Levei a Manu para o banheiro como se carregasse um vidro precioso, delicado, que a menor brisa, poderia quebrar. O chuveiro ja estava ligado, enchendo de vapor e tampando o espelho.
Coloquei ela na cadeira do banho, uma zero. Não queria nada que tivesse sido usado por outras pessoas. Queria tudo limpo pra ela.
Ajoelhei na frente dela e passei um saco plástico e uma fita, isolando o gesso branco que o Rogério tinha colocado no pé dela.
— Não pode molhar isso aqui, pequena Se entrar água, vai coçar e pode dar r**m nos pontos da cirurgia — falei, dando leves apertadas para garantir que nem o vapor entrasse.
Ela concordou, me olhando como um salvador. A timidez dela estava ali, misturo com alivio.
Logo, comecei pelo cabelo. Peguei aquele shampoo caro e despejei uma quantidade generosa na palma da mão. Quando encostei os dedos no couro cabeludo dela e comecei a massagear, senti Manu soltar um suspiro longo, fechando os olhos e deixando a cabeça pender para trás.
Passei o shampoo uma, duas, três vezes. A água saía escura no começo, levando embora a poeira da rua e os resquícios daquela vida maldita que ela levou. Depois veio o condicionador. Com uma escova, fui soltando os nós com uma paciência que eu nem sabia que tinha. Geralmente, eu sou o cara que resolve tudo no soco ou no grito, mas ali, desembaraçando o cabelo da Manu, eu era o cara mais delicado do mundo.
— Tá doendo? — perguntei, quando o pente travou num emaranhado mais difícil.
— Não... tá bom. Tá muito bom, Ravi — ela sussurrou, e eu vi um sorrisinho de canto surgir no rosto dela.
Depois que o cabelo estava enxaguado e liso como seda, chegou a hora mais delicada. Eu a ajudei a tirar aquela camisola áspera do hospital. Meus olhos queriam desviar por respeito, mas ao mesmo tempo, eu precisava ver o estado dela para saber onde cuidar.
Entreguei a bucha macia e o sabonete na mão dela.
— Vou esperar do lado de fora da cortina, tá? Toma seu tempo. Lava tudo o que você sentir que precisa lavar. Tira esse peso de você.
Saí e encostei a porta, ficando encostado na parede do quarto, ouvindo o som da água. Eu ouvia o barulho da bucha, e de vez em quando, ouvia uma risadinha abafada vindo de lá de dentro. Aquele som era música para os meus ouvidos.
Imaginei ela ali, se apoiando na barra de segurança com uma mão, mantendo o pé operado no ar enquanto a água quente batia no corpo. Ela estava se limpando por dentro e por fora, sentindo o alívio de ser dona do próprio corpo de novo. Ela gastou quase o sabonete inteiro, e eu não reclamaria se ela gastasse a fábrica toda.
— Ravi? Pode vir? — a voz dela saiu doce, relaxada.
Peguei a toalha felpuda e entrei com o braço estendido. Ela se cobriu com cuidado, enrolando o pano no corpo pequeno. Só então eu entrei totalmente, desliguei o chuveiro e a peguei no colo de novo. O cheiro de flores que agora exalava dela era mil vezes melhor do que qualquer perfume caro de bacana da Zona Sul.
Coloquei ela sentada na maca e peguei um hidratante que a vendedora tinha me empurrado.
— Ó, a mulher lá disse que esse aqui é bom pra pele. Tem cheiro de baunilha, eu acho.
Comecei a passar nas pernas dela, subindo pelos braços com cuidado. Manu estava quieta, apenas sentindo o toque, como se estivesse processando que aquele carinho era real. Fui penteando os cabelos úmidos dela com calma, até que ela se virou um pouco.
— Ravi... passa nas minhas costas? Tá repuxando um pouco.
Ela soltou a toalha devagar até a cintura. No momento em que o pano desceu, meu coração deu um soco no peito, o ar sumiu, o chão.. tudo.
As costas da Manu eram um mapa de dor. Tinha marcas de cintadas, cicatrizes de cortes antigos e umas manchas que pareciam queimaduras. Senti um gosto amargo na boca, uma vontade de sair dali e quebrar o mundo, mas respirei fundo. Ela não precisava da minha fúria agora; ela precisava da minha paz.
— Vou tomar muito cuidado aqui, tá? — falei, a voz quase sumindo. — Se doer, você me avisa na hora.
Passei o creme com a ponta dos dedos, como se estivesse tocando em uma asa de borboleta. Ela estremeceu levemente, mas relaxou.
— Esqueci de comprar um pijama, Manu. Vacilei feio — comentei, tentando mudar o clima pesado.
