, o cabelo com poeira, com nós. A pele que antes era clarinha, estava machucada, suja e grossa. Com cuidado para não acordar ela, ele pegou o celular com uma das mãos. Seus dedos voaram pela tela, enviando ordens expressas para um dos seus vapores de confiança.
"Desce agora na farmácia mais cara. Compra tudo do melhor: shampoo, condicionador, sabonete, hidratante, esponja... não economiza. E manda o pessoal do Vidigal preparar o quarto dos fundos do nosso postinho. O mais afastado, o mais escondido. Quero segurança total e silêncio absoluto. Se alguém abrir o bico, já sabe."
Ele m*l tinha guardado o aparelho quando três batidas curtas surgiram na porta. Ravi sentiu Manuela pular no sono. Um médico de jaleco branco entrou, segurando uma pasta.
— Preciso examinar a paciente, senhor — disse o médico, mantendo uma distância segura.
Ravi inclinou o rosto, beijando a testa de Manu com uma doçura que ninguém no crime acreditaria que ele possuía.
— Pequena... acorda. O médico tá aqui. Precisa te olhar — sussurrou ele.
Manu abriu os olhos devagar, o pânico ameaçando voltar, mas Ravi desceu da maca e ficou de pé ao lado dela, segurando sua mão com firmeza. Ele era uma muralha entre ela e o resto do mundo. O médico se aproximou, analisando um novo exame que acabara de sair.
— O segundo raio-x confirmou minhas suspeitas — começou o doutor, hesitante, talvez com medo do Titã. — A fratura no tornozelo é séria. Houve deslocamento ósseo. Ela vai precisar operar, e tem que ser o quanto antes.
Ravi não piscou. O olhar dele, frio como gelo, travou no médico.
— Ela vai operar, mas não vai ser aqui. Vou levar ela para o meu posto no Vidigal agora. Me entrega tudo: exames, imagens, laudos. Não quero registro nenhum dessa menina aqui na Rocinha. Quero o sistema limpo, como se ela nunca tivesse pisado nesse hospital. Entendeu?
O médico engoliu em seco, sentindo a pressão do ar diminuir sob o encarada do Titã.
— Vou... vou buscar a pasta dela agora mesmo.
Minutos depois, o homem voltou com um envelope pardo. Ravi pegou, abriu e conferiu folha por folha.
— Isso é tudo? — a voz de Ravi saiu como um trovão baixo.
— Sim, senhor. Tudo o que fizemos está aí.
— Escuta bem — Ravi deu um passo à frente, a estatura de quase dois metros fazendo sombra sobre o médico, sacando a pistola — Se eu descobrir que ficou um papel, um rastro, um nome dela esquecido nesse computador, eu volto aqui e mato todo mundo. Sem aviso e deixo você por último.
Ele não esperou resposta. Pegou o rádio e chamou o dono da casa.
— Felix? Preciso de dois homens teus e um carro agora na porta dos fundos. Tô tirando ela daqui. Quero o corredor do posto limpo. Ninguém pode ver o rosto dela. Faz o corre.
Assim que o sinal de Felix veio pelo rádio, Ravi agiu com a precisão de um soldado. Ele colocou a pasta de exames em cima de Manuela, ajustou o fuzil na bandoleira cruzando o peito, guardou o celular e o rádio. Com um movimento fluido, ele a pegou no colo como se ela não pesasse nada.
— A gente vai pra casa, pequena — murmurou ele contra o ouvido dela.
Manu escondeu o rosto no pescoço dele, fechando os olhos com força, deixando que o cheiro de Ravi a guiasse. O corredor estava deserto, exatamente como ele ordenou. Ao chegar no carro, Ravi a ajeitou no banco de trás, mantendo-a em seu colo. Assim que o vapor deu a partida, Ravi sacou a pistola da cintura e encostou o cano frio na nuca do motorista.
— Presta atenção — Ravi disse, a voz desprovida de qualquer emoção, tampando os olhos da Manu, não queria ela visse a arma e ele tão violento assim — Se tu olhar pelo retrovisor, se tu comentar com alguém que viu essa garota, ou se um detalhe desse trajeto sair da tua boca, eu te mato antes de você pedir perdão. Entendeu?
O vapor, suando frio, apenas balançou a cabeça positivamente.
— Entendido, patrão. Foco na pista.
A subida do Vidigal foi rápida. Ravi entrou no postinho da comunidade já gritando ordens. A equipe médica particular dele, paga a peso de ouro para ser a melhor e a mais discreta, já estava de prontidão.
— Pega isso aqui! — Ravi entregou os exames de Manuela para o cirurgião chefe enquanto a deitava em uma maca limpa.
— Vamos fazer novos exames rápidos para confirmar a extensão do dano, patrão — disse o médico do morro. — Se tudo bater, a cirurgia será hoje mesmo. Ela está muito fraca, mas o tornozelo não pode esperar.
Ravi segurou a mão de Manu uma última vez antes de levarem a maca.
— Eu vou estar bem aqui na porta, pequena. Não vou embora. Eles só vão te examinar. Eu prometo.
Ele a viu sumir por trás das portas duplas do centro cirúrgico. Assim que a porta fechou, a postura de Ravi mudou. O "Ravi" carinhoso deu lugar ao "Titã" implacável. Ele se virou e viu Trava entrando no hospital, ofegante.
— p***a, irmão! Que loucura é essa? O morro tá um burburinho... ninguém entende por que você sumiu, tão dizendo que tu plantou o caos na Rocinha, car.alho!
Ravi encostou na parede, o peso de dez anos finalmente desabando sobre seus ombros enquanto ele olhava para as mãos que ainda guardavam o calor de Manuela.
— Eu achei ela, Trava — disse Ravi, com a voz carregada de uma mistura de alívio e ódio puro. — Acharam a Manu na barreira da Rocinha. Ela fugiu de um inferno que a gente nem imagina. Tá toda estourada, vai operar agora.
Ele olhou para o braço, para a tatuagem do rosto da menina sorrindo.
— Mas agora o jogo mudou. Quem fez isso com ela vai descobrir por que o mundo me chama de Titã. Eu vou cobrar cada cicatriz, Trava. Cada uma. Eu preciso que você segure o morro.
Trava, cresceu ali no morro com Titã, ele ja havia visto ele com a Manu quando criança e viu o quanto ele procurou e gastou para achar ela. Sabia que aquilo, seria uma guerra agora, mas que o irmão tinha ganhado vida de volta.
— Fica em paz irmão, cuida dela. Eu vou ficar na frente do morro e a gente mantem isso no sigilo. — Eles fizeram o toque, Trava seguiu para a boca e a Ravi ficou ali na sala, esperando.