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1595 Palavras
Sentei na poltrona novamente, olhando para o lanche que eu ajeitei em cima da mesa e voltei meus olhos para a Manu. Três pinos. Isso é não machucado qualquer, isso foi tortura, desespero. Porém, eu precisava pensar com calma e de descanso. Reparei na minha roupa estava com ela desde que acordei, teve a correria da Rocinha, a vinda pro Vidigal. Era uma mistura de poeira, cigarro, polvora e eu queria ta limpo pra cuidar dela... Eu precisava ta limpo. Fechei as embalagens de hambúrguer para não murchar tudo, ajeitei o refrigerante de dois litros num canto e dei um beijo rápido na mão dela. — Volto num piscar de olhos, pequena — sussurrei. Saí do quarto voando. Dei a ordem para o 2K e mais dois soldados grudarem na porta e não deixarem nem o vento passar sem autorização. Ninguém entrava, nem médico, nem enfermeira, nem o d***o. Peguei minha moto e rasguei as vielas do Vidigal. O morro estava em brasas, o movimento das bocas a todo vapor, mas eu passei como um vulto. Em casa, joguei o fuzil no sofá, arranquei a roupa suja e catei a primeira bermuda de moletom e uma regata preta que vi na frente. Peguei uma mochila com mais umas mudas de roupa, um chinelo e por um instinto, peguei o edredom da minha cama. Em menos de dez minutos, o ronco da moto ecoava de novo na porta do postinho. Tomei um banho rápido no banheiro do próprio quarto, deixando a água quente levar o peso daquele dia maldito e feliz, ao mesmo tempo. Ter a Manu de volta me trouxe a vida, mas ver o jeito que o destino me devolveu ela, arrancou no mesmo segundo. Quando saí, vesti a regata e a bermuda. Estava mais leve, mais humano. Sentei na poltrona e fiquei ali, no escuro, apenas com a luz do corredor passando por baixo da porta, vigiando cada batida do coração dela. Coloquei o fuzil no sofá, não queria que ela ficasse vendo e a pistola, no cos da minha bermuda, como sempre. A noite já tinha caído pesada sobre o Rio quando ouvi o primeiro suspiro diferente. Manu começou a mexer a cabeça, as pálpebras tremendo. Eu pulei da poltrona antes mesmo dela abrir o olho. Me ajoelhei do lado da maca para ficar na altura dela. — Oi... — falei bem baixinho, a voz rouca, quase um carinho. Ela abriu os olhos devagar. Estava grogue, a pupila ainda um pouco dilatada, olhando ao redor sem entender nada por causa da anestesia. Quando o foco dela travou em mim, eu vi o corpo dela relaxar contra o lençol. — Ravi... — ela murmurou, a voz seca, raspando. — Tô aqui, pequena. Tá tudo bem. O Rogério consertou seu pé, tá ligado? Você tá segura. Fica quietinha que eu vou chamar o médico só para ele ver como você tá voltando. Dei dois toques no rádio e em menos de um minuto o Rogério entrou no quarto. Ele ligou uma luz indireta, mais fraca, para não agredir a visão dela. Ele foi profissional, checou os sinais vitais, olhou o gesso no pé e fez uns testes de reflexo. — Ela está reagindo muito bem, Ravi — Rogério disse, anotando algo na prancheta. — A cirurgia foi limpa. Ela vai precisar ficar uns dias aqui em observação, tomando os antibióticos na veia, mas se não tiver febre, logo recebe alta para terminar de recuperar na sua casa. Manu tentou umedecer os lábios e me olhou com uma carinha que acabou comigo. — Ravi... eu tô com fome. Muita fome. Eu dei um sorriso, o primeiro sorriso de verdade em muito tempo. — Sabia que você ia falar isso. Eu tenho lanche e batata frita aqui, do jeitão que a gente gostava. Os olhos dela brilharam de um jeito que eu não via desde que éramos crianças. Ela engoliu seco, visivelmente desejando aquela comida, mas o Rogério fez uma careta e cruzou os braços. — Olha, eu não recomendo — ele começou. — Ela acabou de sair de uma anestesia geral, o estômago está sensível, o corpo está desnutrido... Eu levantei devagar, ficando de pé diante dele. Não precisei falar grosso, nem ameaçar. Só olhei. Se ela quisesse a por.ra da lua, eu mandava buscava. A única coisa que impediria seria caso de morte, do contrário, eu assumia tudo. — Tem algum problema real, Rogério? Algum risco de morte ela comer esse lanche? O médico deu um passo para trás, sentindo a pressão do ambiente mudar. Ele pigarreou, ajeitando o jaleco. Ninguém nunca me peitava e eu nem precisa mostrar a arma. — Risco de morte não tem, Titã... mas é