— Tudo bem, eu uso essa roupa do hospital mesmo. É limpa.
— Nem pensar. Você não vai usar nada desse lugar que te lembre de doença ou de fraqueza.
Abri minha mochila. Eu tinha trazido uma camiseta preta minha, daquelas de algodão bem macio, e uma cueca box preta que estava no pacote, novinha. Entreguei pra ela. A camiseta ficou parecendo um vestido nela, e a cueca ficou como um shorts de dormir, soltinho e confortável.
Ajeitei ela na cama, tirei as toalhas úmidas e os frascos de creme. Antes de ela deitar de vez, peguei a corrente de ouro que estava guardada no meu bolso. Abri o fecho e coloquei de volta no pescoço dela. O ouro brilhou contra a pele agora limpa e hidratada.
— Quer mais alguma coisa? Água? Outra batata? — perguntei, ajeitando o travesseiro.
— Não... parece que eu tô num sonho, Ravi. De verdade. Onde eu tava... a luz era sempre r**m, o cheiro era sempre r**m. Aqui tá tudo tão... limpo. Eu queria saber se posso.. Posso ligar a TV?
Eu cheguei bem perto dela, segurando o queixo dela com o polegar, obrigando-a a me olhar nos olhos.
— Escuta bem, Manuela. Aqui dentro, e lá na nossa casa, você manda em tudo. Qualquer lugar. Você não pede autorização para nada. Se você quiser quebrar a TV, você quebra. Se quiser ligar, liga. Você é a patroa. Entendeu?
Ela deu uma risadinha de verdade dessa vez, pegando o controle. Ela foi passando os canais até achar um filme qualquer, uma comédia romântica dessas que eu nunca teria paciência de ver sozinho.
— Deita aqui comigo? — ela pediu, batendo a mão no espaço vazio da maca, que era larga o suficiente para nós dois se ficássemos bem juntos.
Tirei o chinelo e me enfiei debaixo do lençol com ela. Manu se aconchegou imediatamente, colando o corpo no meu. Ela começou a passar os dedos pelos meus braços, traçando os desenhos pretos das minhas tatuagens.
— Você mudou tanto... tá tão grande, tão cheio de marcas. O que são esses desenhos? — ela perguntou, curiosa, tocando um fuzil estilizado no meu antebraço.
— Coisas da vida que eu escolhi, pequena. Marcas de guerra. Mas ó... tem uma que eu nunca mudei.
Virei o braço esquerdo, mostrando a parte interna do bíceps. Ali, bem nítido, estava o rosto dela quando criança, o mesmo rosto que estava na foto que eu carregava na carteira há anos. Em volta, tinha umas flores de ouro desenhadas e o nome dela em letras góticas.
— Eu nunca esqueci, Manu. Todo dia que eu acordava e olhava pra esse braço, eu lembrava por que eu tava lutando. Eu sempre te procurei. Em cada orfanato clandestino, em cada morro, em cada lista de adoção que eu conseguia hackear... eu nunca parei.
Manu não disse nada por um tempo. Ela só ficou olhando para a própria imagem no meu braço, e de repente, ela me abraçou com uma força que me surpreendeu. Ela enterrou o rosto no meu peito, soluçando baixinho, mas não era um choro de dor. Era o choro de quem finalmente foi encontrada.
— Eu achei que você tinha morrido, Ravi. Eles me diziam que você tinha sido morto pela polícia ou por outros bandidos. Eles queriam que eu perdesse a esperança para eu aceitar o que eles faziam comigo.
Apertei ela contra mim, beijando o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro do shampoo de flores e o hidratante de baunilha, um cheiro que me dava paz.
O mundo lá fora podia estar desabando, o Trava podia estar segurando uma guerra na boca, mas nada disso importava naquele momento. Eu estava completo de novo. O vazio que existia no meu peito há dez anos tinha sido preenchido pelo peso do corpo dela contra o meu.
— Dorme agora, pequena. Eu tô aqui. Eu sou a sua sombra, e ninguém passa por mim.
Ficamos ali, assistindo ao filme sem prestar atenção em nada, apenas sentindo o calor um do outro. A respiração dela foi ficando pesada, rítmica, e eu soube que ela finalmente tinha caído no sono profundo da segurança.
Eu não dormi. Fiquei ali, admirando o brilho da corrente de ouro no pescoço dela e prometendo mentalmente que o sol não nasceria para os quem fizeram isso com ela, sem que eles começassem a pagar o preço de cada cicatriz que eu vi naquelas costas. O Titã estava de volta, e ele tinha uma razão para queimar o mundo.