Eu odiava hospital. Desde de pivete. O cheiro de álcool, remedio, limpeza me dava raiva, mas era o único lugar que eu precisava estar. Ali eu tinha controle. Estava na cadeira, na sala de espera, os joelhos batendo no meu peito de tão grande que eu era para aquele lugar.
A espera é algo que tortura. Por mim, eu ja tinha chutado a porta com a pistola pedindo informações, mas era a Manu ali. A minha Mnau. Ela precisava de calma, de segurança, de cuidados.
O Trava já tinha descido pra boca; mandei ele assumir a responsabilidade de tudo lá fora, porque o morro não para e eu não tinha cabeça nem pra decidir o que ia jantar, quanto mais pra gerenciar o movimento.
Minha mente não parava. Eu ficava olhando pras minhas mãos — as mesmas mãos que já apertaram gatilhos e decidiram o destino de muita gente — e elas tavam tremendo de leve. Eu continuava olhando praquela porta fechada e sentia uma agonia que fuzil nenhum resolvia: eu não sabia o que tinha acontecido com ela nesses dez anos.
Eu via as marcas, as cicatrizes, o pânico nos olhos dela, mas o "quem", o "onde" e o "como" ainda eram buracos negros que me queimavam por dentro. Ela não tinha falado nada, e eu não tive coragem de perguntar ainda. Como sempre, ela chegou bagunçando o meu mundo e era uma bagunça que eu ia arrumar.
A porta lateral abriu e o doutor Rogério, o cirurgião que eu pago pra ser o melhor e o mais discreto do Rio, veio na minha direção tirando a máscara.
— Titã— ele chamou, com aquele tom sério. — O segundo raio-x confirmou: o tornozelo dela tá destruído. Ela forçou demais, caminhou quilômetros com o osso fora do lugar. Se a gente não intervir agora, ela perde os movimentos do pé.
Eu levantei de uma vez, sentindo o sangue subir pra cabeça, o fuzil nas costas e a pistola ja estava na mão.
— Então opera, Rogério. Tá esperando o quê? Eu quero ela inteira. Opera agora, cara.lho!
— Já estamos com tudo pronto. Só vim te avisar porque ela tá muito agitada, chamando por você.
Eu não esperei ele terminar. Entrei no quarto e vi a Manu tentando se sentar, os olhos de mel transbordando terror. Cheguei perto, sentei na beirada da cama, colocando o fuzil e a pistola no sofa e peguei a mão dela. Era tão pequena, sumia no meio da minha.
— Shhh... calma, pequena. O Rogério tá aqui. A gente vai consertar esse seu pé pra você poder correr de novo. Você vai dar um cochilo e, quando acordar, a dor vai ter ido embora.
Ela apertou meus dedos com uma força desesperada.
— Não me deixa, Ravi... Por favor, eles vão me pegar se você sair.
Encostei minha testa na dela, sentindo o calor da febre.
— Ninguém entra naquela sala a não ser quem eu autorizei. E eu vou tá sentado bem aqui na porta. Eu não saio do seu lado por nada. Eu tô com você, tá ouvindo? Promessa de homem.
A equipe médica entrou e, quando começaram a levar a maca, ela gritou meu nome, chorando. Dei um beijo demorado na testa dela, tentando passar toda a força que eu tinha.
— Vai lá, pequena. Eu tô aqui contigo. Confia em mim.
Foram uma hora e meia de inferno. Eu andava de um lado pro outro, o fuzil batendo no meu peito, a mente fritando. Eu não sabia por onde começar a cobrar, mas cada cicatriz que eu vi naquele corpo era uma dívida que alguém ia pagar com a vida. Eu não sabia que horas eram, eu não sabia o que tava acontecendo no morro, nada mais era prioridade. Só ela.
— Patrão? — O 2K apareceu carregando as sacolas. — Trouxe o shampoo de marca, os sabonetes, tudo. Já deixei no quarto novo. E o lanche tá subindo.
Finalmente, a luz da sala de cirurgia apagou. O doutor Rogério saiu primeiro.
— Foi um sucesso, Titã. Coloquei três pinos de titânio pra alinhar tudo. Ela vai precisar de repouso absoluto, mas a recuperação vai ser total. Ela é forte, rapaz.
Eles levaram ela pro quarto novo, o mais afastado de tudo. Eu entrei e fechei a porta.
O sol já tava baixando, aquele final de tarde alaranjado que bate no Vidigal. Sentei na poltrona de couro e fiquei olhando pra ela. Dei dois toques no rádio pro Trava, só pra confirmar que a boca tava em ordem, e mandei ele seguir no comando.
Dez minutos depois, o lanche chegou: duas caixas enormes, batata frita, hambúrguer, refrigerante de dois litros. Comi ali mesmo, no escuro, vigiando o sono dela. Manu continuava dormindo por causa da anestesia.
Levantei, limpei as mãos e cheguei perto da cama. Ela parecia tão em paz agora. Sem o medo, sem os gritos. Passei a mão no cabelo dela, que agora tava mais macio.
— Você tá em casa, pequena — sussurrei, dando um beijo suave na testa dela. — Eu tô aqui com você agora. E eu juro que quando eu descobrir quem te machucou, o Rio de Janeiro vai ficar pequeno pra esconder eles de mim.
Sorri, sentindo o peso do mundo um pouco mais leve só por ter ela ali. Eu tinha ela de volta. O resto, o sangue e as respostas, viriam depois. Por agora, só importava que ela não tava mais sozinha.