melhor ela comer devagar, em poucas quantidades. A anestesia pode dar ânsia, enjoo... se ela comer muito rápido, vai colocar tudo para fora e vai ser pior. — Então beleza. Eu controlo a dose. Pode ir lá. O médico saiu meio sem jeito e eu me virei para a Manu. Peguei a sacola e o cheiro de batata frita invadiu o quarto. Puxei a poltrona para bem perto da maca e coloquei as coisas no colo. Abri o hambúrguer e cortei um pedaço pequeno. — Devagar, tá? O doutor avisou que se for muito rápido, o estômago devolve — falei, levando a primeira batata na boca dela. Ela fechou os olhos ao sentir o sal e o gosto da batata. Quando dei a primeira mordida do lanche, ela começou a mastigar e, de repente, as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, caindo silenciosas sobre o lençol. Meu peito deu um nó. Parei com a mão no ar. Não sabia se era dor, medo, fome.. — Que foi, pequena? Tá doendo alguma coisa? O enjoo veio? — perguntei, já ficando preocupado. Ela balançou a cabeça negativamente, soluçando baixo entre uma mastigada e outra. — Não... é que... Ravi, eu não sei quando foi a última vez que eu comi um lanche desses. Eu nem lembro quando foi a última vez que eu comi sentindo que o que eu tava comendo era meu, e não um resto... ou algo que eu tinha que comer escondida pra não apanhar. Eu larguei o lanche de lado por um segundo e puxei ela para um abraço, com cuidado por causa dos acessos no braço dela. Encostei o rosto no dela, sentindo as lágrimas dela molharem minha regata. — Acabou, Manu. Eu juro por tudo que é mais sagrado, eu nunca mais vou perder você. Ninguém nunca mais vai te dar resto de nada. Você vai ter o que quiser, a hora que quiser. A gente vai pra casa logo, e eu vou colocar o mundo aos seus pés. Ficamos ali um tempo, abraçados, até o soluço dela passar. Ela se afastou um pouco, limpando o rosto com as costas da mão, e apontou para a batata. — Quero mais uma. Eu ri baixo, sentindo um alívio que não cabia em mim. Fui dando as batatas uma por uma, controlando as mordidas do hambúrguer. Ela fechava os olhos a cada pedaço, parecendo que estava saboreando a liberdade em forma de comida. Quando abri o refrigerante, o barulho do gás saindo fez ela dar uma risadinha fraca, mas livre. — O gás arde o nariz — ela disse, rindo depois de dar um gole pequeno. — Faz tanto tempo que eu não tenho uma noite assim... sem medo de alguém entrar no quarto pra me bater ou pra me gritar. Ela olhou para as mãos, depois para o próprio corpo sob o lençol do hospital. — Só faltava um banho agora. Eu me sinto... suja. O cheiro daquela rua, daquele lugar... não sai de mim. — Eu já resolvi isso — falei, apontando para a mochila que eu trouxe. — Comprei tudo do melhor na farmácia. Shampoo, condicionador, sabonetes que cheiram a flores, hidratante... Se você quiser, eu ajudo você agora. Ou, se tiver vergonha, eu chamo uma enfermeira para te dar um banho. Manu me olhou por um longo tempo. Tinha uma confiança ali que tinha sido construída na base do esgoto do Vidigal anos atrás, e que nem dez anos de tortura conseguiram apagar. — Você põe um banco pra mim lá no box? — ela perguntou. — Eu não consigo ficar de pé. E... se você puder ajudar a lavar o meu cabelo... eu não tenho força nos braços pra esfregar. — Eu estou às ordens da patroa — falei, tentando manter o tom leve para ela não se sentir m*l. — Vou preparar tudo. Vou deixar o banheiro quentinho e pegar as toalhas. Levantei e comecei a organizar as coisas. Enquanto eu arrumava o shampoo e as toalhas, eu pensava no quanto a vida tinha sido covarde com ela. Uma menina tão cheia de luz, reduzida a alguém que chorava por uma batata frita e pedia ajuda para lavar o cabelo porque estava fraca demais. Mas agora, eu tava no jogo. E as regras eram minhas. Eu ia lavar o corpo e a alma dela, ia carregar ela até ela andar de novo, sem dor e quando ela tivesse forte e me contasse a verdade, eu ia cobrar geral - onde o d***o iria sentar para aprender. — Tá pronto, pequena — falei, voltando para o lado da maca. — Vamos? Peguei ela no colo de novo, com o maior cuidado do mundo, sentindo como ela era leve — leve demais, o que me dava mais raiva ainda daqueles desgraçados. Levei ela para o banheiro, sentindo que aquele era o primeiro passo de uma vida nova.